Criado em 2006 e financiado pela Sociedade de Jogos de Macau, o Centro de Consulta de Jogo Responsável Yat On apoiou mais de uma centena de pessoas entre Janeiro e Novembro do ano passado, número equivalente ao de 2016. Sustentando que o volume de pedidos não é o aspecto mais importante, já que as pessoas passaram a ter mais alternativas com o aparecimento de novas associações que prestam esse tipo de serviço, Vega O, assistente social que representa o Centro, salienta que têm sido detectados vários casos de indivíduos sem consciência da sua problemática ligação ao jogo. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, alerta ainda para o facto de ser “muito alta” a possibilidade de pessoas recuperadas voltarem a cair no mesmo ciclo numa cidade onde a variedade de tipos de jogo disponibilizados fora dos casinos constitui a maior dificuldade para o controlo do jogo problemático. No entanto, a responsável do Centro Yat On entende que as operadoras dos casinos têm desenvolvido trabalhos “suficientes” ao nível da divulgação do jogo responsável, tanto no exterior como junto dos seus funcionários
Rima Cui
-No “sistema de registo central dos indivíduos afectados pelo distúrbio do vício do jogo”, os funcionários do sector representam 30%. Como encara a proposta para proibir a entrada em casinos dos funcionários desses estabelecimentos?
-O nosso Centro apoia muito esta proposta. Achamos que será uma medida eficaz, porque, em primeiro lugar, terá um papel dissuasor para os novos funcionários. Por outro lado, alguns funcionários do sector do jogo receiam que a proibição funcione como uma discriminação. Mas, essa proibição não significa discriminação, tratando-se sim de uma rede de protecção com maior força. E, com esta rede, os familiares dos trabalhadores também serão protegidos. De acordo com um estudo, um jogador problemático pode afectar 17 pessoas que lhe são próximas. Acredito que a revisão da lei contribuirá para reduzir as oportunidades para os funcionários do sector se envolverem no jogo.
–Pessoas que recuperaram do distúrbio do vício do jogo enfrentam grandes riscos de recaída?
-Com certeza, a possibilidade de recaída é muito alta. Normalmente, há uma deterioração e distância na relação entre as pessoas afectadas pelo jogo e os seus familiares devido a certos actos. Analisando a situação em Macau, vemos que as pessoas que sofrem deste problema apenas pedem apoio por iniciativa própria quando acham que não há outra solução para melhorar a situação. Mesmo quando os objectivos de recuperação são atingidos, temos um período posterior de acompanhamento. Por norma, entre o início e o término de um caso demora um ano e o período de acompanhamento varia entre meio e um ano. Caso neste espaço de tempo os familiares não consigam prestar apoio atempadamente, será fácil que os afectados voltem a praticar actos problemáticos ligados ao jogo.
-Hoje em dia, quais são as maiores dificuldades para controlar os comportamentos de jogo problemático?
-Para além dos que são disponibilizados nos casinos, há diversos tipos de jogos em Macau. Agora, é muito popular o jogo online e está igualmente em voga a transmissão online dos jogos dos casinos, o que é ilegal. Além disso, o telemóvel também se pode tornar numa ferramenta de jogo. A supervisão dessas variantes de jogo é mais difícil, porque são práticas muito escondidas e difíceis de descobrir. É necessário fiscalizar os jogos online que envolvem apostas.
-A Universidade de Macau foi incumbida de estudar a percepção dos cidadãos em relação ao sector do jogo. Qual é a sua opinião sobre esta matéria?
-Penso que existem duas tendências diferentes. Em geral, pessoas de idade avançada, que nasceram e cresceram no território, acham que a indústria do jogo é efectivamente o pilar que suporta toda a cidade, considerando que tanto o desenvolvimento do turismo como do sector da construção é fruto do crescimento das receitas dos casinos. Por outro lado, muitos jovens nascidos nas décadas de 80 e 90 ou já no século XXI questionam se Macau será realmente incapaz de sobreviver sem o sector do jogo. Na minha perspectiva, hoje em dia, o sector do jogo é a cabeça da economia de Macau, mas vemos que o Governo tem promovido projectos turísticos, culturais e criativos. De facto, tem vindo a ser criado um equilíbrio na estrutura económica.
-Quantos funcionários tem actualmente o Centro Yat On e quais são as suas tarefas concretas?
-No Centro trabalham seis, mas é claro que temos também muitos assessores e directores que representam a nossa administração. Temos um assistente social, um assistente de apoio e alguns estagiários. Uma das particularidades do nosso Centro é que todos os funcionários precisam de possuir um certificado académico de assistência de jogo reconhecido pelo Canadá.
-Quantas pessoas já participaram nesse programa de formação reconhecida pelo Canadá? E como decorrem os cursos?
-Até este ano, realizámos quatro edições do curso. Nos últimos anos, tivemos muitos inscritos e precisámos de abrir duas turmas, cada uma com 20 alunos. Porém, devido à coincidência entre os horários das aulas e de trabalho de muitos interessados, recebemos apenas 10 alunos em 2017. O curso foi aberto em Agosto e terminou em Setembro. As exigências do Centro são elevadas. Antes do estágio, requeremos aos alunos a conclusão de 150 horas de trabalho voluntário, que saibam responder à ‘hotline’, ao email e realizem trabalhos de divulgação nos bairros sobre o jogo responsável. Dos 10 alunos, três já cumpriram essas exigências, permitindo dar início às 20 horas de estágio.
-Para divulgar o conceito de jogo responsável, o Centro organizou em 2016 uma iniciativa de “flash mob”. Mas, o Secretário para a Segurança já alertou para a ilegalidade dessas actividades, apesar de serem céleres. Tendo em conta esse facto, haverá margem para continuar a apostar nesse método de sensibilização?
-Depois da declaração do Secretário para a Segurança, haverá obviamente alguma preocupação por parte dos interessados no aproveitamento desse tipo de actividade. Mas acho que também é preciso ter em conta o tema e a ideia que se pretende divulgar através do ‘flash mob’. Será possível fizermos um pedido aos departamentos competentes antes da realização da actividade. Para além de nós, muitas entidades de serviços sociais promovem iniciativas com “flash mob” e toda a gente tem a mesma preocupação. O nosso Centro tem a particularidade de ser financiado por uma operadora de jogo, enquanto que outros, se calhar, precisam de ter o apoio de recursos do Instituto de Acção Social para promover diversas iniciativas. No futuro, se pretendermos realizar ‘flash mob’, iremos avisar as autoridades.
-Como avalia o trabalho das operadoras de jogo na promoção do jogo responsável?
-O nosso centro é financiado pela Sociedade de Jogos de Macau (SJM), mas as operadoras de capitais estrangeiros também têm feito muitos esforços na sensibilização para o jogo responsável. Para além de transmitirem conhecimentos sobre a matéria junto dos funcionários, têm divulgado muitas informações no exterior. Sabemos que os trabalhos de divulgação não podem ser feitos num único dia, nem as pessoas ficam sensibilizadas apenas com slogans. As ideias vão convencendo as pessoas pouco a pouco. Algumas operadoras organizaram competições sobre esse tipo de conhecimentos, de variadas formas, e em muitos ‘shuttle-bus’ podemos ver frases relativas ao jogo responsável. Acho que os trabalhos feitos pelas operadoras de jogo neste âmbito são suficientes.
-Quantas pessoas foram ajudadas pelo Centro Yat On em 2017? Qual é a tendência, em comparação com o ano transacto?
-Entre Janeiro e Novembro, ajudámos através da ‘hotline’ e do site um pouco mais de 100 pessoas, incluindo casos repetidos. O número é mais ou menos equivalente ao registado no ano passado. A tendência no número de solicitações de ajuda não apresentou diferenças entre os dois anos. Em primeiro lugar, como o Centro não é uma entidade financiada pelo Governo, o nível de divulgação poderá ser um pouco mais baixo em comparação com outras entidades. Esse número também depende muito do grau de iniciativa dos indivíduos afectados pelo distúrbio do vício do jogo. Obviamente, é impossível detectarmos pessoas perturbadas por este problema nos casinos, quando estão a divertir-se no jogo ou extremamente zangadas por causa de perderem dinheiro em apostas. Por outro lado, registámos uma certa quantidade de casos em que as pessoas tiveram acções problemáticas com o jogo mas não se aperceberam disso, o que fez com que os pedidos de apoio tivessem sido apresentados por familiares. Além disso, muitas pessoas preferem ser convencidas por familiares nas suas casas do que receber apoio do Centro. Nos últimos anos, muitas associações começaram a promover serviços de apoio a jogadores, pelo que, naturalmente, aumentaram os recursos e as alternativas para as pessoas afectadas. Para nós, a quantidade não é tão importante como a qualidade.
-Qual é a amplitude do papel desempenhado pelo Centro Yat On na sociedade de Macau?
-Antes de mais, a nossa equipa é muito profissional, quer em termos dos colegas do Centro, quer dos assessores. Além disso, atendendo ao financiamento de uma operadora de casinos, que representa uma vantagem ao nível dos recursos, temos uma direccionalidade fixa na prestação de apoio relacionado com o jogo, em vez de apostarmos noutras vertentes. Foi a deputada Angela Leong que sugeriu que fizéssemos a ligação a estabelecimentos subordinados à SJM e enviássemos assistentes para divulgar o jogo responsável em casinos. Isso é uma das nossas principais especificidades. Apesar de outras associações de serviços sociais cooperarem com operadoras de jogo de capitais estrangeiros, as actividades desenvolvidas são normalmente de curto prazo. Mas, nós deslocamo-nos todas as semanas a estabelecimentos diferentes da SJM, estabelecendo relações com os funcionários do jogo. Embora a nossa tarefa seja divulgar o jogo responsável, queremos reforçar gradualmente as relações com trabalhadores do jogo, para mais tarde ganhar a confiança dessas pessoas, caso venham a enfrentar problemas com o vício. Outra particularidade nossa na Grande China é que temos estagiários provenientes do sector do jogo com experiência de trabalho na linha da frente. Os estagiários contribuem com conhecimentos valiosos na área. Este ano, pretendemos aumentar o número dos estabelecimentos com quem colaboramos e a frequência dos serviços.
-Desde a sua criação, em 2006, o Centro passou por algumas alterações, nas estratégias ou nas tarefas?
-De facto, não. No início, chamava-se Centro de Consulta dos Jogadores de Azar Patológicos, antes do nome ser alterado para Centro de Consulta de Jogo Responsável. A designação foi alterada, mas nunca mudámos em relação às ideias, porque adoptamos sempre o princípio de ‘reduzir o prejuízo derivado do jogo’. Percebemos que a ‘desistência’ é um requisito demasiado exigente, por isso, o nosso objectivo não é tão ambicioso. Por exemplo, se uma pessoa, que antes ia aos casinos todos os dias, passar a frequentá-los cinco vezes por semana com a ajuda do Centro, isso para nós já representa um sucesso.
-Numa altura em que tem sido muito abordado o tema da “cidade inteligente”, os serviços do Centro também poderão ser alvo de alguma actualização?
-Em 2008, lançámos o plano de apoio online, numa altura em que era muito popular o modelo de ‘fórum’. E o Centro criou o seu próprio fórum, oferecendo um espaço para que, por exemplo, funcionários de jogo pudessem partilhar experiências e dificuldades no trabalho. Hoje, os nossos serviços continuam disponíveis no Facebook, WeChat e WhatsApp. Acho que demos um passo mais cedo no desenvolvimento da ‘cidade inteligente’. É claro que também queremos avançar com uma aplicação de telemóvel, mas ainda precisamos de comunicar com a operadora de jogo e o Governo. Actualmente, os funcionários da SJM podem ter acesso a uma aplicação móvel onde, para além de estarem disponíveis informações sobre descontos destinados aos trabalhadores, também constam as vias de contacto com o Centro.



