O navegador Ricardo Diniz pretende recriar a rota de Fernão de Magalhães, 500 anos depois, e quer que a Direcção dos Serviços de Turismo de Macau o apoie no financiamento do projecto. Coloca mesmo a possibilidade de um desvio à rota para passar pelo território numa missão que iria durar três anos. O português, que foi nomeado Embaixador Europeu dos Oceanos pela Comissão Europeia em 2007, promove também a sustentabilidade e uma redução do plástico que muitas vezes acaba por contaminar os oceanos

 

Salomé Fernandes

 

O veleiro do navegador solitário Ricardo Diniz tem seis painéis solares, um gerador eólico e auto-sustentável. A água que dali se bebe é filtrada do oceano. Mas o navegador pode vir a precisar de uma embarcação maior até 20 de Setembro do próximo ano. Uma troca necessária se chegar a embarcar na missão que seria a última: recriar a volta ao mundo de Fernão de Magalhães. Para isso precisa de financiamento, e aproveitou a sua vinda ao território para uma palestra que decorreu ontem na Universidade de Macau para procurar apoio junto da Direcção dos Serviços de Turismo.

“Macau tornou-se um destino incontornável. E não é preciso estar ligado a casinos e jogo para vir apreciar o que está aqui. É um feito tremendo a todos os níveis e a nível histórico é muito interessante, acho que o mundo ainda está por descobrir Macau”, comentou Ricardo Diniz, acrescentando “se Magalhães fizesse agora a volta ao mundo, ele obviamente faria escala em Macau”. “Há 500 anos não fez, até porque foi morto nas Filipinas”.

Por outro lado, apontou para um alinhamento que entende dever aproveitar. Há 22 anos que desenvolve missões a promover Portugal no mundo através do mar, e sente que muitas vezes a vontade nasce de uma missão superior. Hoje tem a mesma idade que Magalhães tinha quando morreu, sendo que ambos nasceram na mesma data. E tem agora experiência para recriar a rota, algo que não sucedia há 10 anos. “Humildemente apercebo-me que se não for eu a levar um projecto destes para a frente também mais ninguém o fará”, comentou.

No entanto, para arrancar com a iniciativa precisa de parceiros, tendo ontem tido uma “primeira conversa” com Helena de Senna Fernandes. “[É um projecto que] precisa de um grande parceiro, uma marca ou entidade forte por trás. E vou recriar essa rota da forma mais fiel possível ao que Magalhães fez”.

Questionado sobre se um dos desvios excepcionais consistirá numa passagem por Macau respondeu apenas “quem sabe, vamos ver como corre a conversa [com Helena de Senna Fernandes] quem sabe se eventualmente a Missão Magalhães não tem um terceiro ‘M’ ainda a seguir com a palavra Macau, seria engraçado”.

Já teve duas reuniões com o Governo português, mas diz que, à semelhança do que aconteceu com Fernão de Magalhães, não está a contar com apoio daí, questionando se não será “de fora que vem a solução”. A realizar-se, a missão arranca a 20 de Setembro de 2019, a sair de Sevilha, 500 anos depois da figura histórica o ter feito. “Se a fizer será de longe o nosso maior projecto de sempre. É uma volta ao mundo de três anos, é um projecto diplomático”, comentou.

A ideia seria não viajar a solo, mas sim levar um barco maior do que o seu para transportar pessoas dos diversos sítios por onde Magalhães passou, “pessoas de peso e influência política na sociedade para que sejam também eles porta-vozes da mensagem de sustentabilidade”. Isto porque acredita que a mensagem actual do navegador da nobreza portuguesa seria de sustentabilidade e ecologia.

“Provavelmente não estaria em todas as etapas até porque não gosto de ser pai à distância. (…) Mas o desafio é chegar à linha de partida, é financiar uma coisa destas. É um grande investimento, mas sobretudo é uma oportunidade gigantesca mundial de posicionar uma marca, um país, numa mensagem fortíssima”, comentou.

 

Preservação dos mares

Sustentabilidade é, de resto, também a mensagem do próprio Ricardo Diniz, nomeado Embaixador Europeu dos Oceanos pela Comissão Europeia em 2007. Considera que “politicamente temos territórios que pertencem a certos países e zonas marítimas que pertencem a certos países, mas no fundo o ser humano tem de perceber que o planeta não é nosso”. Nem o mar.

Por isso, advoga existir uma necessidade de mudança de postura por parte das pessoas, para uma protecção do planeta, porque já observa os efeitos da poluição, nomeadamente das águas. Depois do equivalente a quatro voltas ao mundo por via marítima, vê um mar diferente de quando atravessou o Atlântico pela primeira vez em 1996.

“O mar nem está da mesma cor. Era o azul mais bonito que alguma vez tinha visto e agora está mais acinzentado, mais pálido, há sempre uma película de qualquer coisa à superfície. (…) Bastam poucos minutos de deixar de olhar para o barco e olhar para o mar enquanto estou a navegar, para encontrar qualquer coisa a flutuar que não devia lá estar. Plástico, um garrafão, uma bóia, um bocado de rede de pesca. Algo que não pertence ao mar. E isso é deprimente, e é chocante”, descreveu.

O navegador descreveu as ilhas de plástico que se observam no Pacífico como um fenómeno “surreal” e alertou para a importância de perceber a origem do problema para além de fechar praias e ilhas como já sucedeu em locais como as Filipinas e a Tailândia. “Temos de produzir menos plástico, reutilizar o que existe e reciclar o que já não podemos reutilizar e mudar radicalmente a nossa forma de consumir. As marcas têm de produzir mega tanques de água em que eu vou abastecer a minha garrafa de alumínio daquela água. Podemos comprar água a granel também”, sugeriu Ricardo Diniz.

Preocupado com a geração dos seus filhos, reforçou que “o planeta não precisa dos seres humanos”. “Quando dermos cabo disto demos é cabo da nossa espécie. O planeta em 30 milhões de anos dá a volta a isto tudo e é como se nunca cá tivéssemos estado. Os dinossauros foram embora com uma pinta tremenda, nós também vamos. Não há tecnologia que nos salve se não mudarmos a nossa postura, a capacidade de vivermos em harmonia uns com os outros”, alertou.