Macau conquistou, em 20 anos de administração chinesa, dez quilómetros quadrados ao mar e aumentou a população residente em 200 mil habitantes, uma expansão que vai continuar nos próximos anos, Macau, China, 16 de dezembro de 2019. (ACOMPANHA TEXTO DO DIA 17 DE DEZEMBRO DE 2019) JOÃO RELVAS/LUSA
Macau conquistou, em 20 anos de administração chinesa, dez quilómetros quadrados ao mar e aumentou a população residente em 200 mil habitantes, uma expansão que vai continuar nos próximos anos, Macau, China, 16 de dezembro de 2019. (ACOMPANHA TEXTO DO DIA 17 DE DEZEMBRO DE 2019) JOÃO RELVAS/LUSA

Em apenas seis meses, as projecções do FMI sobre a economia de Macau em 2022 sofreram uma inversão total, passando de um crescimento de 15,5% para uma quebra de 22,4%. Já para o próximo ano, a organização internacional prevê agora um aumento do PIB próximo dos 57% e ligeiras reduções no desemprego e na inflação

 

Sérgio Terra

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) operou uma reviravolta completa nas suas previsões sobre o desempenho económico de Macau em 2022, no intervalo de apenas seis meses. Depois de ter projectado um crescimento de 15,5% no relatório de Abril, a instituição estima agora que, no cômputo geral do corrente ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do território irá sofrer uma quebra de 22,4%, em termos reais, em relação a 2021.

Por outro lado, no novo relatório sobre as “Perspectivas da Economia Mundial”, publicado este mês, o FMI antecipa uma subida de 56,7% do PIB no próximo ano, impulsionada pela baixa base comparativa estabelecida em 2022, e prevê uma desaceleração do crescimento, para 3,3% em 2027. Em Abril, a instituição apontava para aumentos de 23,3% em 2023 e 3,5% em 2027.

Os últimos dados divulgados pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) de Macau indicam que, após ter crescido 18,0% entre 2020 e 2021, a economia local caiu 8,9% e 39,3% no primeiro e segundo trimestres deste ano, respectivamente. A recessão acentuou-se no segundo trimestre devido sobretudo ao surto de covid-19, que começou a 18 de Junho e acabou por se prolongar por 44 dias.

A economia da RAEM, que acumula três quebras trimestrais consecutivas, só cresceu em dois dos últimos 14 trimestres (segundo e terceiro de 2021), segundo dados oficiais analisados pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU. Entre Abril e Junho, o PIB a preços correntes foi estimado em 35,59 mil milhões de patacas, valor que traduz diminuições de 33,48% e 43,03% em termos trimestrais e anuais, respectivamente, e equivale a apenas 30,46% do registado no quarto trimestre de 2019, o último antes da pandemia.

No relatório recém-lançado, o FMI não especifica os motivos do profundo corte nas estimativas para Macau, contudo, em Abril já tinha deixado uma ressalva – embora as projecções apontassem para um crescimento de 15,5% em 2022, “impulsionado pelo regresso gradual dos turistas estrangeiros e pela recuperação da procura interna”, persistiam “grandes riscos descendentes”. “Um ressurgimento da pandemia da Covid‑19 pode travar a recuperação da RAEM a curto prazo e comprometer a viabilidade do sector do jogo a médio prazo”, advertiu então o Conselho de Administração do FMI, corroborando as conclusões do seu corpo técnico após mais uma ronda das consultas regulares ao território, ao abrigo do Acordo Constitutivo da instituição sediada em Washington.

Além disso, observou, “potenciais incumprimentos em grande escala no sector imobiliário” do Interior da China e “um súbito abrandamento do crescimento” no Continente “colocam riscos ao sistema económico e financeiro da RAEM. “O declínio da capacidade de serviço da dívida das famílias devido às perdas de rendimento induzidas pela pandemia e as pressões sobre as empresas não financeiras decorrentes de condições financeiras mundiais mais restritivas poderão afectar negativamente o sistema bancário”, referiu ainda na altura.

 

Desemprego deverá registar pequena descida em 2023

As projecções de Outubro do FMI também apresentam uma revisão em alta no que diz respeito à taxa de desemprego em Macau em 2022, mas mantêm as perspectivas de melhoria do mercado laboral no próximo ano, embora numa proporção menor do que se antevia há seis meses. A instituição dirigida pela economista búlgara Kristalina Georgieva prevê agora que a RAEM registe taxas de desemprego de 3,0% este ano e 2,7% em 2023, acima dos 2,6% e 1,8%, respectivamente, estimados em Abril.

Embora o FMI ressalve que “as definições nacionais de desemprego podem divergir” das suas, as previsões para Macau evidenciam um grau de optimismo que não é suportado pelos dados mais recentes da DSEC. Após ter encerrado 2021 nos 2,9% – o FMI menciona 3,0% -, a RAEM tem enfrentado sucessivas subidas no desemprego ao longo deste ano, com a taxa geral a fixar-se em 4,3% entre Junho e Agosto, o nível mais elevado dos últimos 18 anos, enquanto a dos residentes subiu para 5,5%, a percentagem mais alta desde o início da respectiva compilação de dados (Janeiro a Março de 2008).

Paralelamente, segundo a DSEC, a taxa de subemprego avançou para 16,5%, passando a ser a mais alta desde o início dos registos (Julho a Setembro de 1996). No seu conjunto, o desemprego e subemprego afectavam cerca de 78.900 pessoas entre Junho e Agosto, mais 12.700 ou 19,2% do que nos três meses terminados em Julho, correspondendo a 20,8% da população activa que vivia em Macau.

No capítulo da inflação, as discrepâncias funcionam em sentido contrário, com o FMI a rever os cálculos em baixa, mas continuando a apontar para valores mais altos do que os sugeridos pela evolução dos dados oficiais da RAEM. A instituição prevê que a taxa de inflação, que foi quase nula em 2021, atinja 2,5% em 2022 recuando depois para 2,4% no próximo ano e 2,2% em 2027. Em Abril, antecipava taxas de 2,8%, 2,7% e 2,5% para os três anos referenciados.

Todas essas taxas estão bem acima da última actualização da DSEC sobre o intervalo comparativo usado para definir a taxa anual de inflação. Segundo o organismo, o índice geral médio de preços no consumidor cresceu 1,09% nos 12 meses terminados em Setembro em relação ao ciclo anual imediatamente anterior. No mês de Setembro, a inflação em Macau registou ainda assim o décimo acréscimo consecutivo.

Relativamente ao saldo da balança corrente da RAEM em percentagem do PIB, o FMI prevê agora um valor negativo de 2,4% para 2022, antes de recuperar para terreno positivo em 2023 (22,8%) e 2027 (31,0%). As projecções anteriores indicavam saldos positivos de 3,5% este ano, 14,9% no próximo e 26,2% em 2027.

No relatório de Abril, a instituição internacional sustentou que a “recuperação da RAEM deverá prosseguir, mas vai levar tempo até que a economia recupere totalmente das perdas induzidas pela pandemia”. “O regresso gradual dos turistas estrangeiros e o reforço da procura interna irão apoiar a recuperação a curto prazo, enquanto o aumento do investimento, associado à emissão de novas concessões de jogo, e a maior integração com a Área da Grande Baía irão impulsionar o crescimento a médio prazo”, todavia, atendendo à “gravidade das perdas económicas durante a pandemia”, o PIB só deverá superar o nível anterior à crise em 2025, acentuou.

“Na ausência de progressos rápidos no sentido da diversificação económica, o saldo de conta corrente deverá regressar aos níveis anteriores à pandemia quando os turistas retornarem à RAEM”, acrescentou.

Numa análise global, o FMI considerou, no início deste mês, que “a actividade económica mundial está a passar por uma desaceleração ampla e mais acentuada do que o esperado, com uma inflação mais alta do que a observada em várias décadas”. “A crise do custo de vida, o aperto das condições financeiras na maioria das regiões, a invasão da Ucrânia pela Rússia e a persistente pandemia de COVID-19 pesam muito sobre as perspectivas”, alertou.

A instituição manteve a previsão de crescimento mundial para 2022 em 3,2%, percentagem que já reviu três vezes este ano, mas reduziu pela quarta vez as expectativas para 2023, apostando agora em 2,7%, menos 0,2 pontos do que o previsto em Julho. Exceptuando a crise financeira mundial e a fase aguda da pandemia, “este é o perfil de crescimento mais fraco desde 2001”, notou, estimando ainda que a inflação mundial poderá subir de 4,7% em 2021 para 8,8% em 2022, antes de baixar para 6,5% em 2023 e 4,1% em 2024.

“A política monetária deve manter o rumo para restaurar a estabilidade dos preços, e a política fiscal deve visar aliviar as pressões sobre o custo de vida, mantendo uma postura suficientemente restritiva e alinhada com a política monetária. As reformas estruturais podem apoiar ainda mais a luta contra a inflação, melhorando a produtividade e aliviando as restrições do lado da oferta, enquanto a cooperação multilateral é necessária para acelerar a transição para a energia verde e evitar a fragmentação”, recomendou.