O dia 24 de Junho, que durante séculos foi o dia da cidade, “está essencialmente esquecido” e é necessário recordar a importância da data que simboliza o fracasso dos holandeses na tentativa de conquistar Macau, sublinhou João Guedes. Por sua vez, José Basto da Silva recordou os primórdios do arraial que assinala a data

 

Inês Almeida

 

A 24 de Junho de 1622, a tentativa dos holandeses de conquistar Macau fracassou. Desde então e até a transferência de soberania, em 1999, a data foi considerada “Dia da Cidade”. Actualmente, caiu no esquecimento, lamenta João Guedes, um dos protagonistas da sessão “A Invasão Holandesa em Macau e o Dia de São João Baptista”, que decorreu ontem na Escola Portuguesa de Macau.

“Com a transição, desapareceu esse feriado, no entanto, a história fica, de maneira que é uma data muito interessante porque é uma altura de viragem no panorama no extremo oriente com o aparecimento de uma série de outros jogadores além dos portugueses e dos espanhóis, que estavam nas Filipinas. Há alterações interessantes e importantes, por isso, acho que é interessante voltar a tirar do anonimato essa data”, sublinhou o historiador.

O também jornalista defende que todo este passado está “essencialmente esquecido pela própria natureza de Macau, as circunstâncias políticas e sociais, que levam a que não seja fácil procurar um consenso sobre a história”. Assim, “vão-se perdendo estes bocadinhos de história e, depois, claro que é muito mais difícil reunir tudo e fazer uma história”.

No entanto, há muito pouca informação. “O que se escreveu foi há muito tempo, obras muito eivadas de nacionalismos, tanto os que escreveram nos tempos da Primeira República, como a seguir ou durante a ditadura de Salazar. Seria preciso reescrever tudo e repescar tudo quanto está escrito”, sublinhou, acrescentando que tal seria trabalho para “muitos anos”.

No que respeita à importância do acontecimento, João Guedes frisou: “Os holandeses, quando atacaram Macau, não foi uma luta contra os portugueses, foi uma luta contra os espanhóis. Nós estávamos sob domínio espanhol, eles [holandeses] estavam em guerra com Espanha e, por isso, é que Macau sofre o ataque. Se fosse só Portugal, os holandeses não atacariam Macau”.

No entanto, indicou o historiador, o mais curioso deste dia foi o facto de quem disparou o tiro sobre a coluna militar holandesa, que ditou a sua derrota, não foi um artilheiro mas sim um padre jesuíta, Jerónimo Rho.

Na sessão esteve também José Basto da Silva que aproveitou para apontar que a versão dos holandeses deste acontecimento é ligeiramente diferente. “24 de Junho, segundo os holandeses, confirma-se quase tudo, no entanto, quando chegam à parte do tiro certeiro no paiol, eles dizem que surgiu um incêndio e que um dos holandeses se escapou para o outro lado com os portugueses e eles aproveitaram estas fraquezas”.

O presidente da Associação dos Antigos Alunos da Escola Comercial Pedro Nolasco recordou ainda os tempos em que o arraial comemorativo do S. João e do Dia da Cidade acontecia na praia de Hac Sá. “Lembro-me que era organizado pelo grupo de reformados do Corpo da Polícia de Segurança Pública, havia churrasco, tínhamos bacalhau, chouriço, jogos populares, dança folclórica, uma fogueira. Começava ao pôr-do-sol e ia até às tantas da noite”, relembrou.

“Alguns davam mergulhos, depois voltavam para as fogueiras e, entretanto, a coisa morreu, até 2007, quando associações de matriz portuguesa resolveram ressuscitar o arraial”. José Basto da Silva diz também lembrar-se de um jogo. “Tínhamos duas barras de madeira, tinha de ficar uma pessoa à frente e outra atrás, os pés atados às tábuas, e depois fazia-se uma corrida. As pessoas tinham de andar sincronizadas”, explicou.