Grace Chan, professora assistente na Universidade Cidade de Macau, olha para o desenvolvimento do turismo de Macau com a convicção de que são necessários mais esforços no que respeita à diversificação e em matéria de recursos humanos, tendo em conta o forte peso do jogo na economia local. Com as previsões a apontarem para uma tendência de crescimento no número de turistas, Grace Chan defende, em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, que devem ser melhoradas algumas infra-estruturas de apoio ao sector até para impulsionar, por exemplo, o crescimento do sector MICE e dos aspectos culturais mais relevantes para Macau, cuja “singularidade” deve ser motivo de “orgulho”

 

Catarina Almeida

 

-Projecções do Fundo Monetário Internacional colocam Macau com o PIB per capita mais alto do mundo – ultrapassando o Qatar – em 2020. Ao mesmo tempo, previsões locais apontam para um aumento contínuo do número de visitantes. Como deve o Turismo preparar-se para suportar esta nova realidade?

-A imagem geral de Macau está relacionada com o jogo, mas se perguntarmos aos que já visitaram o território muitos não demonstraram interesse no jogo. Portanto, cabe ao Governo trabalhar arduamente em prol da diversificação dos produtos turísticos, até porque, embora haja muitos lugares/monumentos designados como património cultural pela UNESCO, muitos turistas não os conhecem. No geral, os números são relativamente positivos mas a verdade é que em muitos países – como nas Filipinas – há jogo. Ou seja, entra aqui uma realidade turística mais competitiva. O Japão, que já legalizou o jogo, vai avançar com a construção de casinos, e na China algumas províncias têm vindo a discutir – apesar dos jogos de fortuna e azar serem ilegais -sobre este mercado. O que está a acontecer nas imediações do território ajuda-nos a perceber que há muita competição ao nível do sector turístico pelo que o Governo não pode continuar a depender de um segmento/sector, neste caso o jogo. Mas também é importante referir que alguns hotéis-casinos, e operadoras no geral, têm trabalho arduamente – como o caso do Venetian – apostando no sector das convenções e exposições (MICE) apesar de haver espaço para melhorar as respectivas infra-estruturas. Por exemplo, ao nível dos transportes e recursos humanos, nomeadamente do ponto de vista salarial. Isto pode ajudar a impulsionar o crescimento de outros segmentos associados ao sector turístico.

 

-Quais as infra-estruturas, em concreto, que devem ser melhoradas para dar resposta ao crescimento de turistas?

-Temos agora a ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, um projecto de integração regional da Grande Baía, mas que gera, para já, um mercado de visitantes de curta distância. Se analisarmos as chegadas, a maioria dos turistas fica em média 1,5 noites – isto significa que os seus gastos em Macau são também limitados porque ficam pouco tempo. Se conseguirmos atrair turistas de mercados de longa distância significará que, por norma, ficam três a quatro dias e, nesse caso, acredito que o consumo dos turistas será muito melhor do que o que temos agora. Além disso, se forem providenciados autocarros que transportem os turistas de mercados emissores de longo curso para Macau tenho a certeza que a estadia e os gastos registarão um desempenho muito melhor do que o actual. De qualquer forma, é preciso dar tempo ao tempo para perceber qual o impacto da mega ponte. Está, por agora, a transformar o perfil de visitantes oriundos de mercados de curta distância que poderão querer aumentar a sua estadia para, por exemplo, dois dias.

 

-Haverá uma explicação mais profunda que justifique a curta duração da estadia dos visitantes?

-Em grande parte deve-se à acomodação. Esta é uma das preocupações. De acordo com alguns hóspedes, os pacotes são muito caros face, por exemplo, aos preços oferecidos em destinos como Phuket. As pessoas acabam por preferir gastar mais algum dinheiro e comprar um bilhete de avião, pois acham que, ainda assim, acaba por ser uma despesa mais razoável. Além disso, Macau é muito pequeno e é bastante visível que algumas zonas mais tradicionais – como as Ruínas de S. Paulo – carecem de algum rejuvenescimento.

 

-A gestão hoteleira tem vindo a melhorar?

-A população de Macau abrange sensivelmente 700 mil habitantes e desses cerca de 50% são locais, sendo que muitos jovens têm vindo a entrar neste mercado profissional. Porém, por exemplo, o hotel Sheraton dispõe de sensivelmente 4.000 quartos e se formos a ver, em média, saem formados das universidades 1.600 alunos por ano. Portanto, como é que a mão-de-obra nestes casos pode ser suficiente? É, de facto, um problema. Depois, os departamentos de recursos humanos dos hotéis enfrentam questões de gestão cruciais precisamente porque a mão-de-obra não é suficiente – o que dificulta a participação regular em acções de formação. Fiquei preocupada com alguns comentários de trabalhadores que pretendiam melhorar a sua qualidade do serviço, mas os gerentes não conseguiam providenciar esse treino em horas livres com uma frequência mensal. Além disso, por causa da política de “bluecard”, e os contratos de dois anos, os hotéis acabam por se ver na necessidade de contratar novos trabalhadores, nomeadamente do exterior. E isso implica dar-lhes formação, recomeçar do zero. Portanto, mesmo que os trabalhadores consigam atingir um padrão de qualidade de serviço, o “bluecard” depois expira… Isto está muito relacionado com a regulação dos recursos humanos, ou seja, com a política laboral de Macau.

 

-Isso deveria mudar?

-Sim, se o Governo quiser elevar a competitividade do turismo.

 

-O Secretário para a Economia e Finanças anunciou a intenção de avançar com um plano de importação de quadros que prevê um regime alternativo de fixação de residência. Poderia ser viável nesta área?

-Poderia criar mais flexibilidade mas o problema é que o pessoal recebe a formação e está apto a fornecer um serviço de qualidade, mas a determinada altura terá de ir embora por causa dos contratos. Esta situação implica um duplo esforço para os recursos humanos. Ao mesmo tempo, a qualidade do serviço acaba por não atingir um nível estável e desejado. Para o sector hoteleiro este é, sem dúvida, um dos desafios. Há muitos hotéis que pretendem desenvolver mais a sua oferta ao nível do MICE o que nalguns implica oferecer mais espaço e à partida contratar mais mão-de-obra. Há de facto esse potencial de fazer mais em termos de recursos humanos se o objectivo passar por ser mais competitivo. Em Singapura tem sido feito um bom trabalho nesta área pelo que poderá ser um bom exemplo a seguir.

 

-Chegou a ser discutida a possibilidade de se permitir alojamento ao estilo Airbnb. Seria viável no território?

-É preciso ter em conta a duração da estadia. Quando olho para algumas campanhas do sector hoteleiro, sobretudo durante as épocas mais baixas, alguns hotéis têm feito um óptimo trabalho com pacotes de 600 patacas incluindo bilhetes de barco. Mas durante as épocas mais altas – Ano Novo Chinês, Natal ou que coincidam com eventos de grande escala – vemos que a disponibilidade dos quartos de hotel é relativamente crítica…

 

-Qual o perfil do visitante que procura Macau como destino de férias? Esse perfil tem mudado ao longo dos anos?

-Se olharmos para o mercado actual de visitantes, a maioria vem de Hong Kong e China, apesar de se estar a assistir a um crescimento do mercado da Coreia do Sul e à mudança dos seus padrões de viagem. Ou seja, em vez de visitarem Macau em excursão optam antes por comprar um pacote às agências de viagem como visitante independente o que acaba por permitir que gastem muito mais do que os excursionistas – que vêm e regressam no mesmo dia – ou do que grupos que têm uma margem de orçamento mais limitada.

 

-Os visitantes do Continente chinês continuam a ser o principal mercado, não obstante os desejos expressos por várias vezes pelas autoridades locais no sentido de alterar esta realidade. Qual a “receita” para concretizar esta meta?

-É a razão pela qual tenho vincado que é preciso captar os visitantes de mercados de longa duração. Se olharmos para o Aeroporto Internacional de Macau, muitas ligações áreas têm origem em Taiwan, China a par de um número muito limitado de voos de longa distância. Hong Kong, Singapura e Cantão têm uma localização excelente, são uma espécie de “hub” da aviação, por isso, se o nosso aeroporto conseguir alinhar-se com outras cidades tenho a certeza que o número de passageiros tenderá a aumentar. O mercado é muito limitado, cinge-se em grande parte à China, e como é que poderão captar os visitantes de longa duração (que implica voos de cinco horas, por exemplo), ou seja, oriundos da Europa, América ou Austrália para que as pessoas não fiquem apenas restritas, digamos, ao aeroporto de Hong Kong, apanhando um barco ou chegar até Macau pela mega ponte? Neste sentido, Macau está a tornar-se no destino menos prioritário a visitar.

 

-O turismo é uma das suas áreas de estudo há já vários anos. Os produtos e serviços disponíveis em Macau são suficientes para agradar aos turistas? Que imagem o território tem transmitido ao longo dos anos?

-“Já esteve em Macau? Não” ou “O que pensam de Macau?… Nós não jogamos” – são exemplos de alguns estereótipos que têm estagnado a imagem de Macau como um destino unicamente de jogo, o que me preocupa um bocado tendo em conta que na Ásia começa a haver alguma competição, ou seja, podemos um dia deixar de ser o líder de mercado. E, nesse contexto, o Governo deve abrir caminho para uma maior diversificação colocando o foco em eventos, entretenimento e lazer e, obviamente, promover mais aspectos associados à cultura – afinal, uma das riquezas de Macau é a mistura entre as culturas portuguesa e chinesa. Apesar da UNESCO ter listado várias estruturas de Macau (Centro Histórico) na Lista de Património Mundial, as autoridades podem trabalhar mais e melhor para divulgar este território enquanto destino cultural. O Governo precisa também de trabalhar com a zona da Grande Baía que poderá ajudar na captação de visitantes dos mercados de longa distância que podem querer vir até com alguma frequência a Macau para comer, por exemplo. Macau tem aspectos únicos e comparando com Hong Kong, somos ainda mais únicos. Esta singularidade é de facto um aspecto do qual Macau deve sentir orgulho. Para conseguirmos atrair esses visitantes da zona da Grande Baía para aqui gastarem dinheiro em compras e comida – ao mesmo tempo que se trabalha no aumento de turistas de mercados de longa distância – talvez seja pertinente que se trabalhe em conjunto com Hong Kong e outras cidades.

 

-Alguns deputados de Macau com assento na Assembleia Nacional Popular apresentaram uma proposta conjunta para a inclusão de mais cidades do Continente chinês no programa de vistos individuais para visitas à RAEM. A proposta levantou dúvidas junto do Governo. Como a encara?

-Para regular a capacidade de recepção de turistas podemos recorrer a algumas metodologias. O Governo poderá, por exemplo, permitir o acesso a pontos turísticos mais concorridos em determinadas alturas do dia para dispersar os visitantes pelas diferentes zonas do território. Neste contexto, penso que Macau não está preparado para a expansão desta política primeiro porque é pequeno e depois porque o trânsito em si já é um problema. Em todo o caso, mesmo que esta política passe a ser uma vontade do Governo é necessário fazer primeiro alguma pesquisa. Mas através de um determinado planeamento acho que será possível atingir este fim.

 

-Um dos estudos que desenvolveu visou avaliar a experiência e percepção dos turistas em relação ao património. A que conclusões chegou?

-O património de Macau é um dos elementos, no entanto, a verdade é que existe aquele estereótipo de que falamos de que Macau é a cidade do jogo. Portanto, se formos a comparar o património e o jogo, quando os visitantes se referem às memórias do território a primeira imagem está associada ao jogo e não ao património.

 

-Macau é suficientemente atractivo para esse tipo de visitantes?

-Acredito que muitos desses jovens turistas gostem de alguns aspectos de Macau como a comida, os concertos, etc. Há espaço para envidar mais esforços na captação de mais turistas deste segmento jovem que, por si só, também estão dispostos a gastar mais, além de que apreciam os produtos inovadores, criativos. Ao mesmo tempo, também sei da vontade em proporcionar um serviço de turismo inteligente mas ainda há muito que tem de ser feito. Por exemplo, não acho que a cobertura de wi-fi em Macau seja óptima até porque nalgumas zonas o sinal é fraco, às vezes nem tem cobertura. E isto são aspectos muito básicos, por isso é uma área em que o Governo tem e deve fazer muito mais e melhor.