Uma das casas já restauradas
Uma das casas já restauradas

Depois de ter sido um lugar de cuidados, a zona da antiga leprosaria em Ká-Hó mantém parte dessa funcionalidade, mas o contexto envolvente é muito diferente, sendo sobretudo industrial, com grandes depósitos de combustíveis e o movimento no porto de contentores. Mas, o Executivo pretende dar uso turístico às casas da leprosaria, cujo projecto de reabilitação se encontra a meio: uma intocada, outra em fase de reconstrução estrutural e três já pintadas de amarelo, embora uma ainda sem janelas e portas. Ouvidos pela TRIBUNA DE MACAU sobre o futuro das casas, os arquitectos Vizeu Pinheiro e Maria José de Freitas consideram que poderiam ser melhor utilizadas pela população. Deste modo, haveria complementaridade com as unidades de saúde criadas e recuperava-se a vocação original da zona, já que poderá não haver muitos turistas interessados em visitar o sítio

 

Liane Ferreira

 

A vila de Ká-Hó é hoje um sítio muito diferente do passado. Para trás ficaram as ruas estreitas e, apesar de continuar a ser um pequeno aglomerado de casas escondido entre as encostas de Coloane, é agora uma zona extremamente industrial, onde as estradas largas cortam a paisagem natural e são preenchidas por camiões pesados. É em Ká-Hó que está a ser construído um túnel de ligação directa ao lado leste do COTAI, facilitando o acesso à vila e ao Terminal de Contentores do Porto. Para além disso, com o andamento das obras da nova prisão o funcionamento da central térmica, do porto e terminal de combustíveis não é de admirar todo o movimento que se vê.

Casa alvo de reconstrução estrutural

É com vista para o terminal de combustíveis e ao lado do prédio do complexo de reabilitação e convalescença de 29,1 metros de altura, que se encontram as cinco casas da antiga leprosaria. Estas estão a ser alvo de um projecto de recuperação do Instituto Cultural (IC), cuja data de conclusão aponta para 2019.

Além das casas, existe um centro de actividades da Diocese e a Igreja de Nossa Senhora das Dores, onde anteriormente eram realizadas missas.

À chegada ao complexo da antiga leprosaria, numa subida, logo a seguir ao novo edifício da ARTM (Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau) e com o novo hospital de convalescença sempre no horizonte visual, encontramos o centro de actividades em decadência estrutural e totalmente tomado pela natureza.

As casas surgem logo à direita. Conforme constatou a TRIBUNA DE MACAU, na primeira, já pintada de amarelo mas sem janelas nem portas, nota-se que está inacabada, enquanto as duas seguintes estão prontas e com as portadas de madeira fechadas. Já a quarta casa encontra-se completamente tapada com toldos de construção e a última, a escassos metros do hospital, continua intocada, com materiais de construção à sua volta.

Esta realidade contrasta com a visão do Instituto Cultural sobre o desenvolvimento do projecto, tendo em conta que o organismo garantiu a este jornal que “os trabalhos de recuperação das cinco casas da povoação de Ká-Hó encontram-se em vias de conclusão”.

“Actualmente, o IC já concluiu os trabalhos de recuperação estrutural de quatro das casas, estando a instalação de portas e janelas de duas casas concluída”, refere, acrescentando que está a “proceder à finalização da instalação de portas e janelas em outras duas casas”, devendo esse trabalho terminar no final de Fevereiro. Para além disso, está a levar a cabo obras de recuperação na outra casa.

Casa por restaurar

Questionado sobre o destino a dar ao local de culto e centro de actividades, o IC adiantou que a Igreja de Nossa Senhora das Dores irá manter-se e continuará a ser usada para actividades religiosas e de congregação.

“Relativamente ao centro de actividades, após comunicação entre o IC e a Diocese, ambos chegaram a um consenso preliminar sobre a direcção da recuperação, em que a construção será preservada e o IC irá dar o início ao trabalho de recuperação estrutural desta construção no corrente ano”, adiantou o organismo.

Deste modo, num futuro próximo pode-se esperar a recuperação total de seis casas.

 

Casas históricas como ponto de encontro

O plano de requalificação incide, de acordo com declarações anteriores do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, não só na optimização da zona, mas também no destino a dar às casas. O projecto assenta na sua transformação em museus, para que seja um novo atractivo para turistas.

No entanto, quando se olha em volta e deparamos com o novo edifício hospitalar, os depósitos de combustíveis e contentores no fundo de uma das encostas e os contentores e gruas no horizonte, é difícil de perceber porque é que os turistas iriam propositadamente àquele local, cujo ambiente envolvente não será o mais adequado para uma estratégia turística. Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, os arquitectos Vizeu Pinheiro e Maria José de Freitas defendem, aliás, que as casas poderiam ser melhor utilizadas pela comunidade.

“O sítio está fora de mão, é uma zona industrial, tem ali os depósitos de combustível, um porto com cimentos, é bastante poluído, e esse é um dos grandes problemas”, disse Vizeu Pinheiro, acrescentando que existem ainda os edifícios à volta.

Segundo recorda, anteriormente realizavam-se ali uma missa ao domingo e até “barbecues”, mas havia o problema da falta de casas de banho. “Também não tinha água corrente, ou seja faltavam coisas básicas”.

“Podia ser uma zona de apoio ao lar de idosos. Para turismo, parece-me que haveria muito pouca gente a ir”, destacou o arquitecto, salientando que se a finalidade final fosse ao encontro da comunidade dever-se-ia consultar a sociedade em geral e não só a população de Ká-Hó.

Concordando que a zona envolvente não beneficia o turismo, o arquitecto indicou que “o que se podia fazer era uma ligação ao trilho, porque há um que parte de Ká-Hó e nessa colina há um pequeno cemitério, onde estão alguns leprosos e vai dar a Hác-Sá”. “O que se podia fazer era melhorar os trilhos, mas não dá para muito mais”, notou.

“Fazia sentido pelo menos uma das casas servir de apoio para que as pessoas possam almoçar lá, fazer piqueniques. As casas podem ser parecidas como as Casas-Museu da Taipa, mas o ambiente é totalmente diferente”, frisou.

Antigo centro de actividades vai ser recuperado

Para Maria José de Freitas “seria muito mais interessante encontrar um tipo de actividade que fosse compatível com uma utilização activa do espaço por parte da população” e que também fosse ao encontro da prestação de cuidados, “porque é um pouco a vocação do sítio”.

“Também há um respeito, uma memória e seria interessante seguir por essa via mais humanista”, sustenta a arquitecta, recordando que em termos históricos trata-se de um local onde as pessoas foram tratadas e cuidadas. Na sua opinião, hoje em dia, ainda faz sentido manter essa função.

Referindo que um centro de dia seria perfeito e até podia ter um centro de actividades, Maria José de Freitas considera que poderia “ser complementar ao hospital e lar de idosos”.

“Também poderia ter actividades artísticas, uma série de coisas ligadas a uma população de idade, mas activa e que pode ter ali um pólo de excelência para encontros e actividades”, concluiu.

 

Complexo com hospital e lar está quase concluído

Terminal de combustíveis opera nas proximidades

Junto da antiga leprosaria estão a decorrer as obras de construção do complexo do lar de idosos e hospital de convalescença, cuja data de conclusão prevista era Janeiro deste ano. No local, onde originalmente estava o Lar de Idosos de Ká Hó e viviam 10 utentes, nota-se que as obras estão quase concluídas. Quando tal acontecer, as Obras Públicas irão entregar o lar de idosos à gestão do Instituto de Acção Social e o hospital de convalescença aos Serviços de Saúde, a quem caberá a responsabilidade de realizar as obras de decoração e adaptação do interior às infra-estruturas de saúde. O complexo será equipado com 100 camas para enfermos e terá capacidade para prestar serviços a 178 idosos. A obra foi adjudicada ao consórcio formado pelas empresas “Urbana J&T”, “Coneer Eng. e AD”, “China Road and Bridge e Sonnic”, por 242,92 milhões de patacas, seleccionadas entre nove propostas, cujos valores variaram entre 240 e 308 milhões. Segundo informações das Obras Públicas, este projecto está dividido em duas fases: a primeira, já concluída, referente à construção do centro de reabilitação dos toxicodependentes e a segunda ao hospital. O edifício do complexo tem uma área de implementação de cerca de 5.000 metros quadrados, sendo construído ao longo da Colina com um recuo progressivo. O hospital de convalescença ocupa do primeiro a metade do quarto piso, com o restante andar e outros até ao sétimo a albergarem o lar. Os dois pisos em cave destinam-se a parque de estacionamento para cerca de 40 veículos ligeiros e 30 motociclos.