Pun Pak Ieong e Lau Chung Hong são dois exemplos de como o autismo não tem de ser impedimento para construir um futuro o mais independente possível e em sintonia com as suas capacidades individuais. Duas vidas que se cruzam todos os dias na Lavandaria da “Fu Hong”, onde com Pun e Lau trabalham doentes mentais em recuperação e outros portadores de autismo. Ali, sentem-se realizados, úteis e felizes. Porque, embora não seja tão publicamente falado, o autismo na vida adulta existe, molda vidas e coloca limitações que devem ser igualmente apoiadas pela sociedade

 

Catarina Almeida*

 

Muito pouco se fala do autismo na vida adulta. A condição, por si só invisível aos primeiros olhares, é maioritariamente associada às crianças. No entanto, este distúrbio tende a prolongar-se para a adolescência e idade adulta. Mas, como (sobre)vivem os autistas adultos no território? Em que medida conseguem ser independentes pessoal e profissionalmente?

Pun Pak Ieong

Pun Pak Ieong e Lau Chung Hong são dois dos 56 autistas adultos (incluindo casos com outros problemas mentais) apoiados pela associação, e claros exemplos de que os problemas de comunicação e de aprendizagem tão recorrentemente associados ao autismo nas crianças podem ser ultrapassados.

Todos os dias, a rotina repete-se. E isso é um sinal positivo na medida em que têm para onde ir, com quem conversar, sentir-se útil. Tudo num espaço onde a diferença existe mas é compreendida e, sobretudo, valorizada. Pun Pak Ieong tem 28 anos. Sofre de autismo e há seis anos que encontra um local de trabalho na “Happy Laundry”, da Associação de Reabilitação “Fu Hong”. O seu grau de autismo confere-lhe alguma timidez. Enquanto conversa, eterniza olhares para lá do que acontece fora da janela.

A poucos passos, os colegas de trabalho dobram as toalhas e outras peças de roupa do género. Há muito para fazer das 09:00 às 16:00 no oitavo andar de um edifício industrial da Rua Um do Bairro da Concórdia. A lavandaria da “Fu Hong” serve sensivelmente 80 empresas locais. “Gosto de pôr a roupa a lavar, passar a ferro e entregar as encomendas aos nossos clientes”, contou Pun Pak Ieong à TRIBUNA DE MACAU.

Na lavandaria estão empregados 35 funcionários, dos quais quatro portadores de deficiência que trabalham a tempo inteiro e 20 a tempo parcial. Em 2012, Pun Pak Ieong começou a trabalhar na “Happy Laundry” – um espaço que, não só lhe garantiu um lugar no mercado de trabalho e, com ele, autonomia e apoio financeiro, como também lhe proporcionou felicidade. Não fosse, afinal, uma “lavandaria feliz”. “Vale também pela amizade”, disse.

Responsável também por levantar e entregar as toalhas sujas e limpas, respectivamente, a vida de Pun Pak Ieong vai além das suas funções na lavandaria. É que também dá cartas na música.

Já há muito que se discute os efeitos da música no desenvolvimento de portadores de autismo. Uma síndrome que desafia a ciência mas que, como já se pode constatar através de alguns casos, produz efeitos. Pun Pak Ieong pode ser um desses exemplos. Actualmente, é baterista na “Life Band” – grupo musical criado pela associação e cujo professor vê em Pun Pak Ieong um talento nato. “Tem muito ritmo”, explica Fátima Ferreira, presidente da “Fu Hong”. “Ele não precisa de olhar para as pautas musicais”, acrescenta, referindo-se ao pensamento quase intuitivo que se reflecte na sabedoria de tocar no piano, bateria e guitarra. “Sinto-me feliz quando toco música. Gosto de todo o tipo de música”, conta, com timidez nas palavras.

Nos tempos livres viaja. “Já fui ao Continente”, diz, através do “Macau Special Olympics” pois há mais de 10 anos que joga bowling. Representa-os ao participar em competições internacionais tanto que já foi a “muitos países” à custa disso, afirma. Nesse momento, regressa ao posto de trabalho, volta à pilha de toalhas por dobrar, onde estão os restantes colegas de trabalho.

 

Corria de “um lado para o outro”

Sentado, de lado. Lau Chung Hong comunica de forma particular. Sofre de Asperger – síndrome enquadrada nas perturbações do espectro do autismo e que afecta o modo como comunica e se relaciona com os outros. É falador, ao seu jeito. À primeira pergunta, preferiu responder no papel. Encontrou no caderno a forma mais confortável de se apresentar, mas deixando em aberto o à vontade para falar mais sobre a sua estória.

Tem 40 anos. Chegou à “Fu Hong” há 15 anos. Tinha acabado de sair da escola e encontrou na associação uma mão-amiga. Nos primeiros tempos, a perturbação neuro-comportamental (que tem base genética) tornava “quase impossível” comunicar com outros. “Corria de um lado para o outro, falava muito alto”, recorda Fátima Ferreira.

Hoje, o Lau Chung Hong que vemos em nada se compara ao de há 15 anos. Já celebrou 40 primaveras e, não obstante a forma particular de comunicar, o evitar de contacto visual directo, e a forma repentina de articular as palavras, Lau Chung Hong tem um comportamento bastante controlado. “Aqui, não me sinto pressionado”, conta à TRIBUNA, enquanto faz uma pausa do trabalho na “Happy Laundry”, que diz ser “menos stressante do que outros locais de trabalho”.

Lau Chung Hong

Olhando para o passado, e para casos como os de Lau Chung Hong e Pun Pak Ieong, Fátima Ferreira considera que a “sociedade está mais aberta e compreende melhor o que é o autismo”. “Há uma maior aceitação porque a maior dificuldade do autismo é precisamente o contacto, vivem no seu próprio mundo e muitas vezes não se exprimem, não aceitam o contacto físico e visual. Há muita dificuldades da parte de outros de aceitarem”, sublinha.

 

A vida depois da escola

Em 2003, o futuro profissional para os portadores de deficiência era quase inexistente. Havia falta de respostas para esta necessidade. Esta era a realidade da altura, um problema que a então criada Associação de Reabilitação “Fu Hong” encarou. “Acabavam a escola em Ká-Hó e não tinham para onde ir. Ou continuavam na escola, sem progressos, ou ficavam em casa”, recorda Fátima Ferreira.

Ao primeiro centro deram o nome “Pou Choi”. Ali, entravam todos os que tinham concluído os estudos depois de encaminhados pelo IAS e DSEJ. Com lotação para 100 utentes, todos na fase jovem-adulta, as vagas não foram imediatamente preenchidas porque “era necessário adaptarem-se aos poucos”. Hoje, a “Fu Hong” presta apoio a 400 portadores de deficiência nos vários centros e unidades que tem associados.

Os utentes do “Pou Choi” “eram avaliados pelo nosso terapeuta ocupacional para sabermos que tipo de actividades e trabalhos podiam fazer, e também qual o grau de comunicabilidade com outros porque o centro era uma espécie de oficina de trabalho e precisávamos de saber se estavam capacitados para trabalhar em grupo porque grande parte do trabalho era feito em linha”, explica. “Havia uma data de testes para avaliar a capacidade de cada um e depois de estarem connosco três meses voltavam a ser avaliados para sabermos se tinha havido evolução ou não”, acrescenta Fátima Ferreira.

Ao longo destes 15 anos, a associação tem crescido. Não só em número de utentes como ao nível de serviços. No entanto, nem sempre foi assim. Em relação ao primeiro centro da “Fu Hong”, quase que foi preciso inventar o que fazer. “Não havia muito trabalho, e depois passámos pela época do SARS (síndrome respiratória aguda grave) em Macau e não havia nada de especial para fazer. Tivemos de procurar o que se podia fazer e muitas vezes as empresas, por exemplo a Companhia de Electricidade, tinha cartas para enviar e os nossos utentes do centro faziam esse trabalho e levavam para os Correios. Só mais tarde começou a haver trabalho próprio”, recorda.

Uns anos mais tarde, nasce o Centro Hong Ieng destinado ao desenvolvimento técnico de deficientes mentais. “Criámos um outro destinado a deficientes profundos que necessitavam de ser alimentados, ou seja, de uma assistência mais individualizada”, indica. “Não é fácil para eles [deficientes] se integrarem. Não se compreende muito bem as dificuldades deles ou não se aceitam. Num local de trabalho, o patrão não quer saber que dificuldades o funcionário tem. Tem de cumprir o horário de trabalho”, indica.

 

Mais apoio pela integração

A prestar apoios a jovens-adultos há já vários anos, a “Fu Hong” tem também ela vindo a crescer. Só para este ano, a associação tem vários projectos na manga, todos com oferta de diferentes serviços mas com a mesma finalidade: apoiar adultos com deficiências intelectuais, físicas, a integrarem-se na sociedade.

Ao todo, a “Fu Hong” conta com “13 unidades repartidas por três centros: um para os que acabam a escola [deficientes ligeiros], outro para os profundos e outro para doentes mentais em recuperação. Centros de dia, digamos”, explicou Fátima Ferreira.

Além destes, conta ainda com “duas empresas sociais que têm a particularidade de dar a oportunidade aos deficientes de terem um emprego. De estarem inseridos no mercado de trabalho”, acrescenta. Uma delas é a “Happy Laundry” que funciona, actualmente, na Rua Um do Bairro da Concórdia, mas que irá mudar de instalações para perto da zona transfronteiriça Macau-Zhuhai . “É um espaço do Governo. Bati a todas as portas e o nosso problema não é pagar a renda. Mas, assim, estamos seguros. Há um contrato assinado, a renda está estipulada e sabemos com o que contar e que o Governo não deverá colocar-nos na rua tão facilmente. Foi, realmente, um descanso”, frisa Fátima Ferreira notando que a associação anda “há anos a batalhar com esta necessidade [da lavandaria] sair daqui”. Isto porque, como recorda, o espaço onde ainda funciona a lavandaria “é alugado” e “este terceiro dono aumenta a renda exorbitantemente mesmo para ver se vamos embora”.

Para a lavandaria funcionar tem de se auto-sustentar uma vez que recebeu, do Governo, um apoio inicial (e único) no valor de 1,8 milhões de patacas. Para a associação, esta empresa social é uma grande mais-valia até porque quando foi criada permitiu perceber que “os nossos utentes estavam capacitados de usar as máquinas sem problemas”. “Teríamos de criar um projecto rentável para empregar porque o objectivo é precisamente esse. Tinha imensa pena se não conseguíssemos continuar e dizia se tivéssemos de fechar a lavandaria, o problema seria o facto das pessoas perderem o seu emprego”, destaca.

Fátima Ferreira

Além da mudança de instalações da lavandaria, a “Fu Hong” prepara-se para abraçar novos projectos. Em Junho, vai abrir um novo espaço na zona de lazer de Nam Van. Destinado à formação para crianças mas, consoante ditarem as necessidades, poderá também ser de acesso a adultos. “Será um espaço para formação para os mais pequenos com necessidades. Temos o centro para doentes profundos e muitos pais não querem levar os seus filhos porque não querem ser estigmatizados. E para serem avaliados decidimos criar este local porque assim podem ir lá e vamos ter ‘terapia’ pela música porque é difícil encontrar um profissional em musicoterapia”, vincou.

No decurso deste ano, irá ser finalizada a transferência do principal centro, o Pou Choi, para perto das Portas do Cerco – a inauguração está apontada para Julho. O espaço que até agora era utilizado, uma vez que sofreu vários danos na sequência da passagem do Hato, está a ser remodelado e ganhará a finalidade de restaurantes. “Inicialmente irá servir os funcionários e pessoal da associação e, mediante o desenrolar das actividades, poderá também servir a comida macaense e portuguesa para o exterior”, revelou Fátima Ferreira. Até lá, será sobretudo um espaço de formação gastronómica para doentes mentais ajudando, assim, estas pessoas a entrar no mercado de trabalho. Este espaço terá capacidade para 200 utentes.

Ao mesmo tempo, também está em funcionamento – ainda que gradual – uma residência para adultos com deficiências profundas. O lar, com capacidade para 100 utentes, ainda não tem data oficial para inaugurar mas já está a funcionar. Ali, os utentes irão ficar a tempo inteiro, contou a responsável associativa.

Com mais de uma década em contacto directo com jovens-adultos à procura de um espaço no mercado de trabalho e de se sentirem úteis para a sociedade, a “Fu Hong” tem tido um trabalho significativo nessa luta. Muito em parte devido às suas empresas sociais que dão essa garantia mas, ainda assim, Fátima Ferreira defende que poderia ser feito mais da parte da Administração. “Macau não tem falta de dinheiro nem espaço porque foram reavidos muitos terrenos. Porque não constrói o Governo um edifício só para empresas sociais? Existe em Taiwan, e Hong Kong também tem. Porque é que Macau não tem?”, questiona.

“Era mais fácil para todos, quer associações e Governo porque também lhe interessa ter mais empresas sociais. Ainda há pouco tempo, o IAS referiu [que quer] empresas sociais para idosos. Se nem para deficientes tem quanto mais para idosos… Aí seria uma forma de poder responder às necessidades. Construir um bloco só para empresas sociais”, sugere.

 

* com R.C.