O conceito de formação contínua imposto aos engenheiros e arquitectos para efeitos de renovação da inscrição profissional, no âmbito do regime de qualificações nos domínios da construção urbana e do urbanismo, “carece de melhoria”, defende Johnathan Wong, em entrevista à TRIBUNA DE MACAU. O presidente da Associação de Arquitectos de Macau critica o Conselho de Engenharia, Arquitectura e Urbanismo pelo limitado leque de acções possíveis para efeitos da formação contínua do sector. No leme da associação por mais um biénio, Johnathan Wong adverte também para a “tendência” do Governo em adjudicar projectos a empresas estrangeiras em detrimento das locais. Em contrapartida, realça o bom trabalho no que à preservação do património local diz respeito

 

Catarina Almeida 

 

-Qual o relevo da Associação dos Arquitectos de Macau (AAM) na promoção dos direitos dos arquitectos e do próprio sector?

– A Associação tem vindo a aumentar a sua importância e influência junto da indústria de construção e do sector de arquitectura locais.

 

– Como?

– A Associação dos Arquitectos de Macau, em conjunto com outras cinco associações e entidades ligadas à construção e engenharia, tem dialogado com relevantes departamentos governamentais, nomeadamente a Direcção e Secretaria dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT).

 

– Em que sentido, nesses diálogos, a associação discute/analisa os projectos públicos?

– Temos vindo a expressar algumas opiniões sobre a atribuição de projectos, sobretudo os de grande envergadura que são, por norma, concessionados a empresas do Continente. Acontece ao nível da construção e consultadoria. Nesta fase estamos, inclusive, a trabalhar na elaboração de algumas recomendações e sugestões sobre essa matéria… Aliás, esta informação até deverá ser tornada pública. Mas, de um modo geral, a nossa ideia é passar a mensagem de que as companhias/empresas locais devem ser a primeira opção em vez dos serviços do estrangeiro, neste caso da China. Sobretudo numa altura em que se perspectiva uma grande procura de trabalhos para os próximos anos – com a finalização dos trabalhos da Zona A e, se não me engano, da Zona E também. Nos próximos 10 a 20 anos haverá muito trabalho de construção no território sendo que, para aqueles aterros, a intenção é avançar com planos habitacionais – à primeira vista parece que irá haver muita oportunidade de trabalho para os profissionais locais isto se, espero, o Governo considere adjudicar esses serviços às empresas de Macau.

 

– Porque há essa preferência pelas empresas do Continente?

– Não faço ideia. Talvez por acharem que no Continente a mão-de-obra é mais rápida a executar os trabalhos…

 

– Há uma diferença a esse nível entre este e o anterior Governo?

– Talvez este [Governo] tenda a optar mais pelas empresas estrangeiras. Isso não se verifica em todos os projectos, mas há essa tendência. Os trabalhos mais pequenos e intermédios podem claramente ser executados pelas companhias locais. Projectos como o Metro Ligeiro – que nunca foi executado em Macau – faz sentido que seja entregue a empresas de fora, mas projectos mais pequenos como escritórios, etc, podem ser perfeitamente concebidos pelos locais. Sinceramente, há alguns problemas a resolver. Como todos sabemos, nas reuniões plenárias que assistimos, o Governo é constantemente pressionado para construir mais habitação pública. Para cumprir a meta proposta, a construção só pode ser feita a um ritmo muito acelerado. Olhando para o processo que o Governo tem adoptado, o número de funcionários dos departamentos mais relevantes, como DSSOPT e GDI [que tem menos de 90 funcionários, incluindo motoristas, etc]… é pequeno. Por causa disso, a pressão aumenta! Se formos a avaliar pela quantidade de mão-de-obra desses departamentos que têm a cargo vários projectos… Trabalho em todo o lado, imensos projectos …

 

– Que objectivos pretende alcançar nestes próximos dois anos à frente da associação?

– O objectivo é, claro, disponibilizar uma plataforma a todos os membros. É algo em que temos vindo a trabalhar arduamente. Somos uma associação pequena. Mas cada membro é uma parte fundamental. Desde que assumi a presidência criámos uma página no Facebook, actualizámos o nosso website. Nesta era digital esperamos chegar mais rapidamente aos nossos membros para que estejam mais a par do que se passa, do que já aconteceu e do que pretendemos fazer. Queremos reforçar a comunicação. Como referi, em conjunto com aquelas seis associações, temos relembrado constantemente o Governo para dar atenção às empresas e arquitectos locais quando atribui os projectos de construção por forma a que haja mais trabalho, até porque a indústria confia muito nesse tipo de projectos para sobreviver e crescer.

 

– Focando nos planos para os Novos Aterros. Como avalia a forma como o processo tem sido conduzido? Há quem aponte para algum secretismo sobre as infraestruturas a construir…

– Há sensivelmente dois/três anos, mais ou menos por esta altura do ano, o Governo divulgou a terceira fase da consulta pública sobre o Plano Director para os Novos Aterros. Mais recentemente foi adjudicada à Ove Arup & Partners [de Hong Kong] a elaboração do Plano Director de Macau e acredito que, em breve, essa empresa deverá avançar com trabalhos preparatórios para esse Plano…

 

-Mas isso significa que os trabalhos, sobretudo em relação Plano Director, estão a decorrer dentro do suposto?

– Acredito que esteja a seguir o rumo que deveria seguir. Se poderia ser mais rápido…? Talvez.

 

– Os arquitectos que estão a dar os primeiros passos, locais ou não, olham para Macau como um lugar atractivo para exercer a profissão?

– Em termos de oportunidades de arquitectura consegue ser mais atractivo do que Hong Kong, isto se o Governo mantiver os projectos para os Novos Aterros – que vão oferecer muito trabalho aos locais – dentro do território e não os adjudicar a empresas do Continente.

 

– E se reduzirmos a análise para as condições laborais, salariais… continua a ser atractivo? Refiro-me, por exemplo, aos moldes em que está definida a acreditação concedida pelo Conselho de Arquitectura, Engenharia e Urbanismo (CAEU).

– É necessário completar uma carga horária mínima de acções de formação de 50 horas – isto para finalizar o estágio e, depois, passar no exame de aprovação por forma a renovar as licenças.

 

– Houve muita discórdia em relação a esse período de estágio. Qual a sua opinião sobre essa imposição?

– Para obter a minha acreditação em Hong Kong também necessitei de passar por um período de avaliação [exame] e entrevista. Do meu ponto de vista, Macau está ligeiramente ultrapassado em relação a esta matéria, até porque o Regime de Qualificações nos domínios da construção urbana e do urbanismo foi aprovado há relativamente pouco tempo [em 2015]. Ainda assim, ressalvo, foi um bom sinal porque antigamente para assinar um determinado projecto bastava estar registado na Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT). Desde que fosse residente permanente e a universidade onde tirou o curso fosse reconhecida pelas autoridades locais os arquitectos podiam assinar determinados projectos de design. O que, do meu ponto de vista, não era propriamente o mais correcto. Imagine-se um recém-licenciado – bastava estar registado na DSSOPT para encabeçar um projecto de arquitectura, fosse de que dimensão fosse!

 

– É correcto dizer que com estas novas imposições à renovação das licenças e acreditação da classe haverá mais qualidade nos projectos?

– O [novo] sistema das qualificações nos domínios da construção urbana e do urbanismo, nomeadamente as 50 horas de carga horária mínima de formação, foi uma boa medida. Conheço muitas pessoas que não estão habituadas a este tipo de requisitos e, por essa razão, também se queixam de falta de tempo para frequentar as acções de formação. Porém, se tivermos em conta as nossas regiões vizinhas, nomeadamente Hong Kong, Coreia do Sul, Japão, também é imposto a estes profissionais a participação em determinadas acções de formação para que actualizem conhecimentos. Não é como se aprendêssemos tudo o que seja preciso durante apenas a licenciatura! Por tudo isso, do ponto de vista pessoal, e não falo em nome da AAM, concordo em parte com esse sistema.

 

– O que poderia ser melhorado, tendo em conta as preocupações que a classe lhe transmite?

– Por exemplo, em relação aos profissionais com vários anos de experiência, mais velhos, com um vasto leque de trabalhos feitos no território e que nunca estiveram envolvidos em qualquer tipo de problema, talvez o Governo pudesse reduzir a carga horária mínima de presença em acções de formação. Aliás, esta questão já foi colocada várias vezes. Não me parece que o Governo vá (e possa) simplesmente acabar com essa imposição, reduzindo por completo as horas de formação necessárias. Talvez o caminho seja reduzir para determinados grupos. Por outro lado, com base na lei actual, o CAEU tem autoridade para aprovar determinados estágios e acções de formação. Ou seja, o estágio é realizado em Macau em gabinetes de arquitectura, urbanismo ou engenharia, etc, acompanhado por um orientador que deve pertencer à mesma entidade onde o estágio vai ser realizado. Portanto, são consideradas acções de formação iniciativas como seminários, congressos e workshops. Porém, nós, arquitectos, ganhamos experiência e conhecimento através de muitas outras iniciativas/acções, tais como pesquisas online, visitas a locais de obras de construção, a fábricas de produção de material de arquitectura, etc… Há várias formas de enriquecermos os nossos conhecimentos só que a lei especifica aquelas três que referi. Este ponto, para mim, carece de melhoria. Por exemplo, o Instituto de Arquitectos de Hong Kong também exige 50 horas de formação em dois anos, ou seja, são 25 horas por ano. Caso contrário, a acreditação será retirada. A diferença é que em Hong Kong as visitas a locais de obras, fábricas e até o participar nas actividades promovidas pela associação [de arquitectos] contam para essa formação. Por exemplo, a nossa associação organizou uma exposição e todos os trabalhos preparatórios para a concepção do evento implicaram muitas horas para os membros. O sistema deveria expandir, ou seja, abranger mais áreas que possam contar para as horas mínimas exigidas para formações. Talvez o legislador não esteja familiarizado com a forma como os arquitectos trabalham. Não se aprende exclusivamente dentro de uma sala de aula, na universidade… Pede-se aos profissionais de arquitectura que participem em acções de formação equivalente a 50 horas, mas muita gente já assumiu algumas dificuldades em atingir esse mínimo. Um arquitecto não aprende apenas em acções de formação. Acaba-se por desperdiçar tempo que poderia ser passado noutras actividades que também enriquecem o saber profissional. Espero pela revisão desta lei, se for possível, para que diversifiquem as áreas abrangidas pela formação.

 

– Após anos de impasse, a renovação do Hotel Estoril deu mais um passo. Qual a sua posição em relação à conservação do edifício?

– Pessoalmente, não acredito que o edifício tenha qualquer tipo de valor arquitectónico e estético. Claro que, para muita gente, ver aquele edifício desaparecer poderia causar alguma estranheza e emoção até porque foi construído há vários anos…

 

– A demolição seria uma alternativa que consideraria?

– Posso dizer que não iria levantar “ondas” se fosse essa a decisão mas, uma vez mais, esta é a minha opinião e não a da Associação dos Arquitectos de Macau.

 

– Em relação à qualidade da construção em Macau. Tende a melhorar?

– Acho que se tem aprendido alguma coisa. O desenvolvimento internacional, os casinos, etc, motivaram a melhoria da construção que temos vindo a assistir nos últimos 10 a 15 anos. Ainda assim, há muito a aprender sobretudo se compararmos com as empresas de construção de Hong Kong, Coreia do Sul,etc. Há uma grande diferença!

 

– Mas essa melhoria deve-se a mais fiscalização por parte das entidades competentes?

– Não posso dizer se o Governo é mais exigente. Do que tenho observado, as autoridades governamentais focam-se muito no dinheiro e tempo. E muitas vezes tempo é dinheiro. Ou seja, desde que o projecto não se atrase às vezes a qualidade pode ser ignorada ou relativizada.

 

– Como encara o desenvolvimento urbanístico da cidade?

– O Governo tem feito um óptimo trabalho na preservação do património arquitectónico da cidade. Mesmo nos casos em que os edifícios não estão integrados na zona sob protecção, nalguns casos, esse trabalho de preservação tem sido feito. E bem conseguido.

 

– O ensino da arquitectura em Macau é de qualidade? Adequa-se às necessidades da cidade?

– Não vejo grande diferença – em termos de qualidade – entre os estudantes… Por exemplo, quase todos os anos, o nosso escritório aceita estagiários. Tem sido uma prática recorrente. […] Basicamente não vejo grande diferença entre os alunos que são formados na USJ e os estudantes do exterior. São uma esponja, absorvem conhecimentos. Talvez precisem de ser mais independentes, pois nalguns casos percebe-se que precisam de mais orientação. Os estudantes do Reino Unido, Austrália, por exemplo, tendem a ser mais produtivos, não sei porquê. Ainda não vejo esta paixão – que vejo nos alunos desses países, por exemplo, – nos alunos que se licenciam aqui em Macau e com quem me cruzei. Claro que não conheço todos, falo só daqueles com quem trabalhei.