O Centro de Reabilitação de Cegos da Santa Casa da Misericórdia de Macau procura ser um ponto de encontro e abrigo para 90 invisuais. Na sua grande maioria, os 50 que vão diariamente ao Centro sentem-se bem, em casa, fora de perigos e num espaço onde convivem com outros que sofrem da mesma incapacidade. São quase seis décadas a contribuir no auxílio à integração de quem possui uma desvantagem física que não deve ser impeditiva de uma vida normal
Catarina Almeida*
Vão sozinhos, entram e saem sem apoios, ou com ajuda de familiares, numa escuridão que tão bem conhecem. Outros, porque não têm outra alternativa, usam a carrinha do Centro de Reabilitação de Cegos da Santa Casa da Misericórdia de Macau (SCMM). De portas abertas há quase seis décadas, tem actualmente 90 invisuais inscritos. No entanto, 53 recorrem ao Centro diariamente para quebrar um rotina que, de outra maneira, poderia ser vivida sozinha.
O silêncio reina entre aquelas paredes. Ali, não há preconceitos. Nem medo de enfrentar o que quer que seja, ou achar-se incapacitado para fazer algo que para alguém saudável poderá ser dado adquirido. No Centro de Reabilitação de Cegos, vive-se e, sobretudo, aprende-se a viver numa sociedade que, por vezes, é injusta e incompreensível.
De paredes meias com o Canídromo, só mesmo o latir dos cães interrompe o silêncio. Vivem-se realidades a vários tempos: ouve-se música no “YouTube” e canta-se, livremente, sem filtros. Põe-se a conversa em dia, com a companhia da sinfonia emitida no éter da rádio em língua chinesa. Tira-se partido do bom tempo e exercita-se o corpo e a mente. Volta-se à conversa, numa mesa cheia. Prepara-se o chá. “Podem aprender cerâmica, música, braille e Inglês”, explicou Janet Leung, directora do Centro de Reabilitação de Cegos à TRIBUNA DE MACAU.
O Centro presta apoio há mais de meio século, tendo contribuído no auxílio à integração de quem possui uma desvantagem física que não deve ser impeditiva de uma vida normal. Até porque, como refere Janet Leung, “há casos de utentes que perderam a visão durante a vida, o que lhes causa mais dificuldades no quotidiano”. “Quem perde a visão tem também de lidar com dificuldades durante o processo de aceitação da doença, sente problemas em comunicar”, retrata.
O Centro foi criado sob os auspícios da “American Foundation For Overseas Blind Inc”, sendo dirigido e administrado desde 1963 pela SCMM.
Mais e melhores apoios
Há 15 anos ao serviço do Centro de Reabilitação de Cegos, Janet Leung testemunhou uma mudança “significativa” em termos de qualidade de vida. Ainda que, claro, haja espaço para melhorar. “No início, não havia muito apoio. O Governo não prestava grande atenção porque o número de invisuais no território também era menor. Os apoios foram aumentando, e há mais serviços que lhes permite ter uma vida mais integrada na sociedade. Não têm de ficar sozinhos, em casa”, destaca.
Precisamente porque não têm, nem devem ficar em casa, isolados de tudo e todos, Janet Leung vê no Centro um espaço de encontro, de convívio entre pares e com pessoas que não sofrem da incapacidade. Porque essa proximidade e compreensão entre as duas realidades é deveras importante. “É um sítio para se sentirem em casa, até porque caso contrário podem piorar psicologicamente. Como são todos invisuais [os utentes] há mais compreensão e ficam, claro, mais felizes”, frisou.
Tendo em conta que os tempos mudaram, e os invisuais em Macau podem aceder a um leque de apoios, a intervenção do Centro no auxílio a estes residentes também registou mudanças. A começar pelo sistema de registo de avaliação de deficiência do Instituto de Acção Social, lançado em 2011. “O número de inscritos rondava à volta dos 50, mas quase que duplicou desde que o regime de avaliação foi implementado. Pesa também o facto deste ser o único centro de reabilitação exclusivo para cegos. É muito importante, porque ajuda quem perdeu a visão encaminhando-os num sentido em que sintam que o seu futuro será menos incerto”, concluiu.
com V.C.
Registados 728 invisuais na RAEM
No quadro geral das deficiências físicas, a invisual não é a que mais afecta a população local, ainda assim não deixa de ter peso. Dados do Instituto de Acção Social (IAS) fornecidos à TRIBUNA DE MACAU apontam para 11.845 pessoas portadoras de deficiência – de acordo com o Regime de Avaliação do Tipo e Grau da Deficiência. Os mesmos números, relativos ao final de 2017, incluem 728 pessoas (369 homens) com deficiências visuais (607 invisuais e 121 com cegueira e outras deficiências), representando 6,15% do total dos portadores de deficiências. Se na tendência mundial a cegueira tende a afectar pessoas acima dos 50, em Macau o cenário é semelhante. Do total de invisuais, apenas 13 têm até seis anos de idade. A grande maioria (444) tem mais de 65 anos e os restantes entre 17 e 64 anos.
Seis matriculados nas escolas
No ano lectivo 2017/2018, estão inscritos nas escolas do território seis invisuais e 27 alunos com problemas visuais, revelou a Direcção dos Serviços para a Educação e Juventude à TRIBUNA DE MACAU. Segundo o organismo, desde 2008, mais de 105 professores assistiram a workshops que incluem acções de formação em braille. Para proporcionar melhor ambiente de aprendizagem aos estudantes, a DSEJ lançou o “Guia de Educação que inclui recomendações para as escolas na admissão de alunos com necessidades educativas especiais”, contextualiza o organismo. Este guia “obriga as escolas a prestarem apoios adequados a cegos, surdos-mudos e portadores de outros tipos de deficiência”. Ao mesmo tempo, existem subsídios de educação gratuita, especial e educação integrada, recorda.
Apoios sociais desde 2014
Em 2011, com a entrada em vigor do regime de avaliação do tipo e grau da deficiência, o IAS começou a receber pedidos de emissão do respectivo cartão de registo para residentes permanentes e não-permanentes que preencham os requisitos. Para incentivar mais portadores de deficiência a procederem ao registo, foi lançado um programa de benefícios, em 2014, que obteve um “caloroso” apoio dos vários sectores sociais. Segundo o organismo, até finais de 2016, mais de 100 serviços públicos, instituições sem fins lucrativos, entre outros, aderiram ao programa oferecendo mais de 200 benefícios como descontos, isenção de taxas e/ou serviços prioritários.
C.A.



