Uma viagem pelas culturas, hábitos e tradições dos países de língua portuguesa é a sugestão das várias associações lusófonas locais em mais uma edição do Festival da Lusofonia. A partir do próximo dia 19, poderá esperar-se a representação do lado positivo das favelas, a pesca como fonte de rendimento para muitos guineenses, a arte do alfaiate que ainda resiste em Moçambique e a comida de rua típica de Goa, Damão e Diu. O paraíso do Ilhéu de Jaco e alguns sabores e produtos angolanos inserem-se neste ambiente lusófono recriado na Taipa
Catarina Almeida
O espírito e as tradições lusófonas estão prestes a voltar à zona das Casas-Museu da Taipa para mais uma edição do Festival da Lusofonia. O certame arrancará a 19 deste mês com a presença dos habituais expositores das comunidades lusófonas locais: Angola, Brasil, Cabo Verde, Goa, Damão e Diu, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste que voltam a apostar em diferentes temas como veículo de diversificação e demonstração cultural.
A Casa do Brasil destacará, nesta 21ª edição, as favelas – conhecidas por transparecerem as desigualdades sociais num ambiente muito precário onde se registam os maiores índices de violência, tráfico e outras actividades ilegais. Porém, são também espaços sociais de onde saem “artistas, cantores, muita gente boa”, vinca Jane Martins, presidente da Casa do Brasil em Macau, à TRIBUNA DE MACAU.
Segundo explicou, o “stand” da associação lusófona irá transformar-se numa representação de favela mas cujo objectivo passa por divulgar o lado bom, embora reconheça que “não se pode negar” o lado mais negro como o “tráfico e outras actividades criminosas”. O trabalho de caracterização do “stand” da Casa do Brasil estará a cargo do artista Fábio Panone Lopes. “É um arquitecto mas também trabalha com grafite e tem já a sua obra em todo o mundo, em muros, carros, prédios… Vai transformar o nosso stand numa favela em miniatura, é esse o nosso objectivo. Vamos mostrar vídeos e slides dentro do stand e depois vai expor o trabalho dele através de pintura em t-shirts, bonés…”, adiantou Jane Martins.
Fábio Panone Lopes é natural de Caxias do Sul, no Rio de Janeiro, e trabalha com grafite há quase 15 anos tendo conquistado o respeito e admiração em diferentes cidades e regiões do Brasil e de todo o mundo, inclusivamente em Portugal, no Porto, onde já mostrou o seu trabalho.
De resto, segundo Jane Martins, uma vez que o “stand” será destruído no final do Festival, a associação quis que o trabalho do artista ficasse eternizado no território. Para isso, ajudou na realização de um workshop com as crianças do Lar Fonte da Esperança onde esteve durante uma manhã para ensinar e partilhar a cultura e as técnicas de grafite. Um dos murais do lar foi pintado com a ajuda das crianças, contou Jane Martins.
Ainda em relação ao Festival da Lusofonia, a Casa do Brasil volta a apostar nas famosas caipirinhas, colocando ainda à venda o tradicional guaraná e limonada. “Ao lado vamos ter outro stand que vende pastéis, culinária brasileira na base do petisco e bolos”, disse.
Da alfaiataria à pesca
A Associação dos Amigos de Moçambique em Macau aposta na tradição. Segundo Helena Brandão, presidente da associação, o tema deste ano centra-se na arte da alfaiataria. “Vamos fazer uma loja de alfaiataria porque é assim que utilizamos em Moçambique. Teremos uma máquina de costura, roupas feitas, tecidos para as pessoas verem como é que funciona uma alfaiataria simples, de aldeia e vila, não é uma boutique”, explicou em declarações a este jornal.
Isto porque, apesar da profissão estar em desuso, “ainda se vêem hoje em Moçambique casas simples com um senhor ou senhora a fazerem vestidos e, ao mesmo tempo, vendem roupa feita, têm panos e vamos tentar recriar isso. Vamos ainda tentar fazer uma passagem de modelos animando com algumas danças, e […] teremos ainda algumas actividades relacionadas com o tema da costura e do alfaiate”, acrescentou Helena Brandão.
Além disso, volta a contar com a colaboração da Associação dos Artesãos de Moçambique, que indicaram Sérgio Cavele para ser o artista convidado para esta edição que irá, então, apresentar os habituais trabalhos em madeira de pau preto, pau rosa, entre outros.
De um modo geral, apesar de todos os problemas que surgem praticamente todos os anos em torno da organização do Festival da Lusofonia, “continua a valer a pena” associar-se ao evento até porque “consegue congregar todas as culturas que vivem em Macau”, vincou Helena Brandão.
Por seu turno, a Associação dos Guineenses, Naturais e Amigos da Guiné-Bissau promete divulgar uma das principais fontes de rendimento da população. “Não é fácil inovar todos os anos mas vamos representar a pesca artesanal na Guiné-Bissau”, explicou Graziela Lopes, presidente da associação, a este jornal.
Segundo a responsável, a ideia será materializada em formato 3D por forma a permitir uma maior interacção. “É mais fácil terem algo palpável que possam tocar, sobre o qual possam também perguntar e ver, para criar uma maior interacção. Esse é o objectivo e nem sempre é possível fazer no local mas já temos os objectos e só falta colocar no lugar e ver como fica”, disse.
O design foi concebido em Shenzhen, à semelhança do ano passado, mas toda a montagem do “stand” ficará a cargo da associação que voltará também a contar com alguns alunos da Guiné-Bissau. De resto, no que toca aos comes e bebes, a associação irá procurar satisfazer os gostos dos mais pequenos. “Queremos introduzir algo para as crianças porque normalmente fica tudo focado nos gostos dos adultos e vamos fazer isso com doces que os miúdos normalmente comem que são confeccionados com produtos que não existem cá, em Macau”, concluiu.
Em relação à restante doçaria e petiscos, Graziela Lopes não quis dar grandes detalhes, até porque no ano passado os produtos trazidos pela “chef” convidada pela associação tiveram de ser deitados ao lixo porque ficaram estragados durante a viagem de avião. Por isso, só irá revelar pormenores quando tiver a certeza que os produtos estão em condições para ser confeccionados.
Igualmente presente no Festival da Lusofonia estará, mais uma vez, a cultura e tradição de Goa, Damão e Diu. Este ano, segundo contou Sharoz Pernenkar, o tema central gira em torno da comida de rua. Tal será materializado por via de fotografias que vão decorar o “stand” promovido pelo Núcleo de Animação Cultural de Goa, Damão e Diu.
“Vamos ter umas zonas de exibição com fotografia a mostrar esses petiscos típicos dos três territórios. Teremos um stand que terá a apresentação em fotografia da comida de rua e à parte teremos os nossos petiscos que apresentamos todos os anos e vamos tentar trazer um ou dois petiscos típicos de rua”, explicou o presidente do Núcleo.
Ainda assim, Sharoz Pernenkar reconhece que esta edição está a envolver alguns problemas sobretudo pelo facto da Mostra de Gastronomia e de Artesanato ter lugar na Doca dos Pescadores e não na Taipa. “É sempre um desafio ter de estar em sintonia com as organizações e tentar o melhor possível aproveitar o que temos e o que nos vão dando. Este ano foi um bocadinho mais complicado por causa da Doca dos Pescadores ter sido escolhido como novo local. Vai ser um desafio mas esperamos que corra tudo bem”. “É mais complicado em termos de logística e mais trabalho porque o pessoal é o mesmo, e ter de estar em tantos sítios é mais trabalhoso”. lamentou o responsável pelo Núcleo, que irá partilhar o artesanato de Goa, Damão e Diu concebido pelo artista especializado em barro, Bhisaji Pandurang Gadekar.
O paraíso de Jaco e a “paracuca” de Angola
A Associação de Amizade Macau-Timor apresenta-se no Festival da Lusofonia dando ênfase à beleza paradisíaca do ilhéu de Jaco, a cerca de 250 quilómetros de Díli. Anabela Gonçalves, que assegura a vice-presidência da associação, explicou à TRIBUNA DE MACAU que, à semelhança de outros anos, o tema será apresentado através de fotografias por ser uma forma mais simples de executar o projecto devido à falta de recursos humanos da associação. “Habitualmente não fazemos muitas elaborações nem uma decoração muito arranjada e ornamentada como fazem alguns dos nossos colegas de outros países de língua oficial portuguesa. Apostamos em coisas mais simples porque a nossa associação é constituída por muito pouca gente. A comunidade timorense é muito pequena em Macau e a maior parte são chineses nascidos em Timor, têm alguma relação, mas nem falam Português”, disse.
Por isso, as três ou quatro pessoas que se dedicam, em nome da associação, ao Festival da Lusofonia bem como à Mostra de Artesanato e de Gastronomia apostaram na divulgação daquele ilhéu com recursos a fotografias como forma de “divulgar uma praia belíssima e que não é muito conhecida”. Os trabalhos de montagem do “stand” nas Casas-Museu da Taipa arrancam na próxima semana já que, ainda este fim-de-semana a associação vai focar todos os esforços nas mostras de artesanato e gastronomia na Doca dos Pescadores.
Para Anabela Gonçalves, esta mudança de morada de um evento que quase sempre se realizou na Vila da Taipa não foi a escolha mais acertada. “Em termos de deslocação temos uma senhora que é a nossa representante mais antiga e mais querida na associação que já está reformada e está disponível para apoiar a nossa artesã mas a senhora anda de autocarro e é complicado ir para tão longe”, lamentou.
Além disso, “seria mais fácil se fosse no antigo mercado da Taipa, onde passam sempre mais turistas e residentes, e que tem maior impacto e divulgação para se mostrar o artesanato destes países que estão representados nesta altura do ano seria muito melhor o antigo espaço”, vincou a vice-presidente da Associação de Amizade Macau-Timor que disse não ter recebido qualquer explicação, pelo menos “plausível”, da organização sobre a mudança de local.
Em todo o caso, na Doca dos Pescadores estarão presentes em representação de Timor-Leste o “chef” César Trinito Freitas Gaio e a artesã Maria Euzelia Soares Nunes da Cruz que regressa com os seus trabalhos em tais – pano tradicional de Timor – mais modernos e que podem ser aplicados em bolsas de senhora, separadores de livro, etc.
O Festival da Lusofonia contará novamente com a presença da Associação Angola-Macau. Segundo explicou o seu presidente, Alexandre Correia da Silva, o “stand” de Angola voltará a ter uma decoração “mais modesta” das restantes. Quem por ali passar poderá provar os tradicionais amendoins fritos com açúcar (paracuca) e conhecer alguns dos principais produtos tradicionais como as famosas obras em madeira.
A Casa de Portugal não quis levantar ainda o véu sobre o tema, deixando qualquer revelação para a data de inauguração do Festival.



