Shu Jian Ping, conselheiro cultural da Embaixada chinesa em Lisboa, destacou o papel da língua portuguesa como factor para ultrapassar a falta de conhecimento mútuo entre a China e o mundo lusófono. Defendeu também que Macau tem recursos para se afirmar ainda mais na área do ensino da língua portuguesa
Liane Ferreira
Com 11 anos de experiência na embaixada chinesa no Brasil e a cumprir actualmente a segunda missão diplomática em Lisboa, o conselheiro cultural Shu Jian Ping esteve ontem no Instituto Politécnico de Macau (IPM) para uma palestra sob o tema “Português- ponte de ligação entre a China e Países de Língua Portuguesa”. Apontando o bom desempenho de Macau como plataforma, defendeu que ainda há espaço para mais.
“Ainda existe um desconhecimento muito grande entre as duas partes, China e os países lusófonos, daí a importância do ensino da língua portuguesa, de formar mais professores e alunos para superar este obstáculo”, disse ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU.
“O Português é uma ferramenta muito importante para estreitar ainda mais as relações com a Lusofonia e desempenha um papel não menos importante do que as relações políticas e económicas, contribuindo para essa amizade tradicional”, apontou Shu Jian Ping, destacando que “já é uma língua de negócios e de investimentos, porque temos fortes ligações comerciais, com Portugal, Angola, Moçambique e principalmente com o Brasil”.
Apesar das intensas relações nestas áreas, salientou que a nível cultural ainda falta “profundidade e amplitude” e, por outro lado, existem algumas percepções erradas em ambos os lados. Shu Jian Ping defendeu o respeito pelas diferenças de mentalidades e o papel dos talentos bilingues como “embaixadores da amizade” e promotores da cooperação.
Segundo o diplomata, o Português é uma “língua com muito futuro” e, com a qual, “se tem mais facilidade de encontrar emprego na China”.
Para além de ser uma plataforma importante, com uma “ligação muito confortável com os países de língua portuguesa”, a RAEM também “contribui muito para o melhoramento do ensino do Português”, acrescentou.
Shu Jian Ping considera que a situação do ensino da Língua de Camões no território é muito boa e que Macau “tem muitos recursos que pode usar”. Nesse capítulo destacou o papel da comunidade portuguesa residente e do próprio Governo de Lisboa, que “ainda tem um gosto por Macau” e “está disposto a apoiar o seu papel no ensino de Português”.
Para além disso, destacou como outro recurso muito importante a “ligação próxima das instituições de ensino locais com universidades portuguesas”, o que através do intercâmbio pode levar ao desenvolvimento de recursos humanos de qualidade.
Reconhecendo que o desenvolvimento da Língua Portuguesa na China foi muito rápido, reflectindo o aprofundamento das relações a nível económico e comercial, o diplomata admitiu que também há problemas, como a falta de professores e qualidade de ensino, bem como a escassez de tradutores de alto nível. Neste sentido, sublinhou que instituições de ensino podem utilizar as suas ligações com universidades portuguesas para ajudar as suas contrapartes na China Continental, destacando o trabalho do IPM nesta área.
No entanto, Shu Jian Ping afirmou que “há sempre coisas para melhorar” e que conferências e palestras “ajudam a ter mais informação sobre o ensino e a ver diferentes pontos de vista”.
Sobre o programa de vistos dourados, que abordou na palestra, sustentou que “é de benefício para ambos os lados. “Traz mais investimento directo para Portugal e por outro lado, os chineses têm mais opções”. Segundo dados apresentados por Shu Jian Ping, existem 1.249 cidadãos chineses que possuem vistos dourados, envolvendo um investimento na ordem dos 1.076 milhões de euros.
“Esta nova comunidade chinesa que está agora a entrar em Portugal vai certamente contribuir no futuro e ter uma influência a longo prazo nas relações entre a China e Portugal”, indicou, acrescentando que estes investidores são atraídos pelo clima, simpatia do povo e nível de segurança, mas também pela longa tradição cultural.




