Susanna Saari (esq) e Daniela Otero estão na RAEM para participar no congresso da “Skål International”
Susanna Saari (esq) e Daniela Otero estão na RAEM para participar no congresso da “Skål International”

O investimento no sector do jogo foi “uma grande decisão” do Governo da RAEM, no entanto, sobretudo com o intuito de prolongar as estadias dos visitantes é necessário não “meter todos os ovos no mesmo cesto”, isto é, investir noutras áreas além dos casinos. Este é o entendimento da presidente e da CEO da “Skål International”, uma organização ligada ao turismo, que organiza um congresso na RAEM a partir de hoje. Susanna Saari e Daniela Otero defendem uma aposta em experiências que permitam aos visitantes viver como os locais até para atrair visitantes que não fiquem só nos hotéis e casinos

 

Inês Almeida

 

A “Skål International”, organização que reúne representantes de todos os ramos da indústria das viagens e do turismo, organiza a partir de hoje e até domingo o seu 47º Congresso para a Área Asiática, em Macau. Para participar no evento, estão na RAEM a presidente da “Skål International”, Susanna Saari, e a CEO, Daniela Otero.

Embora estejam agendados encontros com a presidência local da “Skål” e com outras entidades, o objectivo principal do congresso é “unir os membros e criar negócios”. “É muito importante que [os membros] se encontrem cara a cara e temos o aspecto social, isto é, vamos ter uma série de eventos fora dos hotéis, o que nos dá a oportunidade de ver Macau e aproveitar a hospitalidade local”, contou Susanna Saari à TRIBUNA DE MACAU.

“Parte da nossa presença também tem como objectivo dialogar sobre como é possível aumentar a nossa presença aqui na Ásia. A Ásia é um mercado enorme no mundo e a nossa organização promove uma grande rede de contactos, portanto, a Ásia é um local muito estratégico”, acrescentou Daniela Otero.

Presentes no evento estarão responsáveis “ao nível ministerial” da China, além de Mario Hardy, CEO da Associação de Turismo da Ásia-Pacífico (PATA, na sigla inglesa). “A Skal vai assinar um memorando de entendimento, através de Daniela [Otero], enquanto CEO, como Mario Hardy enquanto CEO da PATA. Isso significa que a ‘Skål International’ vai trabalhar ainda mais de perto com a PATA, que é muito importante na região da Ásia e vamos ter uma maior possibilidade de contactos também”, frisou Susanna Saari.

Depois da passagem por Macau, as duas dirigentes seguem viagem para a China, passando por Pequim, Xangai e Hainão. “Vamos ter encontros com representantes do Ministério do Lazer e Turismo da China e com “alguém do Ministério dos Negócios Estrangeiros”, até porque “a ideia é sempre juntar o sector privado ao Governo”, explicou Daniela Otero.

Susanna Saari acredita que a missão da “Skål International” na Ásia é diferente do que é na Europa ou no continente americano porque ainda é preciso “clarificar” o seu significado. “Sabemos qual é o peso das decisões do Governo na China, portanto, temos de mantermo-nos juntos e apresentar a Skål, vendo o que é possível fazer na área”, apontou a presidente.

“Macau é muito forte e tem pessoas muito activas mas não é assim em todo o lado. Temos um clube em Pequim há alguns anos mas o desenvolvimento tem sido lento. Vamos lá para ajudar a tornar o clube maior mas, pelo modo como a China funciona, precisamos primeiro de ter o consentimento dos responsáveis de topo para poder agir”, frisou, admitindo que o clube na capital chinesa “não tem crescido”.

O Clube Skal em Pequim tem entre 20 e 30 membros. “Temos aproximadamente o mesmo número de membros que tínhamos logo de início e é importante que os clubes cresçam nas região [em que estão inseridos] para que tenham membros suficientes. Talvez tenhamos de dar um maior apoio e ajudá-los a crescer. A China tem mil milhões de pessoas a viver lá, por isso, devem haver muitos actores [do sector]”, acredita Susanna Saari.

Daniela Otero complementou a informação. “A realidade é que a China, por si só, é mais um continente do que um país, por isso, a realidade de Macau ou de Pequim não é a mesma que o resto da China”. Questionadas sobre se as restrições impostas pelo Governo Central a quem pretende sair do país ou visitá-lo motivam a fraca actividade, hesitam.

“É uma resposta muito delicada. Claro que respeitamos as decisões do Governo, mas é preciso encontrar um equilíbrio entre ‘proteger a cultura’ e ser aberto. Se estas conversas tivessem acontecido há 100 anos não havia problema nenhum, mas com a tecnologia de hoje e a facilidade com que as pessoas viajam, e as pessoas querem fazê-lo, como é que podemos parar a tendência? É um desafio”, apontou a CEO. De qualquer modo, ressalva, “talvez não se deva pará-la mas antes ver como é que é possível preservar a cultura e a identidade ao mesmo tempo que se tenta ser aberto ao nível desta indústria, com maior flexibilidade”.

 

A questão do “produto” turístico

As representantes da “Skål International” comentaram ainda o desenvolvimento do sector turístico local referindo que a questão mais importante passa pelo tipo de produto turístico está a ser oferecido.

“A nossa primeira impressão é que foi tomada uma grande decisão de criar um enorme sector ligado ao jogo. Claro que o jogo traz sempre dinheiro ao destino, primeiro pelo investimento e, depois, pelas pessoas que vêm jogar e isso é bom. A questão é se Macau quer continuar a promover este investimento ou decide diversificar e criar outros nichos como a gastronomia ou as ofertas culturais”, refere Susanna Saari.

“Sabemos que a gastronomia está a ganhar notoriedade ao nível do turismo cultural e isso é bom porque é positivo para qualquer destino ter uma boa selecção de segmentos. Não se tem os ovos todos no mesmo cesto porque se fica muito fragilizado”, alertou a presidente da “Skål International”.

Para Daniela Otero trata-se apenas de uma questão de perceber os factores que motivam as pessoas a viajar. “É fácil: são as experiências. Que tipo de experiências quer Macau oferecer? Nem toda a gente quer viver as mesmas experiências, por isso, tem de se criar diferentes produtos para diversificar a oferta”.

Nesse sentido, é “definitivamente” necessário investir noutros sectores além da indústria do jogo. “Digo definitivamente porque os destinos também devem querer que os clientes voltem ou que recomendem o lugar aos amigos e família. O ‘passa palavra’ é muito importante e temos as redes sociais a promovê-lo ultimamente”, destacou Susanna Saari.

Daniela Otero vai mais longe. “Pelo que sei Macau tem 42 casinos, por isso, pergunto: não é suficiente? Talvez se tenha de tomar a decisão de criar novas experiências dentro destas 42 ofertas porque se vier duas ou três vezes ao mesmo hotel espero algo novo em cada uma das visitas. Portanto, deve haver incentivos à inovação, a criar novos produtos nestes casinos e a pensar que mais é necessário para termos ovos noutro cesto”.

Além disso, alerta, “os turistas que gostam de jogar não são os únicos que querem vir cá, por isso, o produto oferecido pelos restantes sectores precisa de mais apoio e de estar ao nível do jogo, por exemplo, a cultura”. Isso “passa por preservar a criar um produto coerente” até porque em Macau há elementos diferentes. “Temos de criar uma marca para eles”.

“Por exemplo, na zona antiga da cidade há a Rua da Felicidade que é linda, única, tem personalidade, mas é subaproveitada. Se o Governo decidisse fazer algo para preservar e dar mais personalidade e carácter à zona, era fantástico. Podemos ter casas de chá típicas, lojas de artesanato, transformar tudo numa zona pedonal, ter pequenos cafés. Isto não é muito difícil até porque já se tem o principal, é apenas restaurar a zona e manter as casas em condições, com o aspecto original”, defendeu Daniela Otero.

Por sua vez, Susanna Saari lançou a ideia da criação de um “slogan” como por exemplo “viver como uma pessoa de Macau”. “Está muito na moda agora sentir a vida local. Estar numa zona antiga, de pequenas dimensões, ficar num hotel nessa área, poder andar por lá, comer comida de rua ou nos restaurantes locais é o que os turistas europeus agora querem e isso são boas notícias porque as pessoas que gastam dinheiro neste tipo de experiências têm formação, rendimentos elevados, respeitam a cultura local e compreendem o turismo sustentável”.

Estes não são os visitantes dos “produtos de massas”. “Já há cá esse segmento, mas Macau pode também ter outro tipo de visitantes, ser parte de uma viagem maior. Por exemplo, podia criar-se um roteiro gastronómico, voando para Hong Kong, passando por Macau e pela China Continental, com tudo organizado de uma forma a ser mais conveniente para a pessoa”, frisou a presidente da “Skål International” à TRIBUNA DE MACAU.

 

Uma “marca” para a Grande Baía

Susanna Saari chamou ainda a atenção para o facto de Macau estar integrado numa região onde há outras regiões que estão a apostar no turismo. “Macau é um destino no rol de destinos da região da Grande Baía. Todos os destinos têm como objectivo fazer com que as pessoas fiquem mais tempo porque fá-las gastar mais dinheiro, por isso, pode-se começar a dialogar com outros destinos”.

Assim, consegue-se criar uma “marca local”. “Pode-se dar um nome a esta região [da Grande Baía], porque isso tem impacto nas viagens de longo curso e no modo como as pessoas decidem fazê-las. É uma oportunidade. Se uma pessoas viesse da Europa ou América para esta zona, não ficaria num sítio só, visitaria três ou quatros destinos”, apontou Daniela Otero. Nesse sentido, “tem de se criar uma marca para esta área” e as regiões devem apoiar-se entre si. “Esta não é uma situação de concorrência, as cidades devem apoiar-se umas às outras”.

Outra questão premente tem a ver com o prolongamento das estadias. “Se aqui agora em médias os visitantes ficam dois dias, um fim-de-semana, se calhar quer-se prolongar para quatro, que já é o dobro. De facto, para jogar, dois dias é suficiente, mas se oferecermos jogo, experiências culturais, actividades para as crianças, há razões para ficar mais dias”, defendeu Daniela Otero.

 

Mais viagens e preocupações ambientais

A nível global, o turismo é a indústria que mais depressa cresce no mundo, aponta Susanna Saari, frisando que isso são “boas notícias”, ainda que haja sectores a desenvolver-se mais depressa como o turismo de saúde. No entanto, esta evolução também traz desafios.

“É um desafio por razões climáticas porque mais pessoas estão a voar e o mundo está à espera para ver, com algum receio, o que acontece quando as grandes massas começarem a poder voar como a classe média da Índia ou da China. Não podemos dizer que não a estas pessoas que, de repente, têm dinheiro. É como com os países em desenvolvimento que querem industrializar-se. Os países ocidentais atingiram um certo nível de desenvolvimento mas agora há outros a crescer e não podemos dizer-lhes que não porque o mundo está a mudar. Todos os países têm direito ao seu crescimento”, frisou Susanna Saari.

Nesse sentido, também “toda a gente tem o direito de viajar”. “Acho que até já foi constituído como direito humano, portanto, o desafio maior para a indústria será lidar com este enorme volume de pessoas”.

Uma coisa é certa, destaca Daniela Otero: “é impossível parar isto”. “É uma tendência as pessoas quererem saber o que se passa noutros locais e quando as pessoas estão curiosas é impossível pará-las. O desafio vai ser lidar com esta situação”. De qualquer modo, o maior fluxo de pessoas também tem pontos positivos. “Também há coisas boas a derivar deste enorme movimento humano pelo mundo porque quando as pessoas sabem mais sobre outros seres humanos tornam-se mais flexíveis e abertos a aceitar a diferença, isso é muito bom para toda a gente”.

A CEO da “Skål International” acredita que, no futuro, o modo como os destinos turísticos são promovidos vai mudar. “Por exemplo, se alguém me oferecesse uma ida para um destino exótico, não aceitaria. Se estes países criarem infra-estruturas ou um produto único, tenho a certeza que as pessoas vão começar a querer lá ir de qualquer das formas”.

Daniela Otero referiu ainda que para quem nunca veio à Ásia Macau não seria o primeiro destino. “No entanto, sabemos que Macau é diferente e deve ser recomendado. Se não se visitar Macau perde-se a experiência de ver como é possível manter duas culturas em equilíbrio durante muitos anos. É uma mistura interessante”.

De olhos postos no futuro, a presidente da “Skål International” apresentou um cenário que é apontado como “um dos possíveis” para combater o impacto ambiental das viagens. “Estive numa conferência em que se debatia possíveis limites ao turismo no futuro, no sentido em que viajar já não é um direito de todos os meses. Disse-se que, nos países ocidentais, vão implementar uma espécie de lotaria e que as famílias não vão poder viajar todos os anos. É um dos possíveis cenários para o futuro. Todos os países vão começar a limitar o poder de viajar e a permitir apenas uma ou duas saídas por ano”.

No entanto, ressalva Susanna Saari “este é o pior cenário”. “É muito difícil dizer o que vai acontecer porque a tecnologia está a desenvolver-se rápido. Pode ser que sejam encontradas soluções que ajudem”, destacou.