Os hotéis e os restaurantes do território enfrentam sérias dificuldades de mão-de-obra. Dizem que querem contratar trabalhadores residentes, porém, não os conseguem encontrar: “não estão dispostos a exercer as funções mais básicas” e nem sequer é possível falar sobre salários nas sessões de conjugação de emprego. “Simplesmente não se sentam à mesa”, disse Rutger Verschuren, vice-presidente da Associação dos Hotéis de Macau, ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. Os TNR continuam a ser “absolutamente” necessários, defendeu. Na mesma linha, Fong Kin Fu, subdirector da União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau, indicou que a DSAL tem sido “prudente” quanto aos pedidos para novas quotas de TNR. Ambos alertam para as consequências em termos de prestação de serviços aos visitantes, antevendo que a imagem do território possa ser afectada pelo problema

CATARINA PEREIRA
Muitos têm sido os pedidos de deputados, associações e outros actores sociais para que o número de trabalhadores não residentes (TNR) seja cortado no território, com o argumento de que estão a roubar o emprego aos residentes locais. Contudo, os sectores da hotelaria e da restauração enfrentam sérias dificuldades de mão-de-obra – apesar de quererem apostar na contratação de trabalhadores locais, a verdade é que não conseguem encontrá-los. Quanto aos TNR, admitem que é cada vez mais difícil conseguir ver aprovados os pedidos de contratação.
O cenário pode afectar a imagem da RAEM enquanto cidade turística, alertam Rutger Verschuren, vice-presidente da Associação dos Hotéis de Macau, e Fong Kin Fu, subdirector da União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau.
“Há uma grande dificuldade em contratar pessoal local para o trabalho operacional nos hotéis”, começou por dizer Rutger Verschuren ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, acrescentando que os residentes não são suficientes para suprir as necessidades do sector.
Se há obstáculos na contratação de locais, os TNR continuam a ser necessários? Verschuren é peremptório: “Absolutamente”. “Quem me dera que pudéssemos passar sem eles [TNR], mas não conseguimos (…) Claro que queremos trabalhadores locais, seria muito mais fácil, para muitas coisas. Mas não os conseguimos encontrar”, lamentou.
No que respeita à contratação de TNR, o dirigente associativo observou que “por vezes, quando querem renovar os ‘blue cards’, [os Serviços para os Assuntos Laborais] reduzem a quota e fazem mais perguntas”. “Por vezes, limitam-se a dizer ‘Cortamos a vossa quota em X pessoas’. E isso cria-nos mesmo um problema… Porque é que os hotéis não haveriam de querer um trabalhador local?”, questiona.
Para os que pedem a redução de TNR, Rutger Verschuren diz que deveriam falar com os hotéis, restaurantes e pequenas e médias empresas, “porque há uma grave escassez”. “A maioria dos hotéis participa nas feiras de emprego do Governo ou em feiras de emprego das universidades para encontrar talentos locais, mas [para funções como] bagageiros, empregados de mesa, cozinheiros, empregados de limpeza, engenheiros, é preciso trabalhar por turnos e aos fins-de-semana… Simplesmente não conseguimos [arranjar ninguém], não há interesse. Nem sequer se fala de salários, simplesmente não se sentam à mesa”, descreveu.
Rutger Verschuren aponta que pode ser uma questão geracional: “A Geração Z não está muito disposta a fazer trabalho operacional em hotéis ou restaurantes”. Contudo, o dirigente associativo alerta que na indústria hoteleira é preciso começar por baixo. “Como muitos têm uma boa formação, por exemplo licenciatura, sentem que deviam começar logo num cargo de gestão ou de supervisão, mas não é assim que funciona. É mesmo preciso ter uma base prática, antes de se conseguir uma promoção”, explicou.
A aposta do Governo num programa para promover o sector junto dos jovens que saem da universidade ou da escola é, para o líder associativo, uma medida imprescindível. “E, falando francamente, penso que a remuneração não é má. Os hotéis talvez paguem, provavelmente, um salário ligeiramente superior ao de alguns restaurantes locais”, prosseguiu.
Caso isso não aconteça, e tendo em conta o actual cenário de falta de mão-de-obra, este problema vai reflectir-se no serviço prestado, alertou. “Macau é extremamente orientada para os serviços. Acabará por se ver o serviço a encontrar formas de ter mais optimização nos restaurantes, por exemplo. Alguns serviços talvez tenham de ser cortados porque não temos pessoal suficiente para os fazer”, exemplificou.
E a solução passará por “trabalhar mais com mão de obra part-time”. “Isso também é um problema, especialmente para os momentos de contacto com o cliente. Na maioria das funções de contacto com o cliente, precisamos de mãos, precisamos de pessoas”.
“Se os TNR não são autorizados e não conseguimos encontrar os locais, então pode imaginar-se o que vai acontecer: o serviço pode começar a ficar aquém das expectativas dos visitantes”.
Também a restauração, diz Fong Kin Fu ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, “enfrenta um problema muito grave de carência de recursos humanos”. “Se este cenário continuar, tenho receio de que a marca de Macau como Cidade Criativa da Gastronomia e a imagem de Macau no geral sejam afectadas, com a deterioração da experiência dos turistas. Por isso, toda a gente deve prestar atenção a esta questão”, considerou.
Segundo disse, os membros da associação indicam que “não há problema na renovação de TNR”. Contudo, “de acordo com alguns novos investidores, a DSAL tem sido relativamente prudente relativamente aos pedidos para novas quotas de TNR”, ou seja, “se um estabelecimento de restauração solicitar o aumento do número de quotas, a DSAL basicamente não irá aprová-lo”.
Apontando que este é um problema de longa data, o líder associativo vincou que “afecta o desenvolvimento do sector em geral”. “Isso não quer dizer que não contratemos residentes, mas, de facto, os residentes têm outras opções”, lamentou.
Fong Kin Fu notou, por exemplo, que os influenciadores nas redes sociais costumam apontar para certos sectores, como o bancário, trabalhador administrativo, cargos na função pública e de alto nível nas operadoras de jogo. “Nunca falam no sector da restauração. Há anos que não recebemos aprendizes”, afirmou, sublinhando que os residentes “não estão dispostos a exercer as funções mais básicas”.
Na sua perspectiva, “o Governo deve tentar conhecer realmente este sector, gerindo de forma mais científica a apreciação e aprovação de pedidos para TNR”. “Se [o Governo] avançar com um inquérito para este fim, poderá investigar quais são os sectores mais atractivos para os residentes. Um inquérito desse poderia permitir ao Governo gerir e orientar de forma um pouco mais científica as respectivas políticas”, reiterou.
Frisando que o problema da falta de recursos humanos “perturba” claramente o sector da restauração, Fong Kin Fu diz por exemplo, que, apesar de o Executivo encorajar a abertura da primeira loja em Macau, é absolutamente impossível fazê-lo caso não haja trabalhadores no mercado laboral.
“Porque é que com tantos TNR a não conseguirem vir, continua a haver muitos residentes sem emprego? (…). Na minha opinião, o Governo deve lidar com [a contratação de TNR] conforme a situação real de Macau, em vez de aplicar uma medida geral a todas as situações. Caso contrário, o sector da restauração não conseguirá desenvolver-se”, defendeu.
Hotéis “muito interessados” em trabalhar com estudantes
Segundo disse o vice-presidente da Associação dos Hotéis, a solução muitas vezes passa por encontrar trabalhadores ocasionais, como pessoas mais velhas, especialmente mulheres. “São muito conhecidas na indústria, nos banquetes ou nos hotéis e hotéis-casino há imensas empregadas de mesa idosas a carregar os tabuleiros”. São pessoas pagas à hora, normalmente através de uma agência.
Porém, o sector hoteleiro, garante Verschuren, “tem muito interesse em trabalhar com estudantes em regime de part-time ou ocasional, pago à hora”. “Incluindo os estudantes não-locais. Há mais de 10.000 estudantes não-locais que adorariam ter um dinheirinho de bolso, mas não estão autorizados a trabalhar. Por isso, claro, nós não os contratamos”, referiu.
A proposta passa pela implementação de um plano-piloto, segundo o qual há uma limitação no número de horas por mês que estão autorizados a trabalhar. “A ideia seria permitir que trabalhassem 10 ou 20 horas por mês, e aos fins-de-semana, para poderem ganhar algum dinheiro para sobreviver, porque Macau também é caro para os estudantes. Portanto, é uma situação em que todos ganham”, continuou o dirigente associativo.
Fong Kin Fu, por seu turno, observou que, no passado, os restaurantes contavam com estudantes como trabalhadores a tempo parcial nas férias de Verão ou nas épocas festivas. “No entanto, actualmente, os estudantes já não fazem isso. Se quiserem trabalhar a tempo parcial, todos preferem as operadoras de jogo e outros sectores de alto padrão”, lamentou.
“Antigamente, nas áreas residenciais, ainda se via estudantes que ajudavam estabelecimentos de comida ou bancas de massa nas férias de Verão. Mas, nos últimos anos, já não fazem este tipo de trabalho”. Agora, os restaurantes praticamente já não contam com trabalhadores a tempo parcial, acrescentou.
Restaurantes poderão fechar portas
O subdirector da União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau disse que, mesmo que o sector tenha vindo a enfrentar o aumento de custos operacionais, não ousa elevar os preços. “Não é que não queiram. Com os negócios pouco satisfatórios, as operações têm sido árduas para os restaurantes”, referiu.
Segundo disse, os estabelecimentos que podem permanecer abertos estão praticamente a manter as “operações básicas”. Ao mesmo tempo, “há alguns que continuam a operar mesmo com prejuízo”. “Estes restaurantes desejam ver um cenário de recuperação no futuro. Contudo, considero que se a mão-de-obra não conseguir colaborar com o desenvolvimento do sector, mais estabelecimentos irão fechar portas”, anteviu.
Reiterando que o sector “carece muito de mão-de-obra”, Fong Kin Fu receia que Macau entre “num período de vácuo”, uma vez que muitos dos trabalhadores já são velhos e alguns aposentaram-se. “Entre os que ainda trabalham, muitos têm mais de 60 anos”, notou.
Para o líder associativo, não se deve olhar “cegamente” para este assunto. Segundo a DSAL, há mais de 6.000 vagas de emprego disponíveis, “porém, ninguém quer exercer essas profissões”. “Os residentes de Macau não estão dispostos a preencher essas vagas. Penso que as autoridades devem mostrar os dados reais, para o público poder avaliar e fazer uma [avaliação]. Se for realmente impossível contratarmos residentes, os TNR podem ser capazes de colaborar com o desenvolvimento do nosso sector”, concluiu.



