Numa tentativa de quebrar os estereótipos associados aos palhaços, Joyce Chan procurou chamar a atenção para este género das artes performativas criando um festival internacional no território. O evento contou com uma masterclass de Philippe Gaulier

 

Salomé Fernandes

 

O Festival Internacional do Mimo realizou-se pela primeira em Macau este ano. Com o objectivo de destruir convenções associadas à arte performativa de quem actua como palhaço, o Teatro CANU quis organizar um evento para mostrar directamente ao público o outro lado da actuação. Assim surgiu uma semana de workshops e espectáculos com artistas convidados do Brasil, França, Inglaterra, Japão e Macau.

A ideia de organizar a masterclass do Philippe Gaulier em Macau surgiu a Joyce Chan há cerca de três anos, quando estudou na escola do profissional dirigida a palhaços.

“Antes disso, tinha a impressão estereotipada dos palhaços como actores que estão apenas a tentar ser divertidos e ridículos com movimentos corporais e maquilhagem pesada. Philippe Gaulier mostrou-me um estilo performativo que mostra a beleza profunda da actividade: os palhaços amam a sua audiência e estão dispostos a procurar e a expor o seu carácter verdadeiro e as suas fragilidades, de forma a criar um espectáculo agradável”, descreveu à TRIBUNA DE MACAU.

Desde aí manteve sempre a vontade de promover este género de artes performativas ao público de Macau, tendo este ano lançado a primeira edição do Festival Internacional do Mimo. De resto, foi com o objectivo de introduzir o mimo, o palhaço e o teatro físico no geral à audiência em Macau, que fundou o teatro CANU em 2013. “O meu objectivo a longo prazo é cultivar uma comunidade sustentável em termos de audiência, artistas e produtores em Macau para promover o género”, explicou.

A organizadora apontou apenas como dificuldade que “em Macau é muito difícil encontrar locais para ensaios e espectáculos bem equipados a preços razoáveis, sugerindo que seria útil criar “pequenos teatros” para esses efeitos. De resto, mostrou apreço pelas oportunidades de apoio financeiro a que o grupo de teatro se pôde candidatar através do Instituto Cultural.

 

Pessoas sérias “são perigosas”

Phillipe Gaulier esteve presencialmente em Macau para realizar um dos workshops do evento. O artista de renome considera que “as pessoas sérias são realmente perigosas, e muito aborrecidas”, para além de ser difícil trabalhar com elas. Quando encontra personalidades dessas nas suas aulas é directo: “digo-lhes que não precisam de acreditar em nada, mas sim de ressuscitar o seu Hamlet interior”.

Na sua escola em França, as generalidade dos seus alunos são estrangeiros. “Costumo ter cerca de 15 nacionalidades nas aulas. Acabei por não ensinar muito a franceses e estou bastante feliz com isso. Tenho 75 anos e sei exactamente o que os franceses pensam. Sou velho para ver sempre o mesmo tipo de pensamento. E quando lido com estrangeiros não sei o que pensam por isso sou mais livre”, comentou Philippe Gaulier.

Vir a Macau foi também para sim uma felicidade. “Para ser honesto e sincero – como normalmente sou – adoro trabalhar aqui”, revelou, mostrando apreço pelas pequenas ruas da cidade. E anuiu que os alunos que participaram na sua aula são promissores.

Kate Leong é actriz de teatro em Macau, tendo já representado em Pequim, Shanghai, Singapura e Taiwan. “O workshop é brilhante mas muito difícil”, indicou, algo que se prende com não saber o que fazer. A ausência de uma ideia definida sobre a personagem, algo que por norma tem na sua profissão, e o ter de representar somente focada no que sente dificulta a sua expressão.

Também Benson Kuong decidiu aproveitar a oportunidade, também ele da área de representação. É a terceira vez que participa numa aula de Philippe Gaulier, embora o tema tenha variado. “É mais difícil aprender a ser palhaço, porque nas aulas dele o significado é muito diferente. O palhaço sou eu próprio, o meu lado mais profundo. A maquilhagem e truques de magia são mecanismos que nos protegem, mas nestas aulas o palhaço é interpretado como a nossa forma mais pura”, indicou, assumindo sentir-se exposto.