Durante seis anos, Mary e o marido pensaram que a única saída para os problemas incessantes que enfrentavam era o suicídio. O marido ainda tentou sozinho uma vez, mas não foi aquele o dia do juízo final. As dívidas, os processos legais e a venda de tudo o que tinham levaram o casal a decidir que não podia deixar os filhos para trás, para lidarem com as consequências dos actos dos pais, pelo que a opção foi morrerem juntos. Os filhos sabiam mas foram tentando convencer o pai a continuar a lutar, uma e outra vez, até que desapareceu a força que ainda tinham. Quis o destino que a mãe e o filho mais novo sobrevivessem à tragédia desse dia e a todos os outros que se seguiram. O testemunho de Mary pretende revestir de Humanidade um tema que apesar de envolver o Ser Humano é tabu e muitas vezes retratado em Macau como um número
Liane Ferreira
Em Macau, quando se fala de suicídio não existem pessoas. Não existem contextos, nem vidas. Não existe o sofrimento de quem o comete, de quem pensa nisso como opção mas não a toma, de quem se depara com essa situação e tem de lidar com tudo o que um desfecho trágico significa para quem fica. Em Macau, suicídios são vistos como números. Esta é a tendência que se quer contrariar, trazendo à luz do dia uma história com face humana e não um objecto numérico numa qualquer folha cinzenta de jornal. Esta é a história de Mary (nome fictício), sobrevivente de suicídio.
Este caso é ainda mais delicado por envolver uma família. Em conjunto, pais e filhos tomaram tal decisão. Neste momento, deve estar a interrogar-se: De onde veio tal coragem? O que é que se passou? Porquê os filhos também?
“É uma longa história, porque na realidade não queríamos fazer isto, mas a situação em si e aquele momento no tempo, tudo estava contra nós e levou a essa situação. Isto foi um problema com seis a sete anos. Foi este o tempo que lutámos pela vida dos nossos filhos, pelas nossas vidas. Os dias passavam e tentávamos lutar, enquanto também arrastávamos essa decisão, mas ela voltava constantemente a nós, de que tínhamos de acabar connosco”, começa por contar Mary à TRIBUNA DE MACAU.
A história começa há sete anos. A tentativa, de que sobreviveram a mãe e o filho mais novo, ocorreu há mais de um ano.
“Nós tínhamos um grande projecto com uma empresa norte-americana, mas não fomos capazes de o acabar, devido a problemas financeiros e a más decisões, não tenho bem a certeza. Mas posso dizer que foram problemas financeiros. Pusemos tudo, mesmo tudo, o que tínhamos nesse projecto, não guardámos nada para os nossos filhos, porque nunca pensámos que fosse correr mal. Nós nunca pensámos nessa possibilidade, nem uma vez. Devíamos ter pensado e esse foi o nosso erro”, recorda num tom afectado, mas que manteve estável durante a maior parte da entrevista.
Quando fizeram esse investimento, a família tinha uma vida boa, casa própria e mesmo viagens. “Tínhamos feito um empréstimo para fazer esse investimento, mas depois o peso de tudo era demasiado para nós, tornava muito difícil continuarmos vivos. Não perdemos apenas o que tínhamos, mas também tínhamos dívidas”, afirmou.
Ao fardo financeiro juntou-se um fardo legal, porque o problema com a empresa parceira e as dívidas acabaram na barra do tribunal. “Como é que íamos pagar aos advogados? Havia muitas pessoas a irem a nossa casa (pedir dinheiro) e, devagar, começámos a vender tudo. Primeiro, vendemos as jóias e o ouro, depois os carros. Enquanto o processo ia correndo, íamos vendendo. Por isso, não conseguimos que os nossos filhos acabassem a sua educação. O nosso problema impediu que isso acontecesse”, recorda.
“Éramos atacados por todos os lados. Ninguém na família ajudava. O meu marido tentou muitas coisas, mas nunca teve sucesso. Não é fácil tomar uma decisão como matar-se. Mas, matar-se é uma coisa, e matar os nossos filhos é muito, muito difícil, é preciso um coração muito forte”, afirma Mary, com a voz a falhar.
Mary salienta que não se queriam matar, mas ao mesmo tempo questionavam-se sobre quem é que ia tomar conta dos filhos. “Tínhamos a família e mesmo que aceitassem tomar conta das crianças as coisas iam mudar, porque nós não fomos bem-sucedidos. Iam começar a dizer: “O teu pai é assim, a tua mãe é aquela”, “passaram o fardo das responsabilidades para nós”.
“Nós não queríamos que as crianças ouvissem isto e por isso decidimos ir com as nossas crianças”, conta a progenitora.
Filhos foram convencendo a adiar a decisão final
“Da primeira vez, não lhes dissemos. Íamos dar-lhes sumo e acabar as nossas vidas, mas eu não era capaz, por isso, o meu marido pediu o sumo, chamou os meninos e pôs o veneno. Eu sabia que era um veneno mortal e por isso falei com o meu marido, disse que íamos tentar mais; algo iria funcionar e vamos poder salvar as crianças. Depois, quando vivessem sozinhos, podíamos morrer”, disse, acrescentando que a partir desse ponto voltaram à luta.
Mas, “as coisas não funcionaram”. “Depois disso, talvez um ou dois anos, nós lutámos contra a empresa americana, os advogados ajudaram-nos com as despesas do dia-a-dia e fizemos um acordo com eles: se ganhássemos o processo, dividia-se o montante, metade para cada parte”.
“Nesta altura, dissemos às crianças que se não vencêssemos, teríamos de morrer. Não dissemos mais nada. Tínhamos muitas dívidas, problemas legais e nada iria acontecer”, relembra.
Questionada sobre a reacção dos filhos, Mary diz que ficaram calados e foram para o quarto, onde falaram um com o outro, até que saíram para falar com o pai.
“Papá vamos tentar, vamos sair deste problema, por favor não faças isto”, declararam na altura, tentando convencer o pai e mostrando-se contra a ideia dos progenitores.
No entanto, em 2015, perderam o processo, depois da empresa norte-americana ter ganho um recurso.
“Dois anos antes, o meu filho atirou o veneno, que tínhamos em casa, pela sanita abaixo. Mas depois de perdermos o processo, o meu marido voltou a comprar e novamente o meu filho disse: pai não faças isto, vamos tentar mais uma vez. Nós tentámos mais uma vez, voltámos para o nosso país, mas com medo de tudo o que tínhamos à espera. Tentámos, mas sem sucesso. O nome do meu marido era conhecido, estava na internet, quando ia falar com as pessoas para pedir emprego, viam quem ele era e não ofereciam nenhuma oportunidade”, conta Mary.
Da família, não havia apoio. O marido teve uma infância difícil, não vinha de família rica, mas tornou-se num empresário. “Era um ‘self-made man’ ou feito por Deus, mas agora já não acreditávamos em Deus. No início, tivemos muitas dificuldades. Não tínhamos quase nada, apenas uma carrinha muito pequena e depois fomos construindo a nossa vida, caímos e levantámo-nos muitas vezes”, disse.
“Sentimos que não nos apoiavam [a família] e também não eram capazes de o fazer. Algumas pessoas são boas em assuntos financeiros, outras não. Podíamos salvar as crianças, mas tínhamos medo de que fossem elas a sofrer todos os problemas no futuro”, afirmou dando a entender que não confiavam em ninguém.
Antes de Macau entrar em cena, o marido tentou matar-se, mas sem sucesso. Acabou hospitalizado e em coma três dias.
Viagem sem regresso era derradeira tentativa
“O plano não era vir para Macau”, diz Mary, notando que legalmente não podiam abandonar a terra natal, mas simultaneamente não tinham dinheiro para os processos, nem para se alimentarem.
Nesta altura, o marido conheceu alguém online que lhe ofereceu trabalho no Canadá. “Não sei se ele pagou ou não, digo de verdade. Tínhamos de vir para Hong Kong e ele levava-nos para o Canadá, durante um ou dois meses ajudava-nos com a casa e um trabalho. O meu filho disse que também arranjava um trabalho qualquer”, recorda.
Mary confessa não saber a origem da oferta, porque o marido tinha-se tornado mais fechado. “No início, contava-me tudo, mas nos últimos dois anos, 2015 e 2016, escondia-me muita coisa. Sentia que ele não me queria pressionar ou preocupar e guardava as coisas para ele”, referiu.
As buscas na internet do marido reflectiam o conflito interno e a instabilidade emocional em que se encontrava. “Ele costumava procurar três coisas na Internet: astrologia, como morrer e oportunidades. Ele dizia: ‘eu quero morrer, mas não me quero matar’”, disse Mary, notando que pessoalmente não queria privar as crianças dos pais.
“Se morrer, levo-as comigo, não as vou deixar. Ele procurava por oportunidades para ganhar dinheiro e deixar as crianças vivas”, frisa.
Começa então a viagem para Hong Kong, primeiro, e depois para Macau. “Antigamente, viajávamos muito. Tínhamos milhas do passado, vendemos artigos de casa, como panelas, e comprámos a viagem. As crianças ficaram sozinhas para trás e já em Hong Kong, essa pessoa disse que ia demorar algum tempo a organizar tudo. Tínhamos de esperar uma semana ou 10 dias, mas não tínhamos dinheiro para viver em Hong Kong”, disse.
Assim, reservaram um hotel barato para cinco dias em Zhuhai, pensando que “o perto de Macau”, como costuma aparecer nos websites de hotelaria, significava que não precisavam de visto. Quando chegaram ao ferry perceberam exactamente o contrário e tiveram de vir para Macau, para onde os filhos já estavam a caminho de avião.
“Um amigo dele disse que tinha pontos no hotel e que fazia a reserva. Ele não nos queria ajudar com emprego ou dinheiro, mas disse que dava os pontos e marcava o hotel por uns quatro ou cinco dias. Depois de chegarmos a Macau, continuávamos a ter de esperar por aquele homem, mas não tínhamos dinheiro nenhum. Falámos com as crianças e decidimos avançar e acabar com tudo, mas o meu filho mais novo disse: papá, vamos esperar mais um dia”, recorda Mary. E assim, adiou-se mais um dia.
No dia seguinte de manhã, o marido, que nunca tinha jogado num casino, nem gostava, disse à família: “Vamos ao casino, se a minha sorte for boa, vou ganhar alguma coisa, nem que seja 10 dólares e quer dizer que a sorte está a mudar”.
“Mas ele perdeu e disse que era tarde demais. ‘Se não quiserem ir, eu vou’, foram as suas palavras”, avança Mary, com a voz a começar a tremer.
Uma noite interminável
“Lembro-me dessa noite. Ele agarrou-me e disse-me que estava a ficar louco, que não conseguia continuar. Se não quisesse ir, podia ficar com as crianças, mas que ele iria partir”, conta emocionada.
“Ainda ligámos a três pessoas a pedir ajuda para chegar ao Canadá e depois arranjar lá trabalho, mas não conseguimos ajuda nenhuma. Nessa noite, às 11h30, eles os três tomaram o que tinham a tomar [veneno] e ficaram na cama. Eu era a última e ia ficar no chão, porque ninguém queria sair do quarto”, lembra entre lágrimas.
Mary diz que, antes de morrer, o marido perguntou aos filhos, já maiores de idade, se queriam ficar, que escreveria à família a pedir para tomarem conta deles, mas disseram-lhe que não. Aliás, todos deixaram cartas de despedida.
“Não queriam viver esta vida sem nós e que se fôssemos juntos podíamos viver uma segunda vida juntos, foi o que disseram. Tomámos o que tínhamos a tomar e agora não há nada que possa fazer. O meu marido e o meu filho mais velho morreram, e o meu mais novo está no hospital. Esteve morto e voltou, mas não está bem e eu estou a aprender com Macau”, afirma.
Nesse momento, a entrevista fica em suspenso. O sal das lágrimas sente-se no ar, o coração pesado toma conta da sala e não há nada mais do que uma lamentação da mais pura e profunda tristeza.
O cinzento da sua aura, do seu luto, mantém-se, tal como a luta contra o pensamento suicida, “porque metade [da família] está aqui e a outra não está”.
“Conheci muitas pessoas boas aqui, que me ajudaram muito. Assistentes sociais e muitas pessoas de Macau têm-me ajudado emocionalmente e financeiramente, porque eu não tenho nada. Sinto-me muito agradecida por eles, mas se tivesse a escolha entre a vida e a morte, escolheria a morte apenas”, afirmou.
Nos dias que correm, Mary visita todos os dias o filho no hospital. “Só vivo por ele, até que aprenda a viver sozinho. Não choro à frente dele, porque sei que vai chorar como já aconteceu e agora deixei de fazer isso. O médico achava que não ia sobreviver, mas sobreviveu e está a falar, pode ser que volte a andar”, disse.
No entanto, reitera: “Depois posso ir em paz”. “Quando ele estiver bem a todos os níveis, eu terei paz, mas não felicidade. Só quero ir calmamente”, confessa.
“Eu não sou forte, só faço de conta que sou forte. O apoio que vocês dão fazem com que esteja aqui, se não fosse isso ia abaixo num segundo”, admite Mary, falando em agradecimento a todos quanto a acompanham nesta jornada.
Quando as pessoas reagem à história da sua vida, são boas e “não puxam para o passado, mas para o futuro, dizem que vamos sair deste problema”. “Mas eu penso, que se sair deste problema, como poderei ser feliz sem o meu marido e sem o meu filho? O meu coração está vazio, sou um robot”, diz.
“Não é fácil tirar a nossa vida e quem o fizer e sobreviver tem outra luta muito difícil pela frente. Tentem tudo para não o fazer, só espero que ninguém tenha de passar por isto que passamos”, aconselha.
Para Mary e a sua família não havia o “desejo de morrer, mas de resolver um problema”. “Lutámos durante seis a sete anos, mas o contexto não estava a nosso favor”, conclui.



