Eduardo Ribeiro está em Macau para apresentar a sua mais recente obra dedicada à passagem de Luís de Camões pelo Oriente, intitulada “Camões in Asia”. O autor volta a apontar várias provas de que o poeta esteve em Macau e sublinha que num momento em que a portugalidade esteve em risco, quando o país era governado pela dinastia filipina, de Espanha, “Os Lusíadas” foram um símbolo da independência de Portugal, mesmo para os portugueses em Macau. A próxima obra do autor debruçar-se-á sobre as suas memórias de Angola no período pós-independência
Inês Almeida
Luís de Camões esteve em Macau. Essa convicção foi passada de geração em geração e há documentos que a sustentam. “Havia apontamentos documentais, por exemplo, do padre Manuel Teixeira, como um título dos bens de raiz dos jesuítas em que eles, quando queriam definir a propriedade de um determinado terreno para os lados de onde construíram o colégio de São Paulo, disseram que aquilo confinava com os penedos de Camões”, explicou Eduardo Ribeiro à TRIBUNA DE MACAU.
O jurista voltou à RAEM para apresentar “Camões in Asia”, a sua mais recente obra focada no poeta. “Sabemos que ele esteve cá de 1562 a 1564, mas logo em 1580 veio a perda da independência, da dinastia genuinamente portuguesa, e passámos a estar integrados numa dinastia dual, que era a dinastia Filipina, de Espanha e de Portugal. E Filipe I de Portugal cumpriu aquilo que prometeu nas Cortes de Tomar, que foi manter a autonomia dos portugueses nesta região. Mas, os portugueses aqui estavam incomodados porque sentiam-se governados por um rei estrangeiro e os Lusíadas de Camões eram tidos por toda a gente lusa do Oriente como uma bíblia da independência, da pertença à portugalidade, designadamente aqui em Macau tinham muito essa convicção”.
Há mais de um século, em 1917, foi encontrado no Porto um documento conhecido como a versão extensa da década VIII, de Diogo do Couto. “Além de haver falhas e omissões, o que lá está é tudo quanto necessitamos para saber que Camões esteve em Macau. O Diogo do Couto, o que diz é que Camões esteve na China. Veio para cá como provedor dos defuntos, com o capitão Pedro Barreto. As pessoas nunca repararam, mas o nome de Pedro Barreto está lá”, sublinha Eduardo Ribeiro.
Depois desta leitura, foi na Universidade de Macau que o jurista encontrou a lista dos capitães-mor que lhe possibilitou confirmar que quem estava no activo em 1562 nesta zona era, de facto, Pedro Barreto. “Depois, finalmente, temos um documento também do Diogo do Couto que é o ‘Diálogo do Soldado Prático´, que é fundamental. É um livro que ele escreveu ao fim de 10 anos aqui, na milícia militar, de 1559 a 1569. Com 27 ou 28 anos ele pensa que já chega e que quer ir ao reino pedir uma recompensa pelos serviços militarizados e, além disso, apresenta este livro, que é uma jóia literária”. “Ele encontra-se com Luís de Camões na ilha de Moçambique e depois de sete ou oito meses embarcam juntos na nau Santa Clara, de regresso ao reino de Portugal”.
Depois de 40 dias de quarentena, Diogo do Couto apresenta-se junto ao rei “e claro que lhe fala de Camões”. “Não admira que passado um ano e meio ‘Os Lusíadas’ tenham sido publicados, em Setembro de 1572”.
A obra que Eduardo Ribeiro apresentará no próximo domingo, pelas 17:30, no Clube Militar, “Camões in Asia” foi a primeira escrita em inglês. “As outras foram em Português, para Português ler, se quiser. Desta vez é para inglês ler. Desde 2009 que tinha isto em projecto. Deu muito trabalho a tradução, sobretudo porque foi feita com base no texto que tinha pré-escrito que era o roteiro cronológico de Camões no Oriente mas que teve de ser adaptado”, apontou o autor.
Obstáculos da tradução
“Comecei a ver que a minha tradutora fazia uma belíssima tradução em inglês mas que o conteúdo não condizia exactamente com o que tinha escrito, não era aquela a minha ideia, não era bem o que queria escrever. Então, mudámos o método de trabalho. Estive dois meses em casa dela, na Carolina do Norte, portanto, iniciámos aí o trabalho a sério”, contou.
Os poemas d’Os Lusíadas patentes na obra são retirados da edição da obra de 1997. Os poemas líricos implicaram uma abordagem diferente. “Não havia lírica publicada e pedi-lhe que traduzisse mas enquanto estava nos Estados Unidos descobri que a ‘Amazon’ tinha um livro chamado ‘Poesia Lírica de Luís de Camões’, de Landeg White, e mandei vir. Comecei a ver os poemas que ela tinha traduzido, a cotejar com os do Landeg White e sempre que preferia metia os dele”.
Eduardo Ribeiro não planeia publicar a obra em chinês. “Não pondero. É muito complicado por causa dos poemas. Não desdenharia [a hipótese], mas não é uma coisa em que estivesse a pensar. A tradução para inglês deu tanto trabalho, só que conseguia controlar. Cheguei dos Estados Unidos e, em 2015, inscrevi-me num curso de inglês com aulas privadas e individuais, que ainda hoje frequento, para poder controlar o que a minha tradutora escreve. Em chinês não consigo”, assume.
De qualquer modo, vir apresentar a obra a Macau era algo que “tinha de ser”. “Este livro já foi apresentado em Lisboa e desde que foi lançado lá pensei que tinha de o ser também em Macau. Todos os meus livros foram primeiramente lançados em Macau. Há até um, de 2007, que só foi lançado em Macau. Estava ansioso para o fazer. Desejo que [o livro] seja comprado por quem não tem acesso à língua portuguesa, se não no dia do lançamento, depois na Livraria Portuguesa”.
Memórias de Angola
A próxima obra de Eduardo Ribeiro vai afastar-se de Luís de Camões. “Estou a trabalhar num livro de memórias sobre a minha vida depois da independência de Angola. A independência foi em 1975 e eu fiquei lá até 1982. O meu filho nasceu em Luanda, em 1976 e sempre que escutava, ao serão, quando falava sobre as experiências de Angola, ficava sempre com curiosidade, sempre com os ouvidos alerta, porque estava a ouvir coisas que não conhecia”.
Assim, começou a incentivar os pais a escrever sobre esta época. “A minha mulher teve o acidente, faleceu, entretanto o meu filho também faleceu, mas comecei agora a escrever as minhas memórias, dirigidas a contar ao meu filho, mas para neto ler. Esse livro já vai adiantado mas parei em Novembro porque, entretanto, participei numa sucessão de conferências”.
“Quero o mais rapidamente pegar nesse texto, que está a sair bem, está a seguir um padrão que estabeleci”, destacou o autor. A data da publicação da obra é, ainda assim, um ponto de interrogação. “Para o lançar precisamos sempre de escrever. No ano passado ia tão lançado que dizia ‘daqui a um ano está pronto’, mas entretanto meteram-se os imponderáveis e comecei a viajar, a intervir em comunicações públicas e já não é este ano. Não me atrevo a lançar uma data”, admitiu Eduardo Ribeiro.
O autor está já a pensar noutros projectos “relacionados com Camões, mas não sobre ele”.
Eduardo Ribeiro nasceu em Angola em 1948 e é licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. Chegou a Macau em 1985 onde foi director da Inspecção de Contratos e Jogos entre 1986 e 1988, director dos Serviços Prisionais e Reinserção Social até 1990, coordenador-adjunto do Gabinete para a Prevenção e Tratamento da Toxicodependência até 1992 e administrador da Imprensa Oficial entre 1993 e 1998. A investigação sobre a presença de Luís de Camões em Macau começou em 2006.



