Nasceu há 62 anos no Hospital Kiang Wu, família com necessidades, Macau não tinha a fama de região milionária como hoje. Kuan Iat Chao mais seis irmãos e os pais. Necessidade de interromper os estudos e contribuir para o orçamento familiar. Amigo de família falou ao fundador da ourivesaria “Sheong Hei” e o moço educado e curioso, filho de pai tipógrafo, a mãe fazia panchões em casa, começou como servente, rodeado de ouro e pedras preciosas por todos os lados. Clientela maioritariamente portuguesa, gente da alta e sem ser. Relacionamento perfeito, simpatia a rodos de parte a parte. Amizades que permanecem vivas
Helder Fernando*
A “Sheong Hei”, na Avenida Almeida Ribeiro, a San Ma Lou, provavelmente a estrada mais famosa da cidade, é das mais antigas e conhecidas ourivesarias de Macau. Por décadas e décadas, os clientes foram maioritariamente portugueses. Foi ali que há 46 anos, começou a trabalhar o adolescente Kuan Iat Chao que também ali aprendeu a falar português com alguma desenvoltura, ajudado pelo esforço de à noite, depois do trabalho, frequentar uma escola luso-chinesa. Ainda hoje a prestigiada loja funciona no mesmo espaço e pertence à mesma família.
Na ourivesaria foi conhecendo governadores e suas esposas, comandantes militares, directores de serviços e portugueses em geral. Aquela avenida sempre foi movimentada, mas sem chegar às multidões dos dias de hoje. Kuan Iat Chao assistiu a todo esse aumento de quase tudo: trânsito, pessoas e poluição. É com suave preocupação que menciona o combate à poluição e melhoramentos no trânsito automóvel, como medidas positivas que prioritariamente devem ser aplicadas “a bem de Macau, uma terra extraordinária, para felicidade de todos os que aqui residem”.
Praticamente ao lado da ourivesaria existia o carismático e muito concorrido restaurante “Belo”, com alguns pratos de cozinha singapuriana. Como eu era cliente e minha filha, então com oito ou nove anos, adorava aquele “chau min” bem picante, éramos clientes certos. Penso que foi por essa circunstância de proximidade, que há cerca de 30 anos conheci o então recém trintão Kun Iat Chao. Eternamente com aspecto de galã de cinema, dos mais simpáticos, não dos peneirosos. Sapatos brilhando, bem penteado, madeixa sempre certinha na testa alta, roupa impecável e bem vincada, mãos tratadas, sorriso sereno, olhos atentos. Não era assim tão frequente na época. Tal como hoje, uma simpatia de cavalheiro, agora de cabelos grisalhos.
Mesmo não ligando eu a ornamentos, o que comprei de metal mais valioso foi ali, tal como é para ali que encaminhei amigos e conhecidos quando me perguntavam onde deviam escolher tais peças. O argumento mais eficaz era o facto de poderem ser recebidos ultra simpaticamente em língua portuguesa. E foi quase sempre nesta língua que a conversa se desdobrou para este “Perfil da Nossa Gente”, sentados nos dois diferentes lados de um dos balcões da ourivesaria, onde também captei a imagem que aqui fica.
“Na escola aprendi um pouco a falar e escrever português, mas aqui, logo que comecei a atender as pessoas, aprendi muito mais. A pouco e pouco comecei a gostar muito de falar com os clientes portugueses”, refere Kuan, lembrando algumas visitas de governadores e seus familiares, desde o Governador Nobre de Carvalho, já falecido, por exemplo, mas cuja viúva, Julieta, todos os anos lhe envia um simpático cartão de Boas Festas. Outros também o fazem. São bastantes as figuras então importantes em Macau, que passavam pela “Sheong Hei” para ver as novidades da ourivesaria e para dois dedos de conversa com ele: “o dr. Silva, director do Hospital, o amigo Alberto Estima de Oliveira, comandantes militares e da Polícia, como o comandante Chung Su Sing, que era chinês-português. Eles também traziam pessoas, era uma óptima relação, fazíamos amizade”.
(Numa brevíssima nota, refira-se que o tenente-coronel Chung Su Sing, dos Comandos, é uma figura lendária dos tempos da guerra colonial. Existem em vários blogs múltiplas referências elogiosas sobre este militar português).
Afectivamente tão importante como estas memórias de relacionamentos longos e antigos, é esta realidade também recordada por Kun Iat Chao: “Muitos destes velhos amigos já não vivem em Macau, mas quando vêm de férias, não me esquecem, aparecem aqui para me cumprimentarem. Não precisam de comprar, somos amigos, vêm para conversarmos, lembramos tempos antigos. Eu também não os esqueço”.
Neste ponto da nossa conversa, pergunto-lhe como observa estas grandes transformações dos últimos anos em Macau: “Sim, Macau está muito diferente, o trânsito motorizado precisa de ser mais organizado, há muito mais dinheiro porque há muitos casinos, muito mais pessoas. Como há mais pessoas, pode haver mais clientes, mais movimento comercial. Isso é necessário, porque Macau só vive do jogo, não tem mais nada. Mas deve haver sempre espaço para conservar o bom ambiente entre os cidadãos, um ambiente que não é só chinês, é esta mistura de chinês e português. Esta é a grande valia de Macau, que outras terras não têm. Aqui deve caber toda a gente. Os muitos chineses que agora vêm visitar a região, os que estão interessados em conhecer monumentos e locais com história, quase não perguntam por templos chineses, a não ser Ma Kok Miu, porque templos chineses eles têm muitos lá na China, o que querem saber é onde são as Ruínas de S. Paulo, as Igrejas portuguesas, para muitos turistas, Macau é como Europa, com restaurantes europeus, etc. Isso é que faz Macau diferente”.
Nas férias anuais, muito curtas, uma semana no máximo, como é regra antiga na actividade privada nesta região, para quem trabalha por contra de outros, Kun vai até ao Continente chinês. “Gostava muito de conhecer Portugal, os meus amigos convidaram-me várias vezes, mas tão poucos dias de férias, não é possível. Sempre ouvi falar de Portugal. Mas quando daqui a dois ou três anos me reformar, por certo vou visitar, os meus amigos de lá, eles vão gostar muito de me ver!”
Os afectos antigos de Macau, consequentes porque praticados.
* Radialista




