Lei e Wah tiveram percursos e motivações muito diferentes mas têm algo em comum: numa altura das suas vidas, passavam mais tempo a jogar no casino do que com a família ou amigos. Ambos pediram empréstimos, ficaram a dever quantias elevadas, criaram estratégias para ter acesso a mais dinheiro para o jogo, penhoraram bens importantes e perderam contacto com entes queridos. Agora, em recuperação, os dois “croupiers” deixam uma mensagem muito clara: o melhor é nem sequer começar a jogar, sobretudo porque em Macau é muito difícil isolarem-se daquilo que lhes despoletou o vício

 

Inês Almeida*

 

Vai-se uma vez ao casino por diversão ou para tentar ganhar algum dinheiro, e regressa-se porque se teve sorte de principiante e ela pode continuar. Tenta-se uma terceira vez porque se perde e quer recuperar o prejuízo. Depois disso, é muito difícil de lá sair. Assim começam muitas histórias de vida marcadas pelo vício do jogo que, mesmo quando se dissipa, deixa para trás um rasto de destruição de relações familiares, amizades, da estabilidade financeira e até emocional.

Foi o que aconteceu com Lei, nome fictício. “Croupier” de profissão, aos 41 anos frequenta a “Casa de Vontade Firme” do Instituto de Acção Social (IAS) duas vezes por mês, pois, embora não jogue há meio ano, tem problemas financeiros por resolver.

“Não jogo desde Agosto do ano passado mas ainda tenho dívidas por pagar. Tentei deixar de jogar em Novembro de 2016, mas voltei a fazê-lo em Agosto de 2017. Depois comecei a receber apoio no centro, até agora”, conta à TRIBUNA DE MACAU. “Na China ainda devo 30.000 renminbis. Em Macau, tenho de pagar a vários bancos. A um devo 140.000 patacas, a outro 28.000 e ainda 11.000 a um terceiro banco. Ainda pedi dinheiro emprestado a outras pessoas, cerca de 80.000 patacas, que entretanto já paguei”, explica com uma expressão séria no olhar.

Os problemas começaram há 10 anos. “Vim a Macau em 2008 porque os meus pais vivem cá. Na altura, tinha um salvo conduto, não tinha Bilhete de Identidade de Residente (BIR). Fazia transporte de mercadorias de Macau para a China e o contrário também, mas com este trabalho não conseguia ganhar muito dinheiro”.

Lei transportava principalmente leite em pó para o Continente. “As autoridades da China apanhavam normalmente as pessoas como eu, porque transportava uma quantidade maior do que é permitido. Há um limite do número de unidades de leite em pó que podemos transportar, mas temos de trazer mais para ganhar mais dinheiro”, admitiu.

“Ganhava muito pouco a fazer o que fazia. Quando chegava às Portas do Cerco, via os ‘shuttle bus’ dos casinos, por isso, quando recebia o dinheiro do transporte de mercadorias, entrava nos autocarros e ia aos casinos. Sempre que tinha dinheiro, ia para o casino jogar”, confessa.

Assim, passou a frequentar os casinos com mais regularidade. “Quando ganhava ficava muito contente. Quando perdia, queria jogar mais para recuperar o dinheiro que tinha perdido. Queria sempre jogar mais e mais. Ia todos os dias ao casino”.

Então, começaram a surgir os problemas financeiros. “Quando não podia ir ao casino, sentia-me desconfortável e comecei a pedir dinheiro aos meus amigos”. “Penhorei um telemóvel, colares, peças de jade, uma pulseira de ouro que usei no meu casamento e mais algumas coisas que eram importantes, como prendas que recebi quando me casei”. Em alguns momentos, chegou a pedir dinheiro à família que também sofreu com o vício.

“Tenho duas filhas, uma do meu ex-marido, que tem 19 anos e ainda está na escola secundária. Outra é pequenina, tem dois anos. Muitos membros da minha família sabem do meu vício”, frisa Lei, confessando que, actualmente, a relação com vários familiares continua a não ser fácil.

“A minha mãe ajudou-me a pagar dívidas de mais de 100.000 patacas, mas isto [o jogo] afectou a minha relação com os meus irmãos, cunhados e cunhadas. Ficaram todos muito zangados comigo porque estava sempre a pedir-lhes dinheiro. Pedi uma, depois duas, três vezes, e eles ficavam muito chateados porque sabiam que era para jogar”, conta, com a cabeça ligeiramente pendida para baixo e tristeza no olhar.

“O meu irmão mais velho, que trabalha na mesma empresa que eu, ainda hoje não me fala. Pedi várias vezes dinheiro emprestado à minha família e mesmo agora não conseguimos resolver os problemas da nossa relação”. “Ainda tenho uma irmã mais velha com a qual falo, mas pouco. O meu cunhado não me fala”, lamenta.

A relação com o marido atravessa uma fase complicada devido aos problemas monetários. “O meu marido vive na China e discutimos muito por causa do dinheiro através do WeChat. Vemo-nos uma vez por semana, ou às vezes duas ou três por mês. Ainda estamos a pagar a casa em Tan Zhou, em Zhuhai, que nos custa 5.000 dólares de Hong Kong por mês”, explicou.

 

O poder do medo

Foi o medo de potenciais consequências mais graves do vício que levou Lei a deixar de jogar. A decisão de procurar ajuda aconteceu num momento muito particular. “Algumas pessoas foram bater à porta da minha casa para pedir de volta o dinheiro que me tinham emprestado. Eram agiotas. Quando foram a minha casa, pedi à minha família para me ajudarem a pagar cerca de 70.000 patacas”.

Numa fracção de segundo, a expressão facial de Lei muda, espelhando o receio que sentiu naquela altura. “Sentia muita pressão por terem conseguido ir a minha casa e tinha medo que fossem até ao casino onde trabalho porque acho que era muito mais fácil encontrarem-me lá. Então, cedi. Pedi ajuda à minha família para pagar uma parte das dívidas”.

Foi assim que decidiu procurar ajuda. Hoje, assegura, tenta estar afastada do jogo, embora ainda não tenha conseguido libertar-se completamente dos problemas. “Já não penso tanto em jogar como antigamente. Percebo que ainda tenho dívidas para pagar, mas tento ter uma vida normal”.

Para tal, recorreu aos serviços de exclusão a pedido de terceiros em 2016, com ajuda do marido. Os profissionais da “Casa de Vontade Firme” também aconselharam algumas actividades para ocupar o seu tempo e “não pensar tanto em jogar como antigamente”. “Por exemplo, comprei uma televisão e, quando tenho tempo, vou à China ver a minha filha”.

Porém, frisa, “o mais importante foi que decidi trabalhar só durante a noite, assim, quando acabo o meu turno tenho sono, vou dormir, e não penso em ir aos casinos”. “Tudo isto está a ajudar-me a resolver os meus problemas”.

Agora, em recuperação, gostava de reaver alguns objectos que penhorou, porém, sabe que três meses depois de entregar os bens já não é possível recuperá-los. “Sobretudo o ouro já foi vendido a outra pessoa de certeza”.

Hoje, depois daquilo por que passou, tem apenas um conselho para dar: “não vão jogar”.

Wah, de 50 anos, também “croupier”, dá o mesmo conselho, sobretudo após um longo percurso de vida repleto de altos e baixos e marcado pelo jogo, dentro e fora dos casinos. “Comecei a jogar quando tinha 13 anos. Havia um jogo de apostas com seis pessoas, três pares, e a primeira equipa a atingir cinco pontos ganhava dinheiro. Costumava jogar com os meus amigos e jogámos durante muito tempo”, conta à TRIBUNA DE MACAU.

Além disso, “naquela altura podíamos comprar boletins de apostas em lojas. Todas as semanas os meus pais me davam dinheiro, uma semanada, e eu usava-a para jogar. Muitas vezes conseguia ganhar, por isso, podia continuar a jogar com os meus amigos e a ganhar dinheiro”.

Das pequenas apostas, aos 16 anos, Wah passou para os casinos. “Jogava principalmente dados e o Grande e Pequeno”. “No início, ia ao casino uma ou duas vezes por mês, até porque não tinha muito dinheiro. Só tinha 16 anos. Depois, comecei a ir uma ou duas vezes por semana”. “A frequência [das idas aos casinos] voltou a diminuir quando comecei a trabalhar porque depois me apercebi de quão difícil é ganhar dinheiro”, frisa entre gargalhadas.

“Nos tempos livres costumava jogar Mahjong e perdia algum dinheiro. Quando isso acontecia, queria voltar a recuperar o que perdia de outra forma, portanto, voltei a entrar nos casinos com pouco mais de 20 anos”, conta, revelando que começou então a engendrar esquemas para ter dinheiro para jogar.

“Agora estou empregado num casino mas antes trabalhava noutra empresa. Uma vez, pediram-me para depositar algum dinheiro num banco, mas acabei para usá-lo para apostar e perdi tudo. No dia seguinte, pedi ajuda a um amigo para tapar esse buraco e o meu patrão acabou por nunca descobrir”, confidencia.

Passado algum tempo, Wah começou a exercer funções numa empresa de seguros. “Recebi dos clientes alguns pagamentos e usei esse dinheiro também para jogar. Os clientes descobriram o que tinha acontecido mas tiveram piedade e não quiseram alertar a polícia, exigiram apenas que devolvesse o dinheiro”. “Eram entre 10.000 e 20.000 patacas no total e, na altura, o meu salário mensal rondava as 2.000 ou 3.000 patacas”, explicou. Depois desta situação, Wah parou de jogar “durante algum tempo”.

“Então, fui trabalhar para a China, numa empresa de vestuário e tudo corria bem”, recorda, falando do seu percurso como se de uma história se tratasse. “Recebia um salário elevado, o dobro do que ganhava em Macau. Tinha muito dinheiro, mas no Continente, na altura, não havia muitas formas de entretenimento, por isso, comecei a jogar Mahjong e cartas com colegas do trabalho”.

“Às vezes, voltava a Macau para ir aos casinos. Como recebia muito dinheiro, não me importava se perdia ou ganhava. De qualquer forma, nunca perdia muito dinheiro nem pedia empréstimos”.

 

A viragem em 2007

Tudo mudou há 11 anos. “Em 2007, foram formados muitos quadros qualificados na China. As pessoas tornaram-se mais competentes e trabalhadores como eu já não eram precisos, por isso, tive de voltar a Macau”, explica.

“Quando regressei, não tinha oportunidades de trabalho porque aqui nenhuma empresa trabalhava com vestuário. Acabei por ir trabalhar para o casino, como croupier”, refere, notando que a mudança de um alto cargo para uma função de base teve forte impacto. “Antigamente trabalhava na direcção de uma empresa mas, no casino, tinha uma função básica. Antes desabafava sobre os meus problemas com os funcionários de base na empresa, só que agora era eu o funcionário categoria baixa. Para libertar o meu stress, comecei a jogar com mais frequência”.

Olhando para trás, Wah aponta uma certeza: “o vício começou muito antes de 2007, mas foi nesse ano que comecei a ficar mesmo dependente do jogo”. Antes desse ano, ia ao casino, no máximo, três vezes por semana. Depois, começou a ir duas ou três vezes por dia. Ia porque queria ganhar dinheiro. “Além disso, assim consegui voltar a ter um sentimento de orgulho e de grandeza como quando ocupava um cargo mais importante. Ganhasse ou perdesse, tinha dinheiro para compensar as perdas, por isso, não me importava”.

Por esta altura surgiram as dívidas. “Tinha dívidas muito frequentemente e comecei a pedir empréstimos aos meus amigos, vendi objectos valiosos nas casas de penhores para ter cerca de 10.000 patacas. Também pedi dinheiro emprestado ao banco, no total, 300.000 patacas. Fiz isso várias vezes tanto com bancos como empresas financeiras. Pedia [dinheiro], devolvia, pedia de novo, devolvia”. Nunca recorreu a agiotas. Hoje, assegurou, já liquidou todas as dívidas.

Wah é divorciado e tem dois filhos com quase 20 anos. Toda a família sabe do seu problema com o jogo. Na pior altura do vício, “a minha casa não era a minha casa, era um hotel para dormir. O casino era a minha casa e, até agora, a minha ex-mulher não me perdoa”, lamentou. “Os meus filhos compreendem mais ou menos o problema e acho que já me perdoaram. Eles estão especialmente atentos aos perigos do jogo. Sei que nunca vão jogar”.

“Havia duas situações em que tinha muita vontade de ir ao casino: quando estava mais triste porque tinha discussões com a minha família e quando se aproximava o fim do prazo para devolver o dinheiro que me tinham emprestado”, frisou.

Nos anos em que mais jogou, o bem-estar dos filhos chegou a não ser a prioridade. “O bem-estar deles chegou a estar em causa, absolutamente. Não tinha tempo para cuidar deles. Agora sei que isto é uma vergonha mas, uma vez, a minha filha esteve com febre e eu, depois de ela adormecer, fui para o casino. Nem sequer a levei ao hospital”.

Desde 2014, Wah só entra nos casinos por causa do trabalho. “Para jogar, nunca mais”, assegura. “É difícil trabalhar num casino, mas agora estou mais determinado porque já tive de lidar com muitas consequências do vício do jogo. O divórcio foi o pior, a par das dívidas para com a minha empresa. Foram as duas coisas que me marcaram mais”. Hoje, gostaria de recuperar a relação que tinha com a mulher mas “ela não quer”, lamenta.

Em recuperação há mais de três anos, aponta como maior entrave o próprio ambiente da RAEM. “Macau tem muitos casinos. É difícil isolar-me desse ambiente. É demasiado fácil entrar num casino. Apesar de já ter tentado de várias formas [afastar-me do jogo], é muito difícil”. O sistema de auto-exclusão da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) não é a solução, indica.

“O regime de auto-exclusão não funciona. Sei que existe, mas não funciona. Muitas vezes consegui entrar sem ser apanhado. O casino tem tantos clientes que é muito fácil. Ao mesmo tempo, os seguranças não olham muito para o documento, só se preocupam em evitar que entrem as crianças. Nunca vão descobrir quem está registado no sistema”, garante.

Actualmente, o maior desejo de Wah é recuperar a relação com a família. Além disso, “se puder”, quer usar a sua experiência para advertir as outras pessoas para os perigos do jogo. “Quero ter uma nova vida e ser totalmente isolado do jogo. Isso é necessário, mas é quase impossível”.

Para sensibilizar para os riscos do vício, Wah participa em actividades de promoção do jogo responsável, trabalha ao lado de assistentes sociais e dá entrevistas com o objectivo de “transmitir experiências”. “Depois de receber ajuda neste centro [Gaming Employees Home] apercebi-me de que há algumas ideias erradas que se constroem quando jogamos. Quando ganhamos, queremos sempre ganhar mais e este é um pensamento errado. Antes não sabia isso, agora sei que esta ideia pode ser um problema”.

“O vício não acontece de repente, é um processo gradual, desenvolve-se a pouco e pouco. É difícil isolarmo-nos completamente do jogo em Macau, mas para as pessoas os limites têm de ser claros. Não podemos baixar as exigências”, defendeu. “Há a ideia errada de que se não pedirmos empréstimos podemos jogar, o que é incorrecto. Não podemos baixar as exigências”. De qualquer modo, alerta, “o melhor é nunca sequer jogar”.

 

* Com Rima Cui