O presidente e CEO do grupo CESL Ásia acredita que a falta de liderança levou à queda de Macau como referência regional a nível ambiental. António Trindade rejeita que os transportes eléctricos sejam solução para a poluição e quer que o projecto de Macau como cidade inteligente se foque num aumento da qualidade de vida da população

 

Salomé Fernandes

 

Chegou uma nova edição do Fórum Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (MIECF), mas a preocupação do presidente e CEO do grupo CESL Ásia em relação à área ambiental mantém-se: há falta de liderança. “A questão parece-me ser ainda a mesma e cada vez mais premente, que continua sem resposta, o que não é muito bom”, disse.

António Trindade acredita que a situação se tem vindo a agravar, mas que as soluções estão também mais próximas, fruto indirecto do desenvolvimento económico de Macau. “Os passos que se têm dado no sentido da diversidade económica levam a exigências maiores e mais directas no sentido da qualidade de vida das pessoas. Levam também naturalmente a uma melhor distribuição dos recursos em Macau, do jogo ou das áreas que o apoiam”, comentou.

Outro factor que o líder da CESL Ásia apontou como importante é a preocupação gerada pelo impacto do tufão “Hato”. “Foi um acidente que provavelmente não devia ter causado tantos problemas quanto causou, até porque por lei e boa prática devíamos prever tufões ainda maiores”, comentou. Para Trindade, o ambiente não pode ser analisado apenas através da poluição ou infra-estruturas, mas sim da qualidade de vida no geral.

“Nota-se por exemplo os casos de gastroenterites que aumentaram brutalmente nos meses seguintes e a razão é porque os esgotos em Macau não são tratados como deviam ser”, apontou, acrescentando que “houve um colapso na capacidade de recolha dos resíduos e do seu tratamento, mas o problema não foi do tufão, era anterior”.

No entanto, de acordo com o CEO, a falta de liderança nem sempre se sentiu no território. Trindade indicou que há cerca de 15 ou 20 anos, quando a sua empresa era líder ambiental, Macau era uma referência regional, tendo a escolha da RAEM como local de realização da MIECF sido resultado do seu bom posicionamento a nível global em medidas ambientais. Recordou a vinda de pessoas para ver a central de incineração, infraestruturas ambientais e a limpeza da cidade.

“Quando a CESL Ásia saiu da central de incineração deixou-a pronta para mais 20 anos. Quando saímos de lá não houve tempo para fazer o ‘retrofit’ (modernização) da empresa antiga. Está o projecto pronto para se fazer. Hoje continua a não haver soluções, o Governo continua a entregar contratos de reparações aqui e acolá privadamente e sem concurso público. Alguém tem de ter responsabilidade”, sublinhou.

Nesse sentido, questionado sobre a lógica do evento se continuar a realizar no território respondeu que “isso perdeu o sentido completamente”. “O único sentido que faz agora é porque entretanto é um destino e um sítio de conferências, não por ter uma relevância muito grande em termos ambientais”.

Trindade apela a que Macau encontre soluções por si próprio, devendo ser a análise dos erros e sucessos do passado a orientar o caminho. E mostrou vontade de que a sua empresa volte a ter um papel mais influente nesse caminho por percorrer. “A CESL Ásia, como na altura em que Macau era uma referência, continuará, se lhe forem dadas oportunidades, a exercer essa liderança”, comentou.

Com o conhecimento cada vez mais acessível através da internet e das novas tecnologias, o que está hoje em causa é como o aplicar. Nesse sentido, Trindade diz que as pessoas não precisam de ter um conhecimento extenso das questões ambientais. “As pessoas devem, dentro da sua consciência, consumir bem e lembrar-se que tudo aquilo que deitam para o lixo ou rejeitam tem um efeito. É nesse sentido que a contribuição a nível pessoal deve ser feita. Porque em Macau, por exemplo, separar lixo pode ser contraproducente”, avisou.

 

Integrar o ambientalismo na cidade inteligente

Entre os 30 milhões de visitantes, o aumento populacional, e a saída de residentes de Macau para estudarem no exterior, a consciência ambiental tem crescido, e há mais pessoas a querer maior qualidade de vida. Mas não é o voluntarismo a resolver a questão, notou Trindade. Precisa-se de liderança, bem como da adopção de soluções “inteligentes” para as mudanças que os novos modelos de viver na cidade exigem.

Como exemplo aponta os engarrafamentos de trânsito e o modo como o conceito de transporte privado vai sofrer alterações enormes devido à inteligência artificial. “Pode deixar de fazer sentido por uma questão simplesmente de conveniência. Com [o desenvolvimento destes novos paradigmas] podemos reduzir o trânsito nas cidades até 90%”, mencionou, acrescentando que “vai haver estradas e parques de estacionamento a mais, e teremos de ver o que fazer com eles, eventualmente fazer jardins”.

O prazo de chegada dessa realidade poderia estar próximo. “Em Macau podia ser em três, cinco, dez anos. Podia fazê-lo antes porque Macau foi pioneira neste tipo de coisas e tem um sistema de cidade inteligente apesar de não sabermos bem o que está a ser montado, quem está a liderar ou qual a intenção. Mas este é que é o sentido”, avaliou numa nota mais positiva.

As empresas enfrentam o desafio da necessidade de inovação sob o risco de se tornarem obsoletas. “As empresas criam a sua própria razão de existir e devem fazê-lo numa perspectiva do interesse público e no interesse da comunidade. Existem para criar valor para a sociedade. O conhecimento é do domínio público, o que nos distingue é a inovação”, frisou Trindade.

Para o presidente, o futuro das empresas e das pessoas está inquestionavelmente ligado à sua capacidade de inovar e de produzir melhores condições de vida a terceiros. “E isto não é utopia”, indicou. É também nesse sentido que a CESL Ásia apresenta este ano na MIECF uma parceria com a empresa chinesa “Newland”, cuja actividade se baseia na nuvem electrónica e desenvolve soluções de “smart-city” em Fuzhou.

 

Transportes eléctricos “não são solução”

De acordo com o presidente da CESL Ásia, os veículos eléctricos apenas transferem a criação de poluição dos locais onde circulam para o sítio onde a electricidade é produzida. Assim, a sua resposta é peremptória: “os veículos eléctricos não são a solução para os problemas de transporte e de poluição”. Em causa está o fabrico e a vida útil das baterias eléctricas.

A esperança associada aos transportes eléctricos prende-se mais com as alterações tecnológicas que têm permitido, por exemplo, reutilizar as baterias para passarem a ser úteis no sistema de produção eléctrica a nível industrial, ajudando a regular o consumo e a reduzir a necessidade de capacidade energética para lhe dar resposta, consequentemente diminuindo a poluição e o consumo de energias fósseis.

“Não faz sentido em Macau falar de carros eléctricos isoladamente, é a tal falta de liderança. Faz sentido falar em solução no âmbito do que é a tecnologia hoje e a capacidade de aplicar essa tecnologia em Macau e para benefício das pessoas. O que interessa é a solução”, rematou.