Pelo menos quatro dos 50 testemunhos de prostitutas apontaram para a presença de Alan Ho nas entrevistas para garantir um quarto no Hotel Lisboa. Porém, a arguida Wang Qiao Yu foi a mais referenciada como sendo responsável por acompanhar e receber comissões pagas por cada prostituta

 

Catarina Almeida

 

Na leitura de, pelo menos, quatro dos 50 testemunhos das mulheres que se prostituíam no Hotel Lisboa, Alan Ho foi reconhecido como um dos indivíduos presentes nas entrevistas para a distribuição de quartos, no 5º e 6º andares, onde eram prestados os serviços sexuais.

Na sessão de sexta-feira no Tribunal Judicial de Base, onde foram ouvidos os testemunhos para memória futura, uma das mulheres disse que o ex-gestor do hotel não se pronunciou verbalmente durante a entrevista, tendo só acenado com a cabeça.

Além disso, não se ouviram quaisquer referências a pagamentos directos das prostitutas ao arguido.

De acordo com os mesmos depoimentos, a arguida Wang Qiao Yu, também conhecida como Kelly Wang, foi referenciada como a principal interlocutora que, para além de outros gerentes do hotel, conduzia as entrevistas que avaliavam a “fisionomia” das raparigas.

Alegadamente, a arguida, que na altura desempenhava funções de vice-gerente do espaço hoteleiro, recebia as comissões de protecção das mulheres que, assim, já não tinham de ser sujeitas a avaliações diárias.

Deste modo, para as mulheres terem acesso a um quarto, Kelly Wang cobrava, no mínimo, 150 mil reminbis. Segundo os depoimentos, que foram recolhidos pela Polícia Judiciária e Ministério Público na fase de investigação, aquele montante era transferido para contas bancárias da China Continental ou entregue por intermediários e proxenetas.

Para além disso, a suspeita daria conselhos sobre o vestuário, o comportamento e a manutenção dos quartos.

Uma das testemunhas alegou que todas as prostitutas tinham de “ser validadas” como “caras lindas” para terem direito a um quarto. Caso não cumprissem os regulamentos estabelecidos pelo Hotel Lisboa, podiam sofrer penalizações: serem expulsas ou ficarem mencionadas na “lista negra”.

De acordo com os depoimentos, as mulheres tinham de se apresentar na recepção do hotel, aguardar numa fila e, só depois, é que saberiam se teriam um lugar.

Por sua vez, desfilavam no rés-do-chão do hotel, entre um banco e um restaurante, para angariar os clientes a quem cobravam 1.500 dólares de Hong Kong (valor mínimo) por cada meia hora.

Oriundas de várias cidades e províncias do Continente chinês, as mulheres entravam no território, quer por iniciativa de intermediários e proxenetas, quer por anúncios na internet, com a promessa de que os “rendimentos” seriam “elevados”. Na maior parte dos casos, a vinda era concretizada através de terceiros que cobravam quantias díspares e que tratavam de todas as diligências necessárias, entre as quais a entrada ilegal no território.

Para além deste facto, a maior parte das testemunhas declarou ainda nunca ter sido expulsa pelos seguranças do hotel.

 

“Expulsa” do Venetian

Num dos depoimentos, uma mulher alegou que tentou prostituir-se em unidades hoteleiras do Venetian, mas acabou por ser “expulsa” pelos seguranças. De acordo com a mesma mulher, que estava ilegal no território, quando soube do negócio no Hotel Lisboa foi orientada por um homem que tratou de todas as diligências necessárias para conseguir um quarto na unidade hoteleira.

Noutro testemunho, a rapariga disse que estava a tentar prostituir-se no Venetian quando foi informada por outra colega de que poderia prestar serviços sexuais no Hotel Lisboa.

Segundo o depoimento, ambas as prostitutas foram entrevistadas pela arguida Kelly Wang.