Como presidente da Associação dos Escritores de Macau, criada há 31 anos, Lei Kun Teng enalteceu o papel da associação por representar a “ascensão natural” da literatura local. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, o escritor apontou que, neste momento, existem em Macau pelo menos 160 poetas chinesas e, na associação, cerca de 20 jovens escritores que publicam artigos frequentemente. Na sua opinião, é bom ver que o número de novos escritores é superior ao número dos que optaram por pousar a caneta. No entanto, considera que também não é fácil promover a escrita criativa, porque hoje em dia a maioria das pessoas prefere livros de entretenimento ou com dicas para dominar uma técnica com rapidez. Lei Kun Teng defende ser necessário avançar com a promoção da leitura e da escrita “passo a passo”, mas com orientação e mais apoio do Governo, com os professores e associações a dedicarem-se mais afincadamente à tarefa. O presidente da associação entende ainda que apesar da vontade de escrever e reflectir sobre a beleza através da escrita, muitos autores apresentam insuficiências em termos de domínio  das técnicas de escrita e falta de experiências de vida que possam alimentar as suas obras

 

Rima Cui

 

– Como é que a Associação dos Escritores tem impulsionado o desenvolvimento da literatura de Macau?

– A associação foi criada há já 30 anos. Macau tem uma característica em termos de cultura: apesar de existirem poucas pessoas no território existe sempre um grupo que adora escrever e cobre faixas etárias diferentes, incluindo idosos, adultos de meia idade e jovens. Antes da criação da associação, o conhecido poeta Leung Pai Wan, antigo administrador do jornal “Ou Mun”, Lei Seng Chon, antigo director do mesmo jornal, e Lei Pang Chu, director de administração de uma escola secundária Tao Li, juntavam-se frequentemente para escrever poemas e romances. Em 1987, o ambiente literário em todo o país e em Macau era tão vivo que foi natural a criação da Associação dos Escritores, cujos fundadores, os escritores acima referidos, ficaram conhecidos pelo espírito de amar a Pátria e amar Macau. A criação da associação foi rápida e rapidamente também foi publicada a primeira revista da associação. Na altura, o papel da associação foi mesmo de orientar a sociedade. Na mesma década, surgiu um excelente grupo de escritores jovens, como Agnes Lam. Esta nova geração absorveu facilmente a Literatura Moderna, que estava a tornar-se mais popular no Continente na mesma altura. Em Macau, há uma base muito boa de cultura tradicional, por isso, a literatura de Macau tem-se desenvolvido sempre de forma muito diversificada, também devido à forte influência da Literatura Moderna. A escrita de poemas tradicionais chineses também é respeitada. A literatura de Macau existe desde a Dinastia Ming. Na década de 20 e 30 do século XX, membros da Sociedade Literária Xueshe começaram a escrever poemas modernos, o que é considerado muito cedo. Chegados à década 80, a criação da Associação dos Escritores significa a ascensão natural da literatura de Macau. A associação tem muitos escritores mais velhos, mas apesar disso, procuramos não ser tão rígidos. Procuramos aceitar coisas novas, estilos e maneiras de escrita diferentes. Actualmente, temos uma geração ainda mais jovem de escritores talentosos. Por exemplo, Tan Jianqiao, médico do Hospital Kiang Wu, aproveitou a medicina, sofrimento e pensamento dos pacientes como tema da sua obra literária, o que abre aos leitores um horizonte único sobre como ver a vida. Além disso, Un Sio San, poeta local, ganhou o prémio “promessa literária” da “People´s Literature”, revista literária do Governo Central. Numa terra tão pequena, é raro e precioso haver uma escritora neste patamar. Em Macau, existem 80 a 90 escritores de poesia moderna e o mesmo número de escritores de poesia tradicional, mas temos uma população de apenas 600 mil pessoas, pelo que temos uma percentagem de escritores de Macau elevada em termos mundiais. Temos cada vez mais escritores de romances, sendo que cerca de 20 jovens escritores publicam artigos com frequência.

 

– Devido à pressão financeira a crescer, há cada vez mais escritores a deixarem a área?

– Alguns desistiram, mas não foram muitos. Aqueles que deixaram a área não são apenas jovens, alguns são comerciantes. O dono do Restaurante Cantonês Kapok, escrevia poemas muito bons, mas acabou por parar de escrever devido aos negócios, embora tenhamos apelado para voltar ao campo literário. Outra das razões é o stress da vida. Às vezes, o ambiente pode também mudar o sentimento pela escrita. A iniciativa é uma coisa, mas ter uma vida onde se possa encontrar os materiais de escrita necessários é o mais importante. A paixão pela escrita vai diminuindo quando não se consegue encontrar materiais para a escrita ou não há maneiras de escavar no fundo do nosso ser por eles. Mas, em geral, o panorama é bom, porque há mais novos escritores do que os que saíram. Quando falamos da literatura de Macau, temos de ver que o ambiente social é ideal. Primeiro, dentro da associação, os membros respeitam-se mutuamente, mesmo havendo diferentes conceitos de beleza literária conseguimos todos conviver. Claro que há concorrência, mas os escritores que não ganham prémios, também ficam muito contentes pelos outros escritores locais que venceram. No fundo, o espírito da população de Macau é muito calmo, o que contribui para a harmonia entre escritores. Macau não tem escritores profissionais, todos trabalham de manhã, alguns até têm dois trabalhos, para além de escrita. Procuram a beleza, acompanham a humanidade e o destino dos seres humanos. A personagem do livro pode ser apenas um vendilhão, mas o objectivo é discutir qual será o futuro da população do território. O ambiente social de Macau beneficia muito a literatura local. A Associação dos Escritores tem agora 90 membros, dos quais metade já publicou.

 

– Dados oficiais mostram que os leitores preferem pedir nas bibliotecas livros sobre dicas para vida e culinária. Isso significa que a literatura local não é suficientemente atractiva para os leitores?

– Hoje em dia, as pessoas preferem ler cada vez mais de forma rápida e superficial. As pessoas, sobretudo os jovens, procuram ter cada vez mais dinheiro e uma vida de materialismo. Além disso, a tecnologia pode trazer muitos aspectos convenientes e rapidez de acesso para nossa vida, mas ao mesmo tempo diminui a imaginação, inteligência e especialmente a memória, o que afecta a procura das pessoas pela beleza. Fui docente numa universidade e tive contacto com muitos alunos de mestrado. Há alguns anos, um aluno pediu-me ajuda porque queria fazer uma tese focada na análise das personagens do “Romance dos Três Reinos”. Perguntei-lhe, quantas vezes tinha lido o livro e respondeu com hesitação. Questionei-o sobre alguns pormenores, nem soube o que são. No final, admitiu nem sequer uma vez ter lido o livro, mas viu muitas telenovelas produzidas com base nesta obra. Mandei-o ler pelo menos três vezes o livro antes de escrever a tese. Desde aí, nunca mais apareceu. Hoje em dia, muitos alunos tentam obter o diploma mais rapidamente, encontrar um emprego com mais facilidade e isto reflecte-se também na atmosfera social de leitura. Ou seja, a maioria das pessoas prefere ler livros de entretenimento, programáticos ou que contam com dicas para dominar uma técnica com mais rapidez. Daí que até os “Quatro Grandes Romances Clássicos” chineses tenham livros em versão resumida, que claramente não mostram a profundidade da história, nem transmitem com sucesso a sua beleza. Para reverter a situação, o tempo é uma das soluções. Além disso, as associações e o Governo, precisam de expandir a influência da literatura.

 

– Como avalia o trabalho feito por parte das autoridades em relação à divulgação da leitura?

– Os Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) disponibilizam em todas as escolas assistentes de leitura que recomendam bons livros aos alunos. A DSEJ tem ainda um plano de leitura onde é aplicado um sistema de pontos e que realmente tem produzido efeitos. A nossa associação tem também uma actividade que se chama “uma caneta de criança” para incentivar as crianças a escrever e a desenhar. Além disso, temos outra iniciativa apoiada pelo Governo e que passa pela visita às escolas para apresentar e analisar obras literárias junto dos alunos. Em Macau, há algumas escolas com associações literárias que têm feito um bom trabalho, como a Escola Secundária Pui Ching e a Escola Hou Kong. Em Macau, há um fenómeno muito bom de organização frequente de salões literários.

 

– Como é possível incentivar o interesse dos jovens pela escrita e leitura?

– É óbvio que neste momento não há uma maneira imediata de o fazer. Acredito que tem de ser passo a passo, mas também é preciso haver uma orientação. Para além de mais apoio do Governo, os professores e associações têm de apostar mais e em várias vertentes. Precisam de dedicar-se mais afincadamente. E isso não é nada fácil. Por exemplo, a nossa associação comemorou o 30º aniversário no ano passado. Este ano, fizemos as eleições dos membros da nova direcção, mas só podemos avançar no caso de marcarem presença mais da metade dos membros da associação. A convocação foi concretizada, mas foi difícil. Somos uma associação de raiz profunda na sociedade e os membros têm relações próximas. Mesmo assim, não foi fácil organizar a assembleia. A maioria dos funcionários da associação são voluntários e até um antigo jornalista do “Ou Mun”, que já se reformou, tem-nos ajudado a tratar do trabalho da associação. Temos de ver que estes factos colocam dificuldades à mudança. Durante o seu crescimento como pessoa, um dia vai reparar que é preciso criar coisas novas e ser respeitado pelo outro não é suficiente para concretizar o valor de uma pessoa, sendo ainda preciso criar novo símbolos de beleza e de amor. A escrita é uma das maneiras.

 

– Como vê o futuro da literatura de Macau?

– A literatura é uma reflexo do espírito e alma de uma cidade. Neste momento, a nível nacional, ainda não há um escritor local de topo e ainda não apareceu uma obra literária realmente clássica. Mas também é facto que a essência da literatura de Macau está ligada às características únicas desta cidade. Em muitos romances e poemas de escritores locais, podemos ver o sentimento de bondade, o que é bastante precioso, só que, muitos autores ainda não têm experiência de vida suficiente. O facto é que há uma disparidade entre a vontade dos escritores de procurarem a beleza e a falta de experiência de vida, juntamente com insuficiências técnicas de escrita. Nesse sentido, penso que os escritores locais têm de apostar muito mais no regresso aos clássicos, no sentido em que devem aprender como é que essas obras mostravam o mundo. Os escritores têm um forte desejo de erguer uma imagem da literatura de Macau, mas isso, a meu ver, já foi concretizado. Há alguns símbolos. Primeiro, já foram formadas três gerações de escritores. Segundo, a literatura local abrange estilos como o romance, poesia, prosa, teatro, comentário literário e outros tipos de obras. Acredito que, um dia, as pessoas vão valorizar a literatura como a característica essencial desta cidade.

 

– Qual o impacto da cultura portuguesa na literatura local?

– A cultura portuguesa influenciou efectivamente o desenvolvimento da literatura de Macau. Por um lado, a cultura local tem como base a cultura tradicional chinesa, mas por outro também existe uma grande diversificação cultural e estes dois aspectos fazem com que a cidade e a sua cultura tenham características únicas. A literatura local reflecte a fusão entre a cultura oriental e ocidental e a coexistência harmoniosa de culturas diferentes. Por exemplo, o Centro Histórico de Macau tem uma área tão pequena, mas foi lhe concedido um valor tão grande. Porquê? Porque apesar dos templos e igrejas serem muito pequenos, reflectem a integração e a coexistência cultural, o que é indiscutivelmente um exemplo de que o mundo actual mais precisa. Macau dá um grande exemplo ao mundo e a cultura portuguesa foi a origem deste facto. O impacto da cultura lusa na literatura de Macau é profundo. Tal espírito de coexistência harmoniosa fomenta um ambiente literário em que os autores de poemas clássicos e modernos podem dedicar-se à escrita sem conflito e difamação, ao contrário do que aconteceu no Continente na década 80 onde esses conflitos entre poetas aconteceram.

 

– A associação coopera com a indústria cinematográfica e televisiva?

– Recentemente, cooperámos com Hong Kong na produção de um filme, um mistério, com base no contexto cultural de Macau. O filme vai ser projectado no Verão do próximo ano. A história é a mistura de três romances da autoria de três autores locais. Além disso, vai haver outro filme que tem como protagonista um macaense, que anda a tentar perceber quais as suas raízes e qual será o seu futuro. Estou convicto de que a literatura de Macau vai contribuir para o desenvolvimento da indústria cultural local, sobretudo da indústria cinematográfica e televisiva.