Na sexta-feira, foi oficializada a entrega do património do Canídromo ao Governo e à meia-noite de sábado o IACM tomou conta dos 533 galgos abandonados pela Yat Yuen no local. Ao abrigo da lei, se os animais não forem reclamados no prazo de sete dias, serão aplicadas multas que poderão totalizar entre 10,66 milhões e 53,30 milhões de patacas. A prioridade agora é definir quem vai gerir aquele espaço: o IACM pondera entregar essa missão a privados, mas a ANIMA gostaria de liderar o processo das adopções
Liane Ferreira e Viviana Chan
Um ciclo de décadas de exploração das corridas de galgos em Macau chegou ao fim na sexta-feira, com o término da concessão atribuída à Companhia de Corridas de Galgos (Yat Yuen). Além das instalações terem revertido para a RAEM, os 533 galgos que a Yat Yuen explorou e criou, também acabaram por ficar ao cuidado do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), que ali os encontrou abandonados na madrugada de sábado.
Voluntários têm levado os galgos a fazer exercício e passear
Actualmente, está em vigor um plano de emergência para 10 dias, com 20 funcionários do IACM e cerca de 40 voluntários da Sociedade Protectora dos Animais de Macau (ANIMA), Associação para Cães de Rua e o Bem-Estar Animal em Macau (MASDAW), Associação Protectora para os Cães Vadios de Macau, “Everyone Stray Dogs Macau Volunteer Group” e “Long Long (Macao) Volunteers Group”, a cuidar dos animais em dois turnos. Além disso, foram mobilizados mais 10 trabalhadores adjudicatários para limpar o local. Os voluntários alimentam os cães e levam-nos a passear, fazer exercício e as necessidades.
O chefe da Divisão de Inspecção e Controlo Veterinário do IACM, Choi U Fai, relatou que os trabalhos no canil do ex-Canídromo estão a decorrer bem, mas ressalvou que este modelo é temporário. “Estamos a avaliar a situação e ao mesmo tempo, pretendemos entregar o trabalho a uma empresa profissional, vamos divulgar a informação quando estiver tudo pronto”, disse Choi U Fai, explicando que a ideia é atribuir os trabalhos ao sector privado.
Neste sentido, a ANIMA quer estar envolvida. “Somos candidatos, se houver concurso algum. O voluntariado aguenta pouco tempo. Agora o IACM é que tem tomar uma opção”, disse Albano Martins à TRIBUNA DE MACAU.
Voluntários tomam conta dos galgos com todo o cuidado
“Está tudo a correr normalmente. Os dias de semana serão mais complicados, porque muitos dos voluntários trabalham. Temos de trabalhar para que haja 40 pessoas em cada período e isso está mais ou menos assegurado. Nesta fase de 10 dias não deve haver problemas, mas se o processo for maior vai ser mais complicado. O IACM tem de trabalhar isso muito rápido”, declarou.
Em caso de concurso público, a ANIMA só poderá tomar conta da gestão se for autorizada a ter mão-de-obra. Este é um factor menos forte da associação, mas Albano Martins considera que mesmo as empresas sentirão o mesmo problema. “Não haverá empresas no território capazes de fazer isso com qualidade, porque para um espaço daqueles, durante um ano, é preciso muito pessoal”, salientou.
“Esperamos apenas que nos deixem gerir o processo de adopções e não essa empresa que poderá ir gerir o espaço. Nós temos de entrar e sair do espaço sem entraves, senão não vamos conseguir fazer nada em termos de adopções”, declarou Albano Martins, esclarecendo que a associação não quer “andar a pedir informações às prestações”. “Temos de pegar nisto e organizar de uma vez”.
Se a ANIMA ficar encarregue desse processo, a primeira coisa a fazer será um levantamento muito cauteloso das informações de todos os animais, incluindo microchips, para conversar com as pessoas interessadas e com as associações no sentido de começar o processo de tirar sangue e fazer análises. Os animais só podem sair três meses depois de tirarem sangue, como acontece nos casos da Europa, Austrália, Hong Kong e Singapura.
Nas adopções internacionais, são associações parceiras da ANIMA que irão superintender o processo, porque conhecem os interessados. Por todos estes motivos é que a associação sempre defendeu a necessidade de fixar o prazo de um ano para colocar os animais.
Trabalhadores do IACM preparam a comida para os cães
Numa mensagem pública, Albano Martins disse ainda ser altura se concentrar esforços na recolha de fundos para ajudar na colocação dos galgos em famílias. Na Europa a coordenação é assumida pela associação italiana “Pet Levrieri” e nos Estados Unidos pela “Grey2k”.
Tendo em conta que “cada viagem para a Europa custa à volta de 30 mil patacas, a não ser que haja uma grande campanha de donativos”, a ANIMA terá muita dificuldade em conseguir transportar os animais para fora de Macau, constatou Albano Martins, à Lusa.
“Temos recebido apoios de toda a parte do mundo agora o que é preciso é que esses apoios se transformem em dinheiro para movimentar estes animais todos”, afirmou, acrescentando que a associação está a trabalhar para reduzir todos os custos” e existem duas companhias aéreas que poderão fazer o transporte gratuitamente.
IACM rejeitou último plano da Yat Yuen
Na sexta-feira à tarde, a equipa legal da Yat Yuen esteve no Canídromo, altura em que revelou ter sido feito, nesse mesmo dia, um último pedido ao IACM para prorrogar o prazo para a retirada dos galgos das instalações.
O advogado Álvaro Rodrigues indicou que, caso isso não acontecesse, a empresa iria “exercer o direito constante no artigo 17º da Lei de Protecção dos Animais para pedir ao próprio IACM para cuidar deles, contra o pagamento de uma certa quantia fixada”. Essa quantia seria de 1.000 patacas por animal. Porém, o pedido foi rejeitado pelo IACM, que mais tarde comunicou o abandono dos animais.
Surpreendentemente, foi necessário à Yat Yuen enviar um pedido ao Governo para esclarecer quem eram os proprietários dos galgos, ao que a Administração reiterou que era a companhia exploradora da concessão, não sendo portanto um bem que deve reverter a favor do território.
Em comunicado, o IACM fez saber que na madrugada de sábado, a administradora Ung Sau Hong e veterinários do organismo deslocaram-se ao Canídromo, onde encontraram 533 galgos abandonados. Assim, seguindo a Lei de Protecção dos Animais, o IACM fica a tomar conta dos cães e das instalações.
“Na avaliação preliminar, a saúde dos galgos foi considerada normal e poucos se encontravam com doença dermatológica menos grave, não se verificando qualquer galgo que necessitasse de cuidados especiais. O ambiente da criação corresponde aos respectivos requisitos previstos na lei”, disse o IACM.
Segundo a lei, os donos têm sete dias para reclamar os animais. Caso não o façam, será considerado abandono, que implicará a imposição de multas que podem variar entre 20 mil e 100 mil patacas por animal. Ou seja, estarão envolvidos valores entre 10,66 milhões e 53,30 milhões de patacas.
Veterinários do IACM
Albano Martins apoia a decisão do Instituto de rejeitar o plano da Yat Yuen, em nome do bem-estar dos galgos. “Os animais estão em muito mau estado, são miseráveis lá dentro. O IACM fez bem em ficar com eles. Os animais estão muito fraquinhos, vivem em condições miseráveis, as casotas estão sujas, as paredes nojentas, é deprimente. É preciso dar uma volta àquilo, mas por um ano não sei se o IACM vai investir. Se fosse a ANIMA pintava tudo de branco por dentro, pelo menos, mas nisso não vamos interferir com o IACM”, afirmou.
No entanto, a ANIMA chama atenção para o limbo que se vai viver esta semana, devido ao prazo de sete dias para reclamação. “Como a multa é pesada ainda pode aparecer alguém para ir buscar os animais, embora não se saiba para onde”, salientou, acrescentando desconhecer se o IACM irá exigir um plano ou informações sobre os destinos dos cães, como tem questionado até agora.
Nestes sete dias, não podem ser feitas adopções e Albano Martins prevê que apenas venham a acontecer ao final de um mês e “com cuidado”. “Podemos fazer as de Macau e de Hong Kong, começar a tratar disso, mas para fora temos de seleccionar os animais”, clarificou.
Serviços de Finanças receberam património
Álvaro Rodrigues assinou em nome da Yat Yuen a documentação final relativa à entrega dos equipamentos e das instalações, afectos à actividade de corridas de galgos.
Várias associações de protecção dos animais estão a ajudar o IACM a cuidar dos galgos
A Direcção dos Serviços de Finanças (DSF) e a Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) procederam com a empresa a um inventário, tendo recebido as construções, instalações e equipamentos como, por exemplo as máquinas de apostas, os monitores, os sistemas sonoros de apostas. Neste processo, não se verificou qualquer impedimento, disse a DSF.
Na derradeira tarde da concessão, Angela Leong ainda se deslocou ao Canídromo, onde era suposto decorrer uma conferência de imprensa que a própria administradora da empresa tinha anunciado de manhã. No entanto, pelas 16 horas, surgiu para cancelar o encontro, admitindo ter sido aconselhada pelos advogados por ainda haver assuntos a tratar.
Stanley Lei, director executivo da companhia, também saiu do espaço em velocidade cruzeiro, remetendo comentários para uma conferência de imprensa em data ainda por determinar.
ANIMA retirou dois galgos no último dia de concessão
Enquanto representantes da Yat Yuen e da Administração da RAEM realizavam na sexta-feira os trabalhos de vistoria e inventário nas instalações do Canídromo, a ANIMA conseguiu recolher dois galgos no canil. Zoe Tang, que gere o abrigo da associação, foi buscar os cães, em nome de adoptantes de Hong Kong. Ao telefone, Albano Martins explicou que a associação está a ajudar nos trabalhos logísticos e alojamento temporário da quarentena de 90 dias, após o que os animais seguirão para a RAEHK. No total, a ANIMA retirou 10 animais do Canídromo.



