O Centro de Serviços da Zona Norte da FAOM lançou, há quase dois anos, um serviço de apoio emocional dedicado aos homens em Macau. Com a designação “M-Power”, tem sido procurado por uma dezena de homens mensalmente, sendo que o número de solicitantes tem vindo a subir. O assistente social responsável pela promoção deste serviço revelou ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que os homens que procuraram apoio são principalmente de meia idade e têm sentido pressões acrescidas devido à falta de condições para se reformarem ou conflitos familiares causados pela pandemia
Rima Cui
Desde meados de 2020, o Centro de Serviços da Zona Norte da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM) lançou um serviço especial que só se dedica aos homens que vivem no território. Chamado “M-Power”, o serviço foca-se no apoio emocional para ajudar os solicitantes a aliviar a pressão, bem como nas diversas actividades que visam criar efeitos de relaxamento para os participantes.
O assistente social Lam Weng Fong é responsável por este serviço, identificando-se como “ouvinte” de quase todos os homens que se deslocaram ao centro ou procuraram ajuda através da conta do WeChat deste projecto. Desde o arranque há quase dois anos, mensalmente, cerca de uma dezena de homens, sempre residentes, recorrem a este serviço. Até agora, registaram-se centenas de utilizadores, na maioria de meia idade e “pilares da família”, revelou Lam Weng Fong ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.
Segundo o assistente social, os solicitantes de apoio apresentam problemas emocionais, principalmente relacionados com o trabalho e com a família. “Devido à pandemia, a população masculina de meia idade passou a sentir maiores dificuldades em ultrapassar uma fase de impasse no trabalho. Entre os homens que apoiámos, muitos estão na idade da reforma, mas as condições familiares sob a pandemia não lhes permitem reformar-se neste momento. Contudo, o trabalho pode não conseguir continuar a acolhê-los. Precisam de alguém para desabafar”, vincou.
Os conflitos familiares, mais evidentes com o prolongamento da Covid-19, também constituem outro motivo que levou muitos homens a procurar este serviço.
No primeiro trimestre deste ano, vários dos 28 casos de suicídios cometidos no território envolveram homens de meia idade. Para Lam Weng Fong, isto faz com que soe o alarme sobre a saúde mental dos homens. Segundo sublinhou, nos últimos meses, verificou-se um aumento de vários casos por mês do número de pedidos de ajuda ao serviço “M-Power”. Apesar disto, entre os solicitantes de apoio, raramente alguém demonstrou vontade de suicídio ou automutilação.
Para a próxima fase, o serviço vai integrar novos elementos para “acompanharem a actual conjuntura social”, mas esta actualização ainda está a ser estudada, disse o assistente.
Apesar disto, Lam Weng Fong observou que os homens de Macau continuam a assumir uma postura de que podem “resolver tudo sozinhos” e não precisam de ninguém os ajudar. “Na verdade, continuam a existir nesta sociedade poucos apoios dedicados especificamente aos homens. Mesmo que haja uma tendência de aumento, a população masculina ainda apresenta, em geral, uma vontade de procura de ajuda relativamente fraca por causa da questão da ‘face’. Por isso, pretendemos continuar a desenvolver este serviço para mais pessoas o conhecerem”, frisou.
Entre os utilizadores do “M-Power”, poucos são jovens com menos de 30 anos. Também foram poucos os residentes desempregados que pediram ajuda por este canal. Segundo o assistente, este serviço não atendeu nenhum trabalhador não residente (TNR), mas não fecha a porta a esse grupo da população. Embora os TNR também tenham vindo a enfrentar crescente stresse, “devem estar a ignorar os seus problemas emocionais porque não têm tempo para isto”, analisou.
Café e cuidados de saúde
Além disso, segundo Lam Weng Fong, a maioria dos solicitantes de apoio apenas usou o serviço por uma vez, porque “no fundo já estão habituados a estas emoções”. “Precisam muito de desabafar com alguém em certo momento, mas depois das conversas simples, têm de voltar logo a dedicar-se ao trabalho e à família, e não têm muito tempo para repetir os desabafos”, apontou.
Por outro lado, o serviço “M-Power” integra outra parte de apoio que envolve a realização de workshops com conteúdos diversificados. Lam Weng Fong revelou que, nos últimos dois anos, têm sido organizados um a dois workshops por mês ou um no espaço de um ou dois meses, com o intuito de trazer mais lazer e relaxamento para os utilizadores do serviço.
Já decorreram, por exemplo, workshops de confecção de café à mão, e de cuidados de saúde destinado aos homens com base na medicina tradicional chinesa. “Apesar dos utilizadores do serviço procurarem bastante estas actividades porque querem alguma diferença para a vida monótona, os workshops costumam acolher apenas uma dezena de participantes por forma a que os recursos sejam melhor usados”, reparou.
“Também estamos a ponderar criar alguns grupos para promover, por exemplo, uma ou duas sessões por mês, para juntar os homens e para eles discutirem sobre as dificuldades com que recentemente se deparam, para que os efeitos de desabafo sejam alargados e possamos encontrar formas de apoio que correspondam aos problemas mais actualizados”, indicou.



