Vários deputados aproveitaram o plenário da Assembleia Legislativa de ontem para chamar a atenção para a crescente pressão que enfrentam os cuidadores de saúde de grupos vulneráveis. Nas suas intervenções antes da ordem do dia, pediram uma expansão da rede de espaços e serviços de apoio, bem como uma identificação mais activa dos casos de alto risco, entre outras
PEDRO MILHEIRÃO
Lee Koi Ian instou o Governo a considerar a “criação de espaços para descanso” dos cuidadores de saúde no planeamento das instalações públicas comunitárias. Ontem, durante uma intervenção antes da ordem do dia, o deputado chamou a atenção para o facto de se verificar “uma procura cada vez maior por cuidados diários da população idosa e dos grupos de doentes vulneráveis”, o que tem agravado a pressão sobre a saúde física e psicológica do pessoal da linha da frente da assistência social.
Lembrando “alguns trágicos incidentes envolvendo cuidadores de idosos” que ocorreram recentemente em Macau, e outros episódios registados nas regiões vizinhas, Lee solicitou ainda às autoridades a criação de uma “rede de notificação automática e de rastreio dinâmico para os casos de alto risco”, baseada num mecanismo optimizado de partilha de dados entre os Serviços de Saúde e o Instituto de Acção Social.
“Os conselheiros e assistentes sociais da linha da frente suportam, ao longo do tempo, uma enorme pressão emocional e negatividade social”, observou o deputado ligado à comunidade de Jiangmen. “Através da interacção entre a avaliação médica e a automatização diária dos serviços externos à comunidade, os cuidadores devem intervir, o mais cedo possível, antes de enfrentarem um ponto crítico de emoção”, segundo Lee Koi Ian.
Por seu turno, Loi I Weng também apontou para o facto de que “muitos cuidadores têm de conciliar o trabalho e a família, e ir a pontos de serviço distantes”, o que “representa uma dificuldade adicional em termos de tempo e esforço físico”. Como resposta, a deputada acredita que o Governo deve “estender gradualmente a rede de serviços a outras zonas de Macau”, para que as famílias consigam obter “apoio adequado perto de casa”.
A também vice-presidente da Associação Geral das Mulheres pediu ainda ao Governo que planeasse terrenos para a construção de lares, no sentido de “aliviar definitivamente a pressão sobre os cuidadores”. Ao mesmo tempo, “para muitos cuidadores, a necessidade mais premente não é um serviço de longo prazo, antes, sim, um apoio por algumas horas em situações imprevistas, como problemas de saúde e tratamento de assuntos, ou um momento para estar sozinho devido ao excesso de pressão”, argumentou.
Nesta linha, para a deputada, “o Governo deve aumentar a flexibilidade e a cobertura dos serviços de alívio, da guarda temporária e do apoio domiciliário”, bem como “estudar a implementação de um serviço de alívio curto, para os cuidadores descansarem algumas horas ou meio dia, em caso de imprevistos ou exaustão física e emocional”.
Similarmente, Chan Lai Kei pediu uma expansão da rede de serviços de apoio, que deverá também passar de uma abordagem tradicional de “espera passiva” para um modelo de “intervenção activa porta-a-porta”.
Apontando para as mais de 10 mil famílias de dois idosos que existem actualmente em Macau, Chan observou que “os cuidadores de idade avançada assumem diariamente tarefas pesadas de assistência na vida quotidiana e cuidados de reabilitação, enfrentando elevadas cargas físicas e intensas pressões psicológicas”. Como agravante, “a maioria deles já apresenta problemas de declínio funcional corporal ou doenças crónicas, e a responsabilidade contínua e ininterrupta pelos cuidados impede-os de descansar ou de ter momentos de alívio”, acrescentou.
Ho Ion Sang também lamentou o facto de “a identificação do stresse” por parte dos cuidadores depender sobretudo “da procura activa de ajuda, o que pode facilmente levar à perda de oportunidades de intervenção precoce”, pelo que recomendou que a “avaliação rápida do stresse dos cuidadores” fosse integrada nos procedimentos gerais das unidades de saúde. Propôs também “a criação de uma licença remunerada para cuidadores a tempo inteiro”.
Tomando a iniciativa “Support for Carers Project” de Hong Kong como referência, Ho sugeriu ainda a formação de “guardiões de cuidados comunitários”, com competências para “para identificar idosos, pessoas com deficiência e cuidadores em situação de necessidade”.
Já Iau Teng Pio e Wong Chon Kit pediram a inclusão da avaliação da saúde mental numa ferramenta centralizada de auto-diagnóstico da Conta Única, cujas funcionalidades ainda “estão dispersas”. Isto permitiria o “envio proactivo de recomendações personalizadas para casos com risco potencial, tornando possível a detecção e intervenção precoces”, de acordo com os membros do Hemiciclo eleitos pelo sector profissional.



