O vento urbano deve ser um factor a ter em consideração no planeamento de edifícios residenciais de grande altura, para garantir a ventilação e a dissipação do calor no ambiente habitacional, alerta um estudo levado a cabo por investigadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau. Para os autores, que analisaram as áreas de oito arranha-céus da Areia Preta, é também necessário ter em atenção a ocorrência regular de tufões, que representam “sérios riscos para a segurança” desses edifícios
Susana Martinho*
O planeamento e os projectos de edifícios residenciais de grande altura “não devem apenas maximizar os altos benefícios económicos”, defende um estudo sobre o ambiente eólico e os efeitos morfológicos dos arranha-céus em Macau. A pesquisa foi publicada na revista internacional “Environmental Research and Public Health” e teve como foco as áreas residenciais de oito arranha-céus da Areia Preta, nomeadamente os complexos “La Marina”, “The Residencia”, “Villa de Mer”, “La Baie du Noble”, “Polytec Garden”, “Jardim Kong Fok Cheong”, “Jardim Kong Fok On” e “La Cite”.
Para Jialun He, Yile Chen, Liang Zheng e Jianyi Zheng da Faculdade de Letras da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, ao assegurar as funções dos edifícios e das cidades, “devemos ter em conta o ambiente de vento urbano de forma a garantir uma ventilação normal e a dissipação de calor no ambiente habitacional, bem como o conforto e a segurança das actividades ao ar livre”. Para o quarteto de académicos, no planeamento de edifícios de grande altura nas novas áreas de aterros, é também necessário ter em conta a ocorrência frequente de tufões.
De acordo com os investigadores, a orientação do edifício, a relação entre a altura e a largura da rua e a própria orientação da mesma, são alguns dos aspectos que têm um impacto significativo no ambiente de vento dos edifícios da Areia Preta.
Durante o processo de análise dos problemas de vento e dos factores de influência, que envolveu métodos de simulação computacional com o software “Phoenics”, os autores identificaram alguns métodos e estratégias de melhoria. O efeito de blindagem dos edifícios “pode ser reduzido ao aumentar apropriadamente a taxa de ventilação dos arranha-céus, como a taxa de sobrecarga, permeabilidade da fachada e localização do poço de ar”, apontam.
Os especialistas recomendam ainda que se evite a utilização de um “layout” em forma de ‘L’, quando o plano da placa for muito contínuo, e para o “layout” pontilhado sugerem uma disposição “escalonada”. O “layout geral” deve ser alvo de uma atenção redobrada no que toca “à reserva da passagem de ar para a direcção do vento de entrada”, a fim de atender às necessidades de ventilação de edifícios e de áreas urbanas que apresentem “layouts” diversificados.
“Um ângulo de 45 graus entre a rua e o vento predominante pode ajudar a manter um bom efeito de canal de ventilação urbana”, explicam. A velocidade máxima do vento ocorre nos beirais e cantos do edifício, e a velocidade máxima do vento perto do solo ocorre ente o norte e o sul dos dois edifícios, bem como na entrada da rua. A relação entre a altura e a largura da rua também deve ser controlada “rigorosamente”, mas de modo a não interferir no conforto das pessoas.
No que toca aos tufões de alta intensidade, para reduzir os danos às estruturas da fachada do edifício, os académicos recomendam a utilização de paredes baixas e deflectores de vento, por exemplo, que devem ser instalados nos telhados de edifícios altos. “Componentes como portas, janelas e cortinas no lado de barlavento do tufão devem ter maior capacidade de carga para reduzir o risco de penetração do tufão no lado oposto dos edifícios”.
Como explicam os autores, “actualmente, a intensidade do desenvolvimento urbano e o número de edifícios aumentaram, bloqueando significativamente a ventilação e exacerbando a poluição do ar e o efeito de ilha de calor em condições de baixa velocidade do vento”. Em consequência, os problemas do vento urbano têm-se revelado mais proeminentes, pelo que é “muito importante planear razoavelmente, melhorar o ambiente de vento e atender aos requisitos de segurança para as pessoas”.
“O ambiente externo de vento de um edifício tem um efeito substancial no conforto do pedestre, na ventilação natural em áreas residenciais e na eficiência energética”, lê-se no artigo. Tendo em conta as condições climáticas específicas e o espaço urbano de Macau, “é de grande importância explorar o ambiente do vento e as formas arquitectónicas urbanas em climas convencionais e extremos”, uma vez que os “complexos de edifícios geram mais calor e gases de exaustão e são vulneráveis a problemas ambientais relacionados com o vento”.
Problemas ambientais “cada vez mais evidentes”
A Península de Macau tem uma “elevada densidade populacional e um grande número de edifícios altos, que requerem um ambiente ventoso, com boa ventilação e dissipação de calor”, acentua o estudo. Devido ao rápido desenvolvimento dos últimos anos em Macau, que levou ao aumento gradual do número de residentes locais e estrangeiros, a procura por “espaço para viver” também disparou.
Nesse contexto, “os problemas ambientais causados pelo desenvolvimento de áreas residenciais de alta densidade estão a tornar-se cada vez mais evidentes”, o que leva os autores a defenderem a necessidade de estudar a conexão entre a forma espacial e o ambiente do vento.
A construção acelerada de conjuntos residenciais na área de recuperação da Areia Preta, motivada pelo forte crescimento populacional e “com ênfase no aumento da intensidade e do desenvolvimento”, melhorou os benefícios económicos. Por outro lado, “isso também gerou muitas questões ambientais que foram negligenciadas durante o processo de desenvolvimento”.
Segundo a investigação, os tufões no Verão representam “sérios riscos de segurança” para arranha-céus, uma vez que “o noroeste do Oceano Pacífico é o lar de 36% dos tufões do mundo”.
A equipa de investigadores explica que a frequência de tufões é alta e o vento forte todos os anos. Através do exemplo do tufão “Hato”, que assolou a cidade a 23 de Agosto de 2017, os autores do estudo ilustraram as consequências que uma tragédia ambiental pode provocar, explicando que os danos significativos causados em Macau, se devem à elevada densidade populacional e edificada, bem como à altura dos seus edifícios. “Macau é uma das cidades típicas com um clima muito extremo e uma das regiões mais densamente povoadas do mundo”, salientam.
Recorde-se que o tufão “Hato” foi o mais forte a atingir o território em 53 anos, causando 10 mortos, 240 feridos e prejuízos estimados em 12,55 mil milhões de patacas. Na zona da Areia Preta, uma das mais afectadas, o vento chegou mesmo a partir as janelas de muitos apartamentos.
No artigo, que foi financiado pela “National Science Foundation”, pode ler-se ainda que “a maior parte da pesquisa realizada até agora analisa o ambiente do vento em situações quotidianas”. Contudo, para os autores da investigação, “também é importante pensar em como o vento afecta os edifícios quando o tempo está mau”.
* Colaboradora



