Para Ng San Fan, coordenador do programa da Escola Superior de Educação Física e Desporto do Instituto Politécnico de Macau, a cidade precisa de mais eventos desportivos correspondentes às características do território, nomeadamente ligados à água. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, defende, por um lado, um abrandamento dos eventos de grande dimensão que “podem superar a nossa capacidade” e, por outro, confessa o desejo de ver o desporto tornar-se numa indústria, com o sector do jogo a atrair investimento. Ng San Fan considera ainda que os alunos formados pela Escola num ano são “suficientes para dar resposta à procura do mercado” durante 10 anos, apesar de muitos professores de educação física acabarem por optar pelas Forças de Segurança

 

Rima Cui

 

– Quais são os desportos mais adequados a Macau, tendo em conta a pequena dimensão do território?

– Desde sempre, Macau tem contactos fáceis com o exterior, por isso, penso que podem ser desenvolvidas muitas modalidades desportivas diferentes, formando mesmo um cenário em que ‘cem flores florescem simultaneamente’. Os desportos mais adequados são aqueles que estão relacionados com as condições geográficas de Macau. A forma de relevo da cidade não é muito complicada, possibilitando o desenvolvimento de quase todo o tipo de desporto, apesar da área reduzida. Macau tem uma zona costeira extensa, pelo que as actividades desportivas relacionadas com a água são relativamente fáceis de desenvolver. Não é adequado promover desportos de Inverno. Por outro lado, as actividades desportivas desenvolvidas em Macau devem corresponder mais à condição física dos asiáticos. Isso é essencial se quisermos obter bons resultados nas competições. A meu ver, para promover uma modalidade desportiva, não é necessariamente preciso que nos distingamos a nível mundial. Basta promovermos um desporto de destaque na Ásia.

– As instalações desportivas são suficientes? Que tipo de infra-estruturas pode ser acrescentado?

– De facto, sabemos que a área de Macau é muito pequena e a consequência disso é uma deficiência em termos do número de instalações desportivas. A longo prazo, é claro que precisamos de encontrar medidas para colmatar esse problema. Mas, a solução tem sido uma questão dificílima já que as condições geográficas não vão mudar. Por um lado, podemos aproveitar melhor os recursos existentes. Por outro lado, também podemos optar por desenvolver modalidades desportivas que requeiram menos espaço mas permitam a participação de mais pessoas.

– Um estudo da Associação Geral de Estudantes Chong Wa concluiu que a maioria dos estudantes pratica exercício físico menos de meia hora por dia. Como se pode incentivar os jovens a fazer exercício físico?

– Isso é uma questão muito difícil. O mais importante é existir uma consciência sobre as vantagens concretas do desporto. E a consciência dos jovens de Macau sobre esta matéria tem de aumentar. Muitos reconhecem a importância dos exercícios físicos mas não sabem quais sãos os benefícios concretas. Praticar exercício físico não é algo que possa ser obrigatório, tendo de ser por iniciativa própria. Por exemplo, os alunos dos ensinos primário e secundário são facilmente influenciados pelo ambiente circundante, como a escola e os pais. Por isso, as crianças apenas serão incentivadas se as escolas e os progenitores começarem a dar importância ao desporto.

– A primeira edição do Encontro de Mestres de Wushu custou 20 milhões de patacas, o que gerou críticas sobre o “desperdício” de verbas e a baixa assistência. Qual será o modelo que o Governo deve aplicar na realização de eventos desportivos de grande dimensão, para assegurar um equilíbrio entre os gastos e a eficiência?

– Quando realizamos as competições desportivas, temos de ponderar as condições efectivas do território. Por exemplo, não somos capazes de realizar eventos desportivos de dimensão muito grande. Temos exemplos de sucesso, como o Grande Prémio Mundial de Voleibol Feminino, e precisamos de desenvolver mais eventos desportivos adequados às nossas condições. A realização de competições desportivas pode aumentar a importância que os cidadãos atribuem ao desporto e, além disso, esses eventos também estão relacionados com os efeitos económicos. Se calhar, neste momento, um evento como o Encontro de Mestres de Wushu não está dentro das nossas capacidades. Poderíamos suspender os eventos desportivos de grande dimensão, que superem a nossa capacidade, e desenvolver alguns que destaquem características de Macau. No caso das competições de voleibol feminino, o seu sucesso deve-se a muitos factores. Muitas pessoas de Macau são profundamente influenciadas pela cultura do voleibol feminino da China, o que facilita muito este tipo de eventos em Macau. Os residentes têm afeição pelo voleibol.

– Como encara a possibilidade de Macau acolher em 2019 um jogo amigável entre as selecções de futebol da China e Portugal, no sentido de comemorar o 20º aniversário do estabelecimento da RAEM?

– Acho que se vier a acontecer, será um jogo especialmente significativo. Como residente de Macau, sei que muitas pessoas locais são fortemente influenciadas pelas selecções da China e de Portugal. O facto do jogo incluir as duas selecções mais importantes para os adeptos de Macau já seria uma razão suficiente para a sua realização. Para além das condições de mercado, do ângulo político e histórico, a transferência da soberania de Macau aconteceu entre os dois países, por isso, a escolha do ano de 2019 aumentará o significado deste jogo de amizade.

– Será possível combinar a meta da transformação de Macau num Centro Mundial de Turismo e Lazer com o desenvolvimento do desporto?

– Macau tem seguido por este caminho mas espero que as medidas sejam mais profissionais, para que o desporto se torne numa indústria. No entanto, é inevitável enfrentar o problema do mercado reduzido em Macau. O sector do jogo é o pilar da economia e faz despertar a atenção do mundo por Macau. Na minha perspectiva, uma das soluções passa por, através do sector do jogo, atrair investimento para a realização de actividades desportivas profissionais no território. A título de exemplo, a realização de torneios de boxe em Macau fez, de facto, com que muitas pessoas do mundo conhecessem a cidade, já que ainda é desconhecida para muitos estrangeiros. No início, esses eventos poderão não ter atraído muitos espectadores, mas com a passagem de várias edições, a situação tornou-se diferente. São eventos cada vez mais atractivos e que ganharam mais mercado.

– Como vê o facto de muitos treinadores e atletas do Continente chinês terem sido “naturalizados” na RAEM? Qual é o impacto que poderá ter em termos do desenvolvimento desportivo em Macau?

– A naturalização é uma questão controversa não apenas em Macau, mas em todo o mundo. É claro que, ao mesmo tempo, essa medida tem a vantagem de elevar o patamar do desporto de Macau e o defeito de representar mais concorrência e desafios para os atletas locais. O que precisamos de fazer é tentar combinar os dois lados da moeda, nomeadamente aproveitando esses atletas naturalizados para incentivar os locais no sentido de elevar a sua competitividade. Considero que a naturalização de atletas de Wushu já trouxe sucesso ao desenvolvimento dessa modalidade em Macau, tendo transformado um defeito numa vantagem.

– Qual é a sua opinião quanto à sugestão da criação de um instituto de desporto em Macau, para que os atletas locais tenham acesso a programas de bacharelato na área?

– É necessário desenvolver um estudo sobre a procura no mercado. Como profissional da área do desporto, apoio sem dúvida esta proposta mas é preciso avaliar e equilibrar o investimento necessário e o retorno possível.

 

– Como têm evoluído os níveis de inscrição, admissão e ocupação dos alunos locais, bem como o funcionamento em geral da Escola Superior de Educação Física e Desporto (ESEFD) do Instituto Politécnico de Macau nos últimos anos?

– As inscrições na nossa Escola têm-se mantido estáveis, tendendo ligeiramente para o aumento. Desde o ano passado, a taxa de graduados do ensino secundário de Macau começou a diminuir e a redução vai continuar nos próximos anos, o que terá algum impacto nas nossas inscrições, mas não vai ser muito grande. Nos últimos três anos, a ESEFD teve anualmente cerca de 300 inscritos em que a Escola foi a primeira opção. Admitimos no máximo 70 alunos, divididos em duas turmas, uma diurna e outra nocturna. Nos anos mais recentes, a nossa escola admitiu praticamente alunos locais. No que respeita às aulas, para além das instalações da escola, precisamos de alugar algumas, como por exemplo campos de atletismo e futebol e piscina. Anteriormente, tínhamos uma piscina mas as instalações avariaram e o plano para a sua reparação ficou suspenso. No quarto ano do curso, os alunos fazem estágio de professor de educação física nas escolas.

– Um graduado da Escola apontou para uma saturação do mercado para docentes de educação física, ao ponto de muitos licenciados terem acabado por seguir carreiras como polícias ou bombeiros. Quais são as opções de emprego dos licenciados e como poderá ser resolvido este problema?

– É verdade. Fizemos estatísticas e sabemos que os graduados da nossa escola integraram principalmente as Forças de Segurança de Macau e as escolas, enquanto professores de educação física. A taxa de acesso ao emprego dos alunos da ESEFD tem sido muito elevada, atingindo pelo menos 90%. Os que trabalham nas Forças de Segurança de Macau constituem a maioria. Muitos alunos da ESEFD têm forte vontade de serem docentes de educação física. Quanto ao problema da saturação do mercado, não é evidentemente uma questão sobre a qual apenas começamos a falar agora. Desde há muito tempo que várias pessoas têm abordado o problema. De facto, temos todos os anos alunos que conseguem obter empregos como professores de educação física. Exceptuando o jogo, o mercado é limitado para todos os sectores. É algo que acontece muito facilmente em todos os campos em Macau, não apenas na área do desporto. Em comparação com outras áreas, o mercado do desporto em Macau é ainda mais pequeno. No território, a única profissão directamente ligada ao sector do desporto é a de docente de educação física, situação diferente de alguns países desenvolvidos, onde o desporto nos bairros já está muito maduro. Quando uma área tem um mercado reduzido, os respectivos alunos também são normalmente poucos, por isso, entendo que o nível de concorrência não seja muito diferente.

– Poucos alunos da ESEFD querem ser atletas profissionais?

– Os atletas de Macau são principalmente amadores. O objectivo da ESEFD também não é formar atletas profissionais de alto nível. Como o mercado do desporto em Macau é muito reduzido, não nos podemos focar numa área específica, senão, os alunos iriam enfrentar ainda mais dificuldades quando tiverem de procurar emprego. Os alunos formados pela ESEFD numa edição já são suficientes para dar resposta à procura do mercado durante 10 anos. Formamos quadros com capacidades integradas.

– Como reage às queixas sobre a alegada falta de qualidade da equipa de docentes da ESEFD? Quais são os padrões e exigências para o recrutamento de professores da Escola?

– O recrutamento da ESEFD corresponde às exigências padronizadas do Instituto Politécnico de Macau, que também satisfazem as estipulações da Lei do Ensino Superior. Não existe uma situação de exigências mais baixas para professores da ESEFD do que as para outras escolas. Os padrões são de nível elevado. Temos uma equipa de docentes de desporto cada vez mais forte. Um programa tem mais de 10 professores, cuja maioria possui doutoramento. A licenciatura da escola já foi reconhecida mundialmente no ano passado por uma entidade de certificação profissional do exterior. Temos tido uma equipa de docentes estável, mas no ano passado alguns professores começaram a reformar-se. Sobre a possibilidade de recrutar mais professores, depende de alguns factores, incluindo condições para o programa se estender ou não. Além disso, como já nos preparámos para abrir o curso de Mestrado em Sociologia do Desporto, vamos acompanhar o desenvolvimento do curso para decidirmos se haverá necessidade de aumentar o pessoal docente.