A identidade dos arquitectos portugueses em Macau caminha em dois sentidos: serem simultaneamente resistentes na defesa ética do conhecimento disciplinar da arquitectura e activos na intermediação mais justa e consequente nos desafios que enfrentam. A conclusão é da autora de uma dissertação de mestrado, que ouviu alguns arquitectos locais
Catarina Almeida
Perceber “se os arquitectos portugueses salvaguardam uma cultura e linhas de aprendizagem de raiz ocidental e estimulam uma vontade que extrapole os interesses capitalistas, privilegiando o valor social e colectivo” em Macau foi o objectivo a que se propôs Stephanie de Jesus Rodrigues Torres, aluna da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Coimbra. No âmbito da sua dissertação de Mestrado, descreve, recorrendo a relatos de arquitectos portugueses no território, a forma como a prática de projectos tem sido influenciada pelas “acentuadas transformações na cidade, e de que forma se adaptaram e afirmaram no seu papel”. “Hoje, a cidade com maior densidade populacional do mundo prioriza um sistema altamente capitalista, onde a valorização da arquitectura é constantemente colocada em causa”, observa no documento consultado pela TRIBUNA DE MACAU.
Desde o início dos anos 1960, “a acção de arquitectos portugueses adquiriu um papel fundamental na construção da cidade”, porém, com a transferência de soberania os arquitectos do Continente chinês “começaram a ganhar notoriedade em Macau e, por consequência, a produção dos ateliers já́ estabilizados no território reduziu substancialmente”, explica Stephanie Torres, frisando que a “maior viragem no exercício profissional do arquitecto” ocorreu com a liberalização da indústria do jogo.
Citado no documento, Rui Leão refere que, depois de 1999, perdeu-se alguma identificação. “Achava que nos éramos arquitectos portugueses que tínhamos ficado em Macau, mas hoje em dia não sinto essa identificação. Nós, arquitectos portugueses não somos uma entidade em Macau. Eventualmente, os nossos colegas chineses podem olhar para nos e verem-nos como tal”.
Segundo a autora da tese, “na actual conjuntura, a grande maioria dos arquitectos portugueses, reflectem no seu percurso construído uma ruptura na diversidade e quantidade de encomenda”. “Não obstante, continuam a desenvolver uma influência proactiva na cidade, canalizando, paralelamente à prática arquitectónica, esforços no sentido de valorizar o legado patrimonial, através de áreas complementares como o ensino, o desenho ou organizações culturais”, vinca.
Já para Francisco Vizeu Pinheiro, o “maior perigo que existe agora em Macau”, no âmbito da preservação do património cultural, é o facto da concepção e decisões políticas regerem-se pela “ideia da carta de Atenas”: “Quando não se sabe faz-se novo ou pelo uso adaptativo do edifício, mas na realidade, depois pratica-se o ‘fachadismo’, mantém-se apenas a fachada e destrói-se a memória”, referiu o arquitecto que chegou ao território no início dos anos 90.
Papel social em segundo plano
“Quando se iniciou o processo de construção dos casinos, a cidade reflectia história, tradições, vida comunitária, uma cultura acumulada ao longo dos séculos. Numa cidade que se projecta cada vez mais para o mundo, a relação arquitectura-cidade deveria ser entendida como motor de dinamização”, aponta Stephanie Torres, acrescentando que “as opções tomadas face a esta condição revelam a incapacidade de priorizar a qualidade do quotidiano urbano em prol dos investimentos estrangeiros”. Nesse contexto, entende que “o papel social da arquitectura” passou para “segundo plano” e “o cenário arquitectónico de Macau é ofuscado por estruturas de grande escala vinculadas aos casinos”.
Como resultado, “os modelos americanos, estrategicamente posicionados para atrair o maior número de turistas, não respeitaram a escala intimista do tecido urbano consolidado e alteraram por completo a paisagem da cidade”.
Coloca-se também a ausência de planeamento da urbe, algo que Miguel Campina associa à “inegável falta de visão do poder político”. “A falta de capacidade de promover, propor e organizar para o futuro. Tinham pouco antes da transição, depois da transição ganharam um pouco mais, mas há uma grande dificuldade em estabelecer metas, porque essas metas […] condicionam as decisões do presente”, critica o arquitecto.
“A escolha foi não fazer um Plano Director, mas sim planos de ordenamento parciais, quer para áreas existentes, quer para áreas de expansão. Sem dúvida foram exercícios particularmente relevantes, na medida em que o esforço no pensamento sobre temas como a preservação de certas zonas históricas e o modo de expandir a área passível de ser construída foi feito de modo bastante cuidadoso, com grande empenho das equipas e com fortes convicções profissionais”, refere ainda Miguel Campina.
De um modo geral, sustenta Stephanie Torres, “considerando o percurso dos arquitectos nos diferentes contextos de uma Macau em constante transformação, podemos afirmar, sem hesitação, que com a evolução da cidade no sentido da transição da soberania, a prática arquitectónica tem sido cada vez mais desafiada”. “O papel do arquitecto é questionado diariamente pela pressão económica e pelas exigências governamentais”.
Na mesma linha, Miguel Campina adverte que, após a transferência de soberania, a situação dos arquitectos tornou-se “bastante difícil”. “O próprio reconhecimento das habilitações sofreu uma alteração profundíssima. Criaram um comité específico para lidar com essas matérias, que é nomeado directamente pelo Governo, escolhem uns personagens em função das suas preferências políticas e daquilo que é o seu perfil profissional (teoricamente)”. Ou seja, “vive-se hoje uma instabilidade na profissão, vive-se hoje uma dificuldade nunca conhecida anteriormente, pelo menos nos 33 anos em que lá estou. Não há diálogo, não há nada”.
Rui Leão nota por sua vez que, durante o período até 99, Macau era um sítio “muito humano e a seguir à passagem de soberania deixou de o ser”. “Agora sinto que nós estamos a chegar a uma altura, porque já há uma certa organização, e porque já se fez algum percurso, que vai voltar a haver um lugar para a arquitectura, mais do que haver um lugar para os arquitectos”.
Para a autora da tese, os arquitectos “vêem-se afectados pela predominância das multinacionais que consomem o mercado dos casinos”, assim como pelos ateliers do Continente chinês que “pela sua indiferença e distanciamento” face ao território “são opção preferencial”. “O que eu vejo nestes projectos dos casinos, que as pessoas acham muito fascinantes, e eu hoje em dia estou em total regime de overdose, já me é tudo indiferente porque é tudo uma grande aldrabice, é tudo um grande vazio, uma grande inutilidade. No fundo, ninguém se apercebe que esta desautorização do legado do arquitecto é o que leva ao desmantelamento da construção da cidade”, lamenta Rui Leão.
Segundo a autora da tese, “quando Macau deixa de ser um lugar tão estimulante ao exercício da arquitectura e a marginalização do construído se torna prática comum, independentemente da alteração política, económica e social em Macau no pós-handover, a identidade dos profissionais em Macau caminha no mesmo sentido: serem simultaneamente ‘arquitectos resistentes’ na defesa ética do conhecimento disciplinar da arquitectura e ‘arquitectos activos’ na intermediação mais justa e consequente nos desafios que enfrentam”.



