O Clube Desportivo Monte Carlo, um dos históricos do futebol local, vai deixar de participar na Liga de Elite, já não se inscrevendo para o campeonato deste ano. Firmino Mendonça, presidente do clube, confirmou a decisão ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, justificando a desistência com a falta de patrocínios e a aposta futura noutros projectos. A colectividade completa 41 anos em 2025 e tem um palmarés de cinco títulos na I Divisão. Tam Iao San, figura emblemática dos “azuis e amarelos” e último treinador do plantel, lamenta o pouco apoio que é dado, a nível interno, ao futebol

 

VÍTOR REBELO

 

Os sinais de que o futebol a nível sénior no Clube Desportivo Monte Carlo teria os “dias contados”, haviam sido dados há meses quando os seus dirigentes decidiram não participar no campeonato de Bolinha, não defendendo o título alcançado na época anterior. Agora, a poucas semanas do início das inscrições das equipas para a Liga de Elite de 2025, o presidente da histórica colectividade confirmou ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que o Monte Carlo abandona a actividade no escalão sénior, podendo também deixar de jogar, na próxima temporada, nas provas de escalões inferiores.

Não há recursos, ou seja, não há patrocínios para o Monte Carlo continuar a participar e por isso decidimos abandonar o futebol a nível de equipa sénior”, disse Firmino Mendonça, o grande responsável pela formação do clube, em 1984.

2025 marca o 41º aniversário dos “azuis e amarelos” e a partir daqui o clube apenas permanecerá nos campeonatos jovens de Macau, que estão a decorrer. “Para a próxima época provavelmente também os escalões inferiores deixarão de contar com o nome do nosso clube, no entanto, essa é uma decisão que tomaremos mais tarde”, salienta Firmino Mendonça.

O Monte Carlo perdeu há uns meses o seu principal patrocinador e isso arrastou o clube para a necessidade de repensar se valeria a pena continuar a investir. “Para já vamos abandonar a Liga de Elite, mas, quem sabe, no futuro, poderemos voltar se houver um patrocinador forte”, sustenta o dirigente.

Com esta decisão de não se inscrever no campeonato da I Divisão de Macau, o Monte Carlo, se quiser voltar, terá de começar do zero, ou seja, jogar na IV Divisão, o que não parece poder acontecer nos próximos anos.

“Por enquanto, é um ponto final no futebol sénior e, relativamente ao clube, vou repensar estratégias, uma vez que podem surgir outros objectivos”, expressa Firmino Mendonça, que não desvendou que objectivos serão esses e se estarão ou não directamente ligados ao futebol fora da RAEM.

Recorde-se que o Monte Carlo foi campeão da liga principal de Macau em cinco ocasiões (2002, 2003, 2004, 2008 e 2013), tendo terminado no penúltimo lugar na época de 2024, apenas à frente de Sporting e Kai. Há várias temporadas que a equipa vinha apostando maioritariamente em jogadores jovens, muitos dos quais formados no próprio clube.

 

Falta apoio à modalidade por parte das entidades

O treinador do plantel da época passada foi Tam Iao San, um dos mais destacados elementos da chamada “família Monte Carlo”, numa relação de mais de 30 anos e com grande proximidade ao presidente. Dirigiu a equipa em várias ocasiões, com títulos alcançados, para além de ter sido também jogador dos “azuis e amarelos”.

Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, o técnico lamenta o abandono do Monte Carlo da Liga de Elite e relembra a história e o trajecto da colectividade. “Um clube tradicional que sempre apostou na divulgação do futebol, oferecendo muitas plataformas para o desenvolvimento e lançamento de jovens valores, para além de ter sido o primeiro a criar uma equipa de futebol feminino, há muitos anos”, destacou.

Esta desistência do Monte Carlo leva Tam Iao San a reflectir sobre os apoios que são dados aos clubes para que estes possam sobreviver e cumprir a sua missão no futebol local. “Temos todos de pensar por que razão vários clubes abandonaram o futebol”, frisa. “O futebol tem zero apoios das entidades competentes, concretamente da Associação e do Governo, tendo de sobreviver por si só, com dificuldades financeiras, porque, mesmo com muitos voluntários, incluindo o corpo técnico, os custos são elevados”.

Relembrando que Macau ambiciona ostentar o estatuto de “cidade internacional do desporto”, com muitos eventos ao longo do ano, o técnico lamenta que, a nível interno, as modalidades e concretamente o futebol, não tenham o apoio que deveriam ter “para o seu crescimento e melhoria de qualidade”, apontando também à falta de interesse das concessionárias do jogo em desenvolver o futebol.

Quando clubes como o Monte Carlo, mas também anteriormente Grupo Desportivo da Polícia, Lam Pak, Hap Kuan, Wá Seng, Negro Rubro, entre outros, decidem desistir, “temos todos de pensar nas razões que levam a que isso aconteça”, declara Tam Iao San, treinador que vai assumir o comando do Chiba, recém-promovido ao escalão principal, juntamente com o campeão da II Divisão, o Shao Jiang, na Liga de Elite que deverá arrancar provavelmente depois do Ano Novo Chinês.

 

Pandemia tirou poder financeiro

O Jornal TRIBUNA DE MACAU ouviu também outras figuras ligadas à história do Monte Carlo. Geofredo Sousa, adjunto de Tam Iao San, representou o clube como jogador durante muitos anos. “Foram cerca de 23 anos e é triste ver o Monte Carlo desistir da Liga, mas temos de aceitar a realidade, face às dificuldades em manter o clube”, reconhece o defesa-central, várias vezes internacional pela selecção.

Paulo Cheang teve igualmente uma longa ligação ao Monte Carlo, como jogador e treinador. “Quando soube que o clube não iria participar na Liga de Elite fiquei muito desiludido, porque joguei neste clube durante muito tempo e testemunhei os seus altos e baixos”, assinala. No entanto, com o impacto da pandemia, “o poder financeiro do clube também foi muito afectado, porque os patrocinadores não se encontravam dispostos a manter o apoio, embora muitas pessoas fossem ajudando a ultrapassar as dificuldades nos últimos anos”, indicou Paulo Cheang.

William Gomes, melhor marcador da Liga de 2024, com 22 golos, representou o Monte Carlo em 2010. “Recordo que foi o primeiro clube em Macau que me abriu as portas e me acolheu da melhor forma, por isso, estou muito grato”, começou por referir o avançado brasileiro.

“É muito triste acontecer a desistência, ainda mais porque se trata de um clube formador, mas desde a covid, principalmente, que os clubes têm menos poder financeiro e perderam motivação para investir na I Divisão”, salienta, acrescentando que actualmente os clubes estão mais apostados nas escolinhas de futebol.

Niki Torrão, do MUST CPK, capitão da selecção durante vários anos, recebeu a notícia com “enorme tristeza”, considerando que o Monte Carlo é um clube histórico e sempre foi dos mais conceituados de Macau. “Infelizmente, o futebol amador e o não desenvolvimento das ligas no território, leva a que os clubes tenham cada vez mais dificuldades em operar no escalão sénior”, disse.

Situações como esta, diz o avançado, “são as que esperamos que chamem a atenção das entidades que regulam a modalidade e que olhem e discutam o que podem fazer para as prevenir, fazendo com que o futebol sénior se torne sustentável”.

Niki Torrão espera ver o Monte Carlo de regresso um dia, “pois faz parte do futebol de Macau”.