Mesmo sem ter sido um elemento de destaque ao longo da história do território, a presença do azulejo tradicional português na arquitectura de Macau tem desvanecido, de acordo com alguns arquitectos ouvidos por este jornal. Não obstante os esforços envidados pela Casa de Portugal em Macau, a principal dificuldade em manter essa arte viva na RAEM prende-se sobretudo com o facto de ser mais complicado importar mestres e especialistas, desde a pandemia. Por outro lado, os entrevistados sublinharam a importância de valorizar, promover e, inclusive, reinterpretar a azulejaria local, cujo potencial ainda está por explorar

PEDRO MILHEIRÃO

O azulejo, um símbolo arquitectónico tradicional português, tem vindo a desaparecer das construções do território, de acordo com alguns arquitectos entrevistados por este jornal, que, contudo, também reconheceram que este elemento não teve uma presença de grande expressividade ao longo da história de Macau, em termos quantitativos. Ao mesmo tempo, a própria divulgação bem como a promoção do artesanato e das técnicas tradicionais têm sido mais difíceis, revelou Amélia António, presidente da Casa de Portugal em Macau, tendo ressalvado que ainda subsiste interesse na azulejaria por parte de públicos asiáticos.

“A utilização de azulejos na arquitectura em Macau nunca foi muito expressiva em termos quantitativos, mas relevante sob o ponto de vista da afirmação da singularidade e identidade dos edifícios em que se inserem”, afirmou Francisco Ricarte ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, dando os exemplos da Escola Portuguesa de Macau e do edifício do Leal Senado ou dos painéis temáticos existentes junto à Sé. Ainda assim, o arquitecto notou que o recurso à azulejaria “tem vindo a desaparecer da prática arquitectónica contemporânea em Macau”.

“O azulejo é mais caro e de maior delicadeza de instalação, durabilidade ou manutenção que outros materiais de revestimento do género, designadamente os mosaicos cerâmicos de desenho contemporâneo, como os que foram recentemente aplicados na reabilitação do edifício que se destinará ao Tribunal de Última Instância”, observou Ricarte.

Similarmente, Nuno Soares também reconheceu que “o azulejo em Macau nunca foi um material de construção primordial”. “Não tem a mesma representação e representatividade em Macau que tem em Portugal”, constatou. Por outro lado, disse que “continua a existir e a ser aplicado”, mesmo não tendo “tanta predominância como tem em Portugal”.

Por sua vez, Carlos Marreiros também lamentou o facto de a utilização de azulejos ter decaído com o tempo. “Não se consta que tenha havido utilização do azulejo na arquitectura corrente em Macau”, observou. “O azulejo, pelo menos até à minha juventude, há 50 anos, permanecia ainda na chamada construção militar”, disse mencionando a Fortaleza do Monte. “Os acessos aos bastiões e as escadas eram de granito, com as paredes forradas de azulejo antigo”, contou.

A própria divulgação e promoção do azulejo e das técnicas tradicionais, no âmbito das quais a Casa de Portugal em Macau “tem assumido um papel decisivo” na óptica de Francisco Ricarte, tornaram-se mais complicadas nos últimos anos.

Segundo Amélia António, presidente da Casa de Portugal, a instituição tem enfrentado vários desafios, sobretudo desde a pandemia. “Houve muita gente que se foi embora e não quis voltar. Temos tido alguma dificuldade em trazer [pessoas], devido à alteração da lei”, partilhou, referindo-se ao regime de atribuição do Bilhete de Identidade de Residente. “Das pessoas que tínhamos mais qualificadas em azulejo, não está cá ninguém. Não está cá uma única pessoa”, lamentou a responsável.

Para a líder da Casa de Portugal, o surgimento de azulejos falsos tem também motivado a instituição a perseguir os trabalhos de promoção e divulgação. “Temos tido uma acção muito permanente de demonstração do processo, que é uma maneira de contrariar a aldrabice”, apontou.

“O azulejo em bruto, antes de ser vidrado, é mergulhado na calda do vidro, seca e depois é passado o desenho com uma técnica especial. Depois é pintado e vai a cozer. Tem uma série de etapas e por isso é que dura centenas de anos”, descreveu sucintamente Amélia António. “Aquela aldrabice não dura nada”, disse, aludindo à polémica das placas toponímicas da cidade. “Com um bocadinho de chuva e de sol, percebeu-se o que era. Tinham impresso a mesma coisa em papel e colaram”, criticou a responsável.

“Hoje, como o azulejo está na moda, divulga-se mal. Faz-se negócio à base do azulejo, mas não mostrando às pessoas qual é de facto o processo real. Isso é uma das razões pelas quais consideramos tão importante mostrar o processo sério da azulejaria”, disse Amélia António.

Ultimamente, a Casa de Portugal tem realizado iniciativas de forma pontual, “aos bocadinhos” como referiu Amélia António. “Fazemos uns cursos de iniciação. A Yoko [Kutsuwada] aprendeu com um dos primeiros grandes mestres que tivemos. Agora já consegue dar algumas aulas e faz alguns workshops de introdução. Outra colaboradora tem feito workshops de divulgação”. Recentemente, um grupo da Associação Geral das Mulheres de Macau visitou as oficinas da Casa de Portugal e participaram em workshops introdutórios, exemplificou Amélia António.

“O azulejo é uma coisa pela qual as pessoas se interessam muito”, garantiu a responsável. Maioritariamente, os grupos que procuram conhecer as técnicas tradicionais são escolas e universidades, oriundas sobretudo da China Continental e de Hong Kong. “Antes da pandemia, vinham muitos do Japão”, anotou. “Há empresas que organizam essas viagens e que nos contactam para fazermos essas acções de divulgação”. “Temos de ser bastante flexíveis para aproveitarmos todas as oportunidades que surgem”, admitiu.

“É uma das minhas grandes preocupações”, confessou a dirigente da associação. “É importante porque a azulejaria começou a ser utilizada na arquitectura em Macau há centenas de anos”, rematou.

 

Influências seculares

“No século XVI, quando os portugueses chegaram à China, a Macau, ficaram muito impressionados com a porcelana ‘Qinghua’, a porcelana azul e branca”, que veio influenciar o azulejo português, que era muito mais colorido”, segundo Carlos Marreiros. “Utilizava várias cores, desde o preto, magenta, amarelo, o verde, para além do azul-cobalto”. A partir do contacto com a China, “os portugueses começaram a fazer azulejo sem aquelas cores todas. Só com o azul-cobalto”, contou Marreiros.

Já a azulejaria de Macau foi desenvolvida “por trocas e influências mútuas entre Portugal e a China”, de acordo com Nuno Soares. “Os azulejos tradicionalmente eram utilizados na arquitectura de Macau como complementos para elementos decorativos”.

“Não temos aquilo que chamamos de azulejos tradicionais de Macau nem temos fábricas de azulejos”. “A utilização do azulejo em Macau bebe a tradição portuguesa, em elementos que são circunscritos, normalmente mais a painéis”. “A arquitectura histórica de Macau não tinha essa utilização de azulejos que se utiliza agora nos edifícios neoclássicos e que tentam mostrar essa relação com Portugal. É importante distinguirmos um símbolo de uma tradição construtiva”, sublinhou Nuno Soares.

Para Ricarte, os azulejos de Macau “caracterizam-se sobretudo pela sua ligação técnica e estética com a azulejaria tradicional portuguesa”, na sua utilização em painéis singulares de temática específica histórica e religiosa”, embora “sem presença relevante de qualquer estética ou imagética chinesa”.

 

Reinterpretar a tradição

Neste contexto, Francisco Ricarte afirmou que reinterpretar o azulejo português na arquitectura contemporânea de Macau “seria um desafio muito estimulante” para os artistas e arquitectos locais. “O azulejo como material cerâmico em si, quase ‘anónimo’, ou sem padrão, tem um campo vasto de utilização na arquitectura contemporânea e de caracterização dos edifícios, para além do seu papel ambiental e de protecção das fachadas”, frisou.

“Por outro lado, movimentos de utilização da azulejaria temática e da cerâmica contemporânea em painéis singulares, verificados em Portugal na segunda metade do século XX e desenvolvidos por artistas plásticos como Querubim Lapa ou Eduardo Nery, não tiveram, que eu saiba, quaisquer manifestações em Macau. Aqui também poderá haver um campo a explorar pelos arquitectos de Macau”, sugeriu Ricarte.

Apesar de não possuir a mesma expressividade e relevância que tem em Portugal, Nuno Soares considera ser “muito importante” continuar a valorizar e utilizar o azulejo. “Como arquitecto, o que me fascina mais, além das suas capacidades, é que é um elemento modular” que permitiu sempre à arquitectura “incorporar as outras artes”, defendeu.

“Quando posso colaborar com artistas gráficos, que usam o azulejo como uma tela, acho que é aí que o azulejo atinge o potencial que ele tem. Porque ele não é só um elemento funcional, é um elemento com grande capacidade de ser uma tela artística”, argumentou Nuno Soares. “Ainda somos relativamente conservadores na utilização do azulejo em Macau”, reconheceu.