Depois de três meses de várias experiências, o clássico pão-de-ló, doce conventual de grandes tradições em Portugal, passou a ser vendido em Macau, no “Cuppacoffee”. O ponto de partida foi a receita de Alfeizerão, mas um dos proprietários, João Encarnação, diz que tem a diferença de ser fabricado na RAEM. Ao lado da sócia Nicole Massa Helm, o advogado de profissão apostou também agora na restauração e considera que “Macau continua a ser um sítio onde os portugueses têm espaço”. O bolo foi lançado em pleno 10 de Junho, Dia de Portugal
Vítor Rebelo
Pães-de-ló há muitos, mas os proprietários do “Cuppacoffee” querem que o de Macau seja especial e chegue a todas as comunidades. Acabam de lançar este bolo muito apreciado em Portugal e um dos proprietários da pastelaria e mentor da ideia, “porque sempre quis trazer para Macau esta receita de Alfeizerão”, espera que “seja um sucesso e as pessoas gostem” de mais este produto.
João Encarnação e Nicole Massa Helm, sócia neste projecto do “Cuppacoffee” e da “Nata Bakery” e que há muito se encontra embrenhada na restauração, decidiram dar outro fôlego ao negócio com a introdução do famoso pão-de-ló lusitano.
“A ideia surgiu basicamente porque eu gosto de comer e gosto imenso de pão-de-ló”, começou por dizer João Encarnação ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, acrescentando: “Há anos que estou em Macau e embora tivesse comido alguns bons pães-de-ló, nunca consegui encontrar um sítio onde se fizesse um bolo destes com regularidade, com qualidade e com aquele gosto de que nós gostamos em Portugal”.
Amante dos roteiros gastronómicos quando em férias em Portugal, “percorrendo locais desde o Douro ao Algarve a comer coisinhas boas do nosso país”, o advogado de profissão teve uma conversa com a sócia e ambos decidiram apostar no fabrico caseiro do pão-de-ló. “Ela ficou um pouco surpresa e em dúvida, mas depois de lhe entregar a receita de família que tinha em mão, que a minha mãe me facultou e que é idêntica à do pão-de-ló de Alfeizerão que se vende em Rio Maior, decidimos então avançar”.
Depois de praticamente três meses de experiências na cozinha, sob orientação de Nicole Helm, “com altos e baixos, avanços e recuos”, surgiu finalmente o produto final. Ao longo do processo de todas as experiências feitas para o fabrico deste pão-de-ló, João Encarnação confessa que tece “algumas frustrações”. “Não estava a sair como eu queria, mas após várias alterações consegui dizer: é isto mesmo”. Estava pronto para ser lançado. E aconteceu mesmo, numa cerimónia oficial e especial realizada na tarde do 10 de Junho, Dia de Portugal.
Sobre a possibilidade de sucesso de vendas ou não, João Encarnação reconhece que “todos nós sabemos como é Macau, pomos qualquer coisa nova no mercado, as pessoas provam, gostam, compram, mas não evolui e por isso achei que este era um produto que podia agradar a muita gente”, acentuou, esperando que seja do agrado de todas as comunidades e que possam “ter este pão-de-ló como um dos produtos essenciais do Cuppacoffee”.
Não deixar fechar espaços da gastronomia portuguesa
Este doce conventual, sem consenso no que diz respeito à sua origem, já que uns dizem que nasceu em Portugal, outros afirmam que foi em Itália e há ainda os que consideram ter sido o Japão o pioneiro, tem receita original. “Tentámos manter essa receita de origem e as poucas adaptações que fizemos foi só no sentido de chegar ao visual e ao sabor de que eu tenho memória quando era pequeno e comia em Portugal”.
João Encarnação salienta que “não houve esforço especial para que o pão de ló tivesse um gosto mais tradicional asiático”. “Não, a ideia é que isto seja um pão-de-ló português feito em Macau”. Alguns chineses já provaram e gostaram. “Os gostos também se educam, as pessoas quando não conhecem um produto e isso acontece connosco com os produtos chineses, muitas vezes têm dúvidas e quando provam começam a gostar e não querem outra coisa”, refere um dos donos da pastelaria.
Num documento de divulgação dos responsáveis do café especializado em pastelaria artesanal portuguesa, pode ler-se que “cortado no coração do bolo, um vulto de recheios de nata vai lentamente escorrendo para envolver o fundo do doce, deixando o pão de ló macio e arejado por fora, abafado pelo recheio aveludado em cada mordida”.
Perguntámos a João Encarnação qual a razão de um advogado de profissão se lançar num projecto deste género e a resposta foi pronta:
“A minha intenção inicial era a carolice. Sabia que isto ia ser um desafio. Estávamos no auge da pandemia e por isso o café e a pastelaria encontravam-se em dificuldades, daí que quiséssemos pegar nisto, não deixar fechar e não reduzir o ambiente cultural e gastronómico de Macau para os portugueses”, acentua João Encarnação.
O novo empresário do “Cuppacoffee” e da “Nata Bakery”, empresas fundadas em 2006, afirma que “é essencial uma comunidade ter à sua volta um ecossistema que permita a sua manutenção”. E como diz continuar “muito investido em Macau” é de opinião de que o território “é um sítio onde os portugueses ainda têm espaço e são estimados”, portanto era uma pena ver fechar tantos negócios por causa da pandemia. “Eu a Nicole vimos que isto teria um bom potencial em termos de negócio e aqui estamos”, concluiu João Encarnação.



