O trabalho desenvolvido pelo Instituto Politécnico de Macau e pela RAEM foi ontem elogiado por Isabel Pires de Lima, ex-ministra da Cultura de Portugal, por considerar que tem contribuído para a expansão da Língua Portuguesa, em especial na sua vertente europeia. A académica considera que o ensino da língua deve agora reintroduzir o texto literário, por colocar os alunos em “contacto com o universo cultural da outra língua”
Salomé Fernandes
O Instituto Politécnico de Macau (IPM) “tem tendido a valorizar a relação com o português europeu, e portanto acho que Portugal só pode estar extremamente agradecido ao IPM e à RAEM por essa aposta”. As palavras são da académica Isabel Pires de Lima. No seguimento da sua intervenção na conferência “Diálogos Contemporâneos”, organizada pelo IPM, a ex-ministra da Cultura de Portugal valorizou o papel de Macau no desenvolvimento da língua.
Isabel Pires de Lima frisou que é “absolutamente extraordinário” o que se atingiu no seguimento da criação do Fórum Macau em 2003, momento em que considera que o Governo Chinês estabeleceu como um desígnio transformar Macau numa plataforma de desenvolvimento da Língua Portuguesa. “Apostaram no Português como língua importante para os negócios, para as relações internacionais designadamente com a União Europeia, e a verdade é que é extraordinário o que está a ser feito em Macau. É um grande serviço que a RAEM presta à difusão da Língua Portuguesa”, declarou.
A internacionalização da Língua Portuguesa, que a académica considera um “desiderato patriótico”, depende, porém, da capacidade de transportar cultura. “A internacionalização de uma língua, se não transportar cultura, não tem a mesma valorização económica. (…) Há uma espécie de diplomacia económica que leva a cultura debaixo do braço”, comentou.
Dando como o exemplo o poder económico associado a línguas com grande expansão no mundo, como o inglês e o árabe, Isabel Pires de Lima indicou que também a Língua Portuguesa tem um potencial futuro de grande dimensão. “Basta pensar que ocupa espaços geográficos que estão em expansão demográfica: Angola, Moçambique, Brasil, sobretudo”, notou, acrescentando que “uma língua só se pode tornar poderosa na medida em que transporta economia e cultura, a expansão da Língua Portuguesa vai ter uma grande relação com o desenvolvimento das economias desses países e da sua capacidade de exportarem as suas culturas”.
Considerou, porém, que Portugal ocupa uma posição privilegiada nesse contexto e ao nível das relações internacionais dado estar na União Europeia e ser o único país de língua portuguesa na Europa.
O papel da literatura no ensino das línguas
Uma das formas de passar a cultura através da língua, e que Isabel Pires de Lima considera ter perdido espaço nos últimos anos, é do recurso a textos literários no ensino do Português como língua estrangeira. Culpa parcial do “avanço da linguística que tendeu a valorizar mais a formação de carácter mais funcionalista das línguas na medida em que as encara todas as realizações linguísticas como igualmente importantes e interessantes para analisar”, disse.
Algo que lamenta face às virtualidades que a língua possui e que não é passível de ser encontrada em textos da comunicação mais corrente e que dá ao estudante “uma competência linguística acrescida”. Por outro lado, “o texto literário, porque é evidentemente uma obra de arte, permite também aceder a uma forma de interacção com o mundo que ajuda a um alargamento intelectual por parte do estudante”, comentou.
Assim, sugeriu que esta vertente seja gradualmente reintegrada nos currículos, uma prática que comentou que o IPM já começou a desenvolver. “Penso que esse contacto com o texto literário é também muito vantajoso no contacto com o universo cultural da outra língua. E isso permite-lhe depois ser muito mais capaz de, por exemplo, traduzir”, frisou.
“No IPM estão a desenvolver esforços para [o texto literário] deixar de ter [um papel diminuto], para contrariar essa tendência”, comentou. A ex-ministra da Cultura considera que é legítimo os estudantes terem primariamente uma motivação económica, mas garantiu que a introdução do texto literário iria apenas formá-los melhor, não retirando nada à vontade de encontrarem emprego qualificado na área da tradução/interpretação.
Frisando não ter qualquer treino no ensino do português a alunos estrangeiros, Isabel Pires de Lima deu como sugestões textos da Sofia de Mello Breyner ou poemas de Eugénio de Andrade. “Mas também acho que é muito útil recorrer a textos do século XIX que têm uma estrutura narrativa mais tradicional”, disse. “Claro que não vamos pôr um principiante a ler uma Agustina Bessa-Luís ou um José Saramago, porque têm uma utilização extremamente libertária da língua. Agora, há centenas e centenas de textos”, alertou.
O mais importante, será encontrar algo que se adeqúe evitando “infantilizar” os alunos. Do mesmo modo que frisou a importância de abandonar o argumento de que não se dá textos literários aos estudantes porque eles não gostarem ou não serem capazes de os perceber.



