Na qualidade de deputado nomeado e presidente da Associação dos Engenheiros, Eddie Wu Chou Kit reconhece que presta especial atenção na AL aos temas relacionados com a engenharia. Convicto de ter sido nomeado para contribuir com os seus conhecimentos profissionais, frisa que, embora nem sempre satisfaçam “os desideratos de toda a gente”, as acções governativas visam “defender os interesses gerais da população”, pelo que deve apoiar o Executivo quando as decisões são correctas. Por outro lado, em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, defende que, atendendo às restrições impostas para a circulação de veículos na Ponte do Delta, o impacto da nova infra-estrutura não deverá ser significativo na RAEM, ainda que se esperem reflexos positivos na economia

 

Rima Cui

 

-Macau vai enfrentar mudanças nos transportes com a abertura da Ponte do Delta e o reconhecimento mútuo das cartas de condução com o Continente. Como devem ser ajustadas as políticas neste campo?

-Na Ponte do Delta, a percentagem de veículos de cada uma das partes que pode circular reflecte a dimensão das regiões. Macau é muito pequeno, por isso, o funcionamento da Ponte vai ter um impacto efectivo relativamente pequeno no trânsito. Tendo em conta que conseguirão chegar a Macau em apenas uma hora de carro, muitas pessoas de Hong Kong aproveitarão Macau como zona de habitação e negócios. Os preços das casas e lojas já reflectem o impacto que a ponte tem no sector imobiliário do território. Sobre os transportes, já existem limitações à entrada de veículos do Continente ou de Hong Kong em Macau, excepto alguns autocarros turísticos que também estão sujeitos a uma quota. Para circular na Ponte há exigências rigorosas, os veículos têm de ter uma matrícula especial aceite nas três regiões. Só depois de a Ponte estar em funcionamento durante algum tempo poderemos avaliar o impacto efectivo, compreendendo se facilita os transportes ou não. De qualquer forma, tenho a certeza de que o funcionamento da Ponte terá um impacto positivo na economia local. Por outro lado, o reconhecimento mútuo de matrículas funciona em Hong Kong há mais de 10 anos. Se não funcionar em Macau não será justo até em termos da política “Um País, Dois Sistemas”. A preocupação da população com esta política tem a ver com um eventual incentivo à condução ilegal. Em Macau as punições aos condutores ilegais são suficientes. Com a Ponte, Guangdong, Hong Kong e Macau vão concretizar uma ligação sem barreiras, o que é uma boa mudança. Olhando para o estabelecimento da União Europeia (UE), vemos que, embora tenha gerado polémica quando a proposta surgiu, hoje a UE tornou-se numa forte potência económica. Quando integrar a Grande Baía, a RAEM vai ter maior peso no mundo.

 

-Qual deve ser o papel de Macau na Grande Baía?

-Macau é a região mas pequena da Grande Baía. Faltam-nos recursos naturais e humanos. Acho que podemos ser uma plataforma de informações, uma sede para empresas e um ponto de intercâmbio. Macau tem mais de 400 anos de experiência como porto comercial de ligação ao exterior, atraindo quadros bilingues, de Chinês e Português. Os países de língua portuguesa estão conscientes da importância de Macau e da sua ligação à China, a segunda maior potência económica do mundo. Há interesses comuns entre a China e os países lusófonos ao nível da cooperação económica e cultural e Macau possui quadros que dominam as duas línguas e o regime jurídico português. Estas vantagens de Macau estão à vista dos países lusófonos, muitos deles pouco desenvolvidos a nível económico e que, por isso, procuram uma potência económica para exportar produtos e serviços. Já a China precisa de alimentos seguros, produtos que esses países conseguem fornecer. Os países lusófonos precisam de Macau como plataforma para entrar no mercado da China e a China precisa da ligação a esses países para concretizar a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, cujo destino é a Europa e outros países.

 

-As obras de melhoria do Terminal das Portas do Cerco poderão resolver os problemas existentes? Como é que se deve desenvolver o ambiente nas imediações?

-O maior problema do terminal tem sido sempre o ambiente abafado e o calor durante o Verão. Para o resolver, o Governo tem feito várias intervenções, mas existe o monumento das Portas do Cerco, que não pode sofrer qualquer alteração. Houve propostas para mudar a localização do monumento, mas mexendo no arco para construir edifícios altos, o ambiente e a atmosfera histórica original da zona seriam afectados. Por isso, a melhoria do terminal tem de ter em conta estes limites. Além disso, ao lado [das Portas do Cerco], há o Campo dos Operários da FAOM e a Unidade Táctica de Intervenção da Polícia (UTIP). O Governo pretende mudar a localização do campo e a UTIP, para que o terminal possa receber entre 250 mil e 500 mil pessoas por dia. Porém, depois do tufão Hato, foram apontados muitos problemas ao uso daquele espaço subterrâneo. Houve quem sugerisse mudar o terminal dos autocarros para a superfície, mas assim entraria em conflito com o monumento. Agora, a proposta é transformar o sítio  num vale, mas mesmo assim, é preciso mudar o campo e a UTIP, o que obriga a uma comunicação entre o Governo e as duas entidades, procurando novos locais adequados. Há quem apoie a mudança do campo para o terreno do Canídromo, mas os moradores também têm as suas intenções para o aproveitamento do lote. Não sei se as obras de melhoria conseguem ou não acabar com os problemas, mas sugiro a utilização de autocarros eléctricos para melhorar a qualidade do ar naquele espaço. Além disso, é preciso abrir mais espaços que ajudem à ventilação. As carreiras que paravam no terminal estão agora espalhadas por outras paragens e a funcionar bem. Assim, quando o Terminal das Portas do Cerco voltar a funcionar, não é preciso que acolha todas as carreiras que lá paravam antigamente. A diminuição de veículos ajudará à melhoria do ambiente. Por outro lado, o novo acesso fronteiriço entre Guangdong e Macau (Posto Fronteiriço Qingmao) também pode assumir parte dos transportes que antes partiam das Portas do Cerco, dividindo uma parte do fluxo de pessoas das imediações. Agora, o alto fluxo de pessoas da zona afecta a qualidade de vida dos moradores. O norte da Zona A dos Novos Aterros também vai ter uma fronteira. Assim, podemos no futuro dividir uma fronteira em três.

 

-É viável a linha leste do Metro Ligeiro que deverá ligar o Pac On às Portas do Cerco?

-Esta linha vai ser concretizada através da quarta ponte. Acredito que no final do ano será iniciada a obra. Para a concretizar, é preciso ter em conta o impacto ambiental e os assuntos que envolvem a água. O Executivo disse que os estudos já estão feitos e está a aguardar a aprovação do Governo Central. A Linha Leste do Metro Ligeiro é viável porque na quarta ligação entre Macau e a Taipa há espaços reservados para o Metro Ligeiro. A linha do Metro de Norte a Sul tem de ser subterrânea, enquanto de leste a oeste tem de ser à superfície. No Conselho do Planeamento Urbanístico, já pedimos ao Governo para apresentar mais dados.

 

-Que soluções se devem adoptar para a reconstrução das zonas antigas?

Acho que se pode aproveitar essas zonas para construir edifícios altos por forma a satisfazer, por exemplo, a procura de 10 casas num só prédio. Quanto aos restantes espaços, não precisam de se tornar todos em edifícios mas, por exemplo, em jardins ou zonas verdes. O número dos moradores vai ser igual mas melhora-se o ambiente. É necessário alargar as ruas nas zonas onde há muitas situações em que as ambulâncias não conseguem chegar a determinadas vias. Aquando da demolição dos prédios mais antigos, os moradores podem viver temporariamente em casas na Zona A dos Novos Aterros, construídas exclusivamente para receber essas pessoas.

 

Para atenuar o impacto das inundações têm sido lançadas várias propostas para as zonas mais baixas, como a instalação de plataformas elevatórias e adição de comportas nas subestações de electricidade. Como se devem pautar estas estratégias?

-O Templo de A-Má tem mais de quatro séculos de história e foi pouco afectado pelo tufão Hato porque os construtores já deviam conhecer os factores que determinam o grau das inundações, antes de avançar com a obra. A zona foi onde os primeiros portugueses se fixaram em Macau. Na altura, o Porto Interior era ainda praia. Para o desenvolvimento da cidade, as pessoas têm disputado o terreno com a natureza, mas não conseguimos enfrentar as catástrofes naturais. A verdade é que o acto de criar aterros estreita os rios e faz subir o nível da água. Antigamente havia condições para navios de carga de grande dimensão atracarem em Macau. Agora, há barcos que trabalham todos os dias para tirar lamas do mar. Para prevenir inundações, o mais importante é a previsão e informação sobre quando elas vão acontecer. Quando pensamos em medidas, podemos não ter em conta uma situação tão grave que seja única em 50 anos. O Governo anunciou que pretende construir uma barragem com 1,5 metros de altura, mas mesmo assim é impossível impedir que os problemas aconteçam. Para a prevenção ser perfeita, é preciso que seja construída uma barragem com cinco metros de altura, o que não se coaduna com a realidade. Nas zonas baixas, se calhar, é possível proibir a construção de edifícios e convencer os proprietários dos cais a mudar as instalações para outros locais. As alterações têm de ser feitas pouco a pouco, mas não podemos parar por causa das dificuldades. Além disso, o Governo deve tentar convencer e ajudar os moradores das imediações a mudarem-se para outras zonas. O Governo tem de ter um calendário e dar compensações razoáveis aos moradores.

 

-A “Cidade Inteligente” ajudará a resolver problemas do trânsito? Ou vai causar desperdício de recursos?

-O “Transporte Inteligente” faz parte da “Cidade inteligente”. A “Cidade Inteligente” ajuda-nos a recolher e analisar os dados, permitindo uma recolha e organização extremamente rápidas. Em termos dos transportes, podemos usar um sistema para contabilizar o fluxo de veículos em cada estrada, sendo que quando o número de carros for demasiado elevado numa via, aproveitamos o “Transporte Inteligente” para mobilizar uma parte dos veículos para vias menos congestionadas. Além disso, o mais importante é resolver a “disputa” de estrada entre carros e peões. Por exemplo, não há nenhum carro numa rua, mas o semáforo para peões pode continuar a manter-se vermelho, complicando a circulação. Com o sistema, podemos ver situações concretas de cada rua e ajustar as cores do semáforo atempadamente. Por outro lado, o “Transporte Inteligente” inclui ainda o travão automático e os veículos sem motorista, que têm vindo a começar a funcionar nos Estados Unidos e na Europa. Penso que a “Cidade Inteligente” não significa o desperdício de recursos, pelo contrário, vai contribuir para aproveitar melhor os nossos recursos, tempo e dinheiro.

 

-Um estudo concluiu que nos próximos anos haverá uma carência grave de quadros do sector de construção. A solução passará pelo aumento do recurso a não residentes? Como se pode atrair mais jovens para o sector?

-Desde a liberalização do jogo, muitos “resorts” foram construídos ao mesmo tempo e é evidente a insuficiência de mão-de-obra. Para resolver o problema, têm sido importados muitos engenheiros e operários de Hong Kong, do Continente e até de países do Sudeste Asiático. Acredito que esse estudo teve em conta a construção das zonas dos Novos Aterros e do Metro Ligeiro. Sempre que o sector da construção se encontrava próspero, tinha a ver com obras de novos aterros. Antigamente o rendimento do Governo não vinha tanto do sector do jogo, mas da construção, através da cobrança de rendas pelos terrenos. Agora, o trabalho nos estaleiros deixa as pessoas com a impressão de estar cheio de factores de perigo. Em todo o mundo há construção e o sector tem sido aperfeiçoado. Por exemplo, há ferramentas para as obras que já vêm de fábricas e não precisam de ser criadas no local. Recentemente, um edifício alto foi construído apenas em mais de 10 dias. O que os operários fazem no estaleiro é semelhante a montar um modelo. No futuro, temos de reduzir o número de pessoal que trabalha nos estaleiros, para garantir a segurança. Neste momento, os operários de linha da frente têm em média entre 50 e 60 anos e aproximam-se da reforma. Depois de se aposentarem, haverá grande procura de pessoal da área. Muitos pais querem que os filhos façam trabalho fácil e seguro, por isso, o sector de construção não será a primeira opção. A nossa Associação dos Engenheiros fez um inquérito em 2013, entrevistando muitos alunos do ensino secundário e são poucos os que têm vontade de ingressar neste sector. O Governo precisa de tornar o ambiente de trabalho da construção seguro. As condições de higiene são também um factor essencial. Tem de se melhorar a imagem dos operários. Nos autocarros, é fácil encontrar operários com muito suor e a roupa suja. Mas em muitos países ocidentais, existem instalações de duche nos estaleiros para os operários se limparem depois do trabalho. Acho que temos de avançar para esta etapa. O Governo não aposta muito na formação de quadros para a construção. A Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais organiza este tipo de formação mas não de forma contínua, só abrindo cursos quando há necessidade. A abertura de cursos em permanência não depende da procura. A primeira etapa para atrair mais quadros passa por abrir um curso ou criar um bacharelato, podendo fazer mais divulgação nas escolas secundárias. Nem todos os alunos têm vontade de ir para a Universidade. Frequentar este tipo de cursos e aprendendo técnicas permite que no futuro se tornem não apenas operários mas também técnicos. De qualquer forma, numa cidade pequena é inevitável contratar não-residentes para o sector da construção. O Governo não pode lançar um grande volume de obras de uma só vez, caso contrário, serão necessários muitos não-residentes. Temos de equilibrar [o número de obras] com o tempo para a formação de quadros.

 

-Como está a trazer a área de engenharia para a Assembleia Legislativa (AL)?

– Sendo engenheiro, quando abordo os temas na AL, dou atenção especial às questões relacionadas com a engenharia, como as obras viárias, transportes, habitação, obras costeiras, terminais marítimos ou túneis. Depois da entrada no Hemiciclo, a minha primeira intervenção foi sobre os regulamentos relativos aos projectos de construção, porque muitos estão desadequados à realidade, na questão da aprovação de obras. Espero que haja alterações nessas leis. Além disso, os transportes têm influenciado efectivamente todos os cidadãos. Nas ruas, existem demasiadas instalações para peões, como as passadeiras, o que não é uma boa maneira de o trânsito se manter fluído. As ruas são muitos estreitas e os transeuntes conseguem atravessar uma rua em segundos, mas muitos não respeitam as regras, causando conflitos entre peões e veículos. Sugiro a proibição da entrada de viaturas em ruas estreitas e a diminuição de passadeiras nas estradas de alta velocidade. Para alargar os passeios, acho que se pode mudar uma parte de lugares de estacionamento de veículos na via pública para parques subterrâneos. O Governo deve também fixar algumas regras para os parques de estacionamento privados respeitarem, especialmente sobre a suspensão do funcionamento com uma ou duas horas de antecedência em dias de tufão. Mas não se pode desistir do aproveitamento dos espaços subterrâneos. Por outro lado, a construção de habitação tem sido lançada de forma inconstante, concentrando-se todas no mesmo período, e noutras fases nenhuma é lançada. O Governo deve avançar os projectos de forma constante.

 

-Há quem tema que os deputados se foquem demasiado numa certa área, apresentando opiniões parciais e afastadas da realidade. Além disso, por vezes, a qualidade dos deputados nomeados também é foco de polémicas. Como reage a isso?

-Cada deputado tem a sua área, eu foco-me na engenharia. Há outros que são da área jurídica, da economia ou medicina. Como deputados, precisamos de ouvir amplamente opiniões distintas. Mesmo sendo da área da engenharia, se um cozinheiro me apresentar as suas opiniões, irei ouvi-lo mas, claro, de um ponto de vista diferente. Por exemplo, posso comunicar com ele sobre a segurança do trabalho que faz parte da área de engenharia. Cada deputado tem focos de atenção diferentes. Mesmo que alguém me faça uma pergunta que não consiga responder, posso tentar perguntar a outras pessoas da área. Mas “longe da realidade” não é um comentário correcto. O Chefe do Executivo nomeou-nos para darmos os nossos conhecimentos profissionais à sociedade, para a cidade se tornar melhor. Quer seja o Chefe ou os outros altos quadros do Governo, não há ninguém que não queira uma cidade boa. Podemos trazer benefícios à sociedade e, por isso, fomos nomeados para ser deputados. Há pessoas que acreditam que, desde que seja o Governo a fazer, os deputados nomeados apoiam. Há algum Governo que não queira fazer o bem? Qual é o problema de ajudar o Governo se as suas decisões forem correctas? Fomos nomeados porque somos profissionais em determinadas áreas e acredito que, por natureza, as políticas implementadas pelo Executivo têm objectivos positivos, visando defender os interesses gerais da população, mas é natural que nem todas as acções governativas possam satisfazer os desideratos de toda a gente. Não há dúvidas que contribuem para o desenvolvimento de Macau a longo prazo.

 

-Até agora, como avalia o seu comportamento na AL? Sente pressão e desafios?

-Sou deputado há cerca de três meses e participei em muitas reuniões. Estou ainda a aprender. Insisto em apresentar opiniões na AL tendo por base a minha área profissional, sobretudo engenharia. Antigamente transmitia opiniões ao público através da imprensa, mas agora cada frase que diga pode influenciar a decisão do Governo e a legislação. Também tenho de ler uma grande quantidade de documentos legislativos, eis uma pressão. Tenho de ter em conta propostas diferentes dos colegas da AL, reacções distintas da sociedade sobre essas propostas e também comunicar com o Governo, eis o desafio. Sou engenheiro, mas trabalhando na AL, não me posso focar meramente na minha área. Isto para mim, é um novo desafio.