Filho de dois exilados políticos chineses, Li-young Lee, autor nascido na Indonésia, acredita que a poesia “aproxima-se da verdadeira condição de existir mais do que qualquer outra forma artística que recorre à língua”
A vida de Li-young Lee começou numa altura atribulada da dos seus pais, exilados chineses e, embora o poeta não tenha muitas memórias desses anos recorda-se de “terem medo e estarem sob constante incerteza”. Um dos locais por onde passaram foi Macau, mas o autor não se recorda do tempo em que cá esteve por ter apenas quatro anos.
De qualquer forma, as recordações de tempos mais atribulados têm impacto no que escreve. “Os gregos antigos tinham razão quando diziam que a mãe de toda a inspiração é a memória. As minhas memórias são interessantes porque me ajudam a lembrar um passado mais profundo, espiritual, o passado da minha alma. Não é apenas a memória do que aconteceu a este corpo mas de algo que é mais velho mesmo que esta minha biologia”, destacou Li-young Lee à TRIBUNA DE MACAU. “Acho que é isso a prática da poesia: é lembrar a nossa verdadeira origem e não apenas a nossa história pessoal”.
O autor nunca pensou recorrer a outro estilo literário. “Comecei logo a escrever poesia, não sei exactamente porquê, mas se tivesse de adivinhar diria que a poesia aproxima-se da verdadeira condição de existir mais do que qualquer outra forma artística que recorra à língua”, frisou. “Sermos nós, estarmos vivos, é algo tão pleno de informação, há uma saturação de significados. Estamos a tentar andar por entre esta floresta de significados procurando encontrar os mais importantes e penso que a poesia consegue representar essa saturação e concentração de significados num espaço muito pequeno”.
Para o poeta “é uma grande honra” e “entusiasmante” ter sido convidado para o “Rota das Letras”, porém, diz-se “nervoso”. “Quero ser honesto mas sei que a partir do momento em que estamos a conversar para um público não é possível sermos completamente honestos. Usamos uma linguagem que é social, mesmo na nossa linguagem corporal”, defendeu.
Durante a sessão de ontem intitulada “caos e ordem: dar sentido ao mundo através da poesia”, Li-young Lee falou também sobre o pai, “uma pessoa complicada e talentosa” que lhe ensinou inglês, mesmo alguns termos mais “arcaicos”. “Quando era criança via o meu pai como um Deus. Um encontro com ele era um encontro com Deus”.
Li-Young Lee nasceu em Jacarta, filho de dois exilados políticos chineses. O bisavô do poeta foi o primeiro Presidente da República Popular da China e o seu pai foi médico pessoal de Mao Zedong. Na Indonésia, o pai do escritor ajudou a fundar uma Universidade e aí começou a surgir o sentimento “anti-chinês” que levou à sua prisão pelo período de um ano. Depois da libertação, a família passou por Hong Kong, por Macau, Japão, chegando aos EUA em 1964.
I.A.



