Logo pela manhã, o Consulado-Geral encheu-se de pessoas prontas a assinalar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades de Portuguesa. Depois do içar da bandeira, o folclore e as flores voltaram a marcar presença no Jardim de Camões. Membros da comunidade portuguesa falam de um dia especial que cada vez faz mais sentido assinalar
Inês Almeida
Às 09:30, sob o intenso sol de Junho, o rufar dos tambores da banda do Corpo da Polícia de Segurança Pública (CPSP) chamou a atenção de todos os presentes e marcou o arrancar das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. No Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, ouviu-se então “A Portuguesa”, cantada a plenos pulmões por quem fez questão de participar nas celebrações e tocada pela banda do CPSP enquanto dois jovens do Grupo de Escuteiros Lusófonos de Macau (GELMac) hasteavam as bandeiras nacional e da União Europeia.
A restante tradição também se mantém. Após as cerimónias no Consulado, seguiu-se a romagem até ao Jardim de Camões, à gruta do poeta, onde se encontra o seu busto e o primeiro Canto da sua obra mais representativa: “Os Lusíadas”. Antes disso, foi a vez de os mais pequenos prestarem a sua homenagem. Crianças de várias nacionalidades, provenientes de escolas portuguesas ou luso-chinesas, celebraram o dia com manifestações artísticas de diversos géneros.
Logo no arranque das celebrações no jardim, crianças dançaram folclore, ao ritmo de diversas músicas animadas. Então, regressou a calma, com um momento de declamação de poesia. “Busque Amor, novas artes, novo engenho/ Para matar-me, e novas esquivanças/ Que não pode tirar-me as esperanças,/ Que mal me tirará o que eu não tenho”, começaram os estudantes da Escola Portuguesa de Macau, declamando o poema “Não Pode Tirar-me as Esperanças”.
Em fila, as crianças das escolas portuguesas e luso-chinesas seguiram, então, em direcção à Gruta de Camões, onde se encontra um busto do poeta, para, aos pés do primeiro Canto d’Os Lusíadas, deixarem rosas e coroas de flores.
Para o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Portugal, a participação nas celebrações de ontem foi uma “grande honra”. “É uma grande honra poder testemunhar a presença de Portugal em todo o mundo e, em particular, aqui em Macau. Temos uma relação histórica com Macau, a comunidade portuguesa faz parte de Macau, é bem acolhida e, para mim, enquanto membro do governo [português] é uma honra [participar nas comemorações]”, destacou António Mendonça Mendes à TRIBUNA DE MACAU.
O evento ganha uma importância ainda mais especial pelo facto do Secretário de Estado já ter residido no território. “Pessoalmente, é uma grande emoção porque já fui membro desta comunidade em Macau e sei bem o que sentem os portugueses aqui”, destacou, recordando que residiu dois anos no território. “Voltei sempre muitas vezes, mas é sempre muito bom voltar a um sítio onde se foi e se é muito feliz”.
Sobre as comemorações do 10 de Junho, António Mendonça Mendes frisou, acima de tudo, a questão do simbolismo. “O simbolismo é muito importante quando estamos a falar da nossa pátria e dos nossos símbolos e, por isso, é tão importante termos a cerimónia do içar da bandeira nacional, ouvirmos o nosso hino nacional, ‘A Portuguesa’, tocado pela banda do CPSP. Todo esse simbolismo é muito importante para o sentimento de pertença ao nosso país que é Portugal”.
José Cesário transmitiu uma mensagem semelhante, destacando que “estas celebrações do 10 de Junho são especiais”. “Há vários factos que fazem com que sejam especiais. Em primeiro lugar, temos o Cônsul-Geral de saída. É um amigo, uma pessoa com quem trabalhei de perto, trabalhámos juntos. Foi uma pessoa que teve aqui uma missão muito especial e desempenhou uma função muito importante”.
O deputado eleito pelo círculo de Fora da Europa recorda também que “está a fazer 20 anos” que pisou o solo do território pela primeira vez. “Foi exactamente em 1998 e, portanto, também tem essa carga simbólica. Ainda por cima, é um momento da nossa vida sempre muito especial”.
O antigo Secretário de Estado das Comunidades salientou ainda que “Macau é um dos locais onde a celebração do Dia de Portugal se sente de uma forma mais forte, tendo em consideração, por um lado, as características da comunidade, uma comunidade multifacetada, mas que vive muito a sua relação com Portugal, e, depois, pela história que este território tem”.
“Gosto muito de aqui vir nesta altura. Não vou dizer que é o único local onde gosto de ir, porque o que digo aqui tento dizer nos outros locais onde vou, mas é, com certeza, dos locais onde estas celebrações têm maior força, maior significado”, destacou José Cesário.
Os “elementos únicos” do 10 de Junho em Macau
A importância da celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas mantém-se intacta, acredita o deputado do PSD, exemplificando com alguns dos momentos da manhã de ontem. “Vê-se, desde logo, no modo como as pessoas olham para o hastear da bandeira, como cantam o hino nacional, como olham para o facto de a banda do CPSP ter passado a interpretar o Hino Nacional, e com autenticidade”, sublinhou José Cesário, acrescentando ainda a presença dos escoteiros ao rol de “elementos únicos”.
“Conheço muito bem as nossas comunidades e estes elementos são distintivos destas celebrações em relação a outras. Outro elemento distintivo é a cerimónia de deposição das flores [na Gruta de Camões] e a passagem dos estudantes, dos alunos das nossas escolas, pela Gruta de Camões. Tudo isto faz com que haja uma forma muito especial de viver este momento”, explicou o deputado.
A título de exemplo, referiu também a postura e expressão do presidente da Fundação Escola Portuguesa e antigo Ministro da Educação, Roberto Carneiro. “Ainda há pouco reencontrei Roberto Carneiro. Nós trabalhámos juntos numa fase da nossa vida, eu na Assembleia da República, ele como Ministro da Educação, e olhava para ele e voltava a ver nele a emoção de alguém que tem as suas raízes aqui, que saiu, fez a sua vida noutro local, mas continua a viver isto exactamente da mesma forma, com o mesmo denodo e essa emoção toda que referi há pouco”, frisou.
Por sua vez, Miguel de Senna Fernandes aproveitou a ocasião para defender que faz cada vez mais sentido celebrar o dia 10 de Junho. “Ainda há pouco respondia à questão se faz sentido ainda, passados 20 anos da RAEM, comemorar o Dia de Portugal, e cada vez mais sentido. A cada ano que passa faz mais sentido. Os tempos são outros, todos nós sentimos desafios que recaem sobre nós, sobre esta comunidade que tem resistido sempre culturalmente a ter as suas próprias características, a sua própria identidade”.
“O tempo corrói muita coisa e há que, efectivamente, munir esta comunidade de mais sentido de pertença, mais sentido de identidade. Nesta óptica, obviamente que faz sentido. Podem passar 25 ou 30 anos, as coisas terão de ser assim, mas isto também vai ter de passar muito pela própria sociedade civil oriunda, neste caso, da comunidade”. “Este sentimento de pertença é genuinamente da sociedade civil e é isso que precisamos de valorizar”, acredita Miguel de Senna Fernandes.
Para o líder a Associação dos Macaenses “este sentimento de pertença é genuinamente da sociedade civil e é isso que precisamos de valorizar. Seria sempre bom que houvesse um representante da República Portuguesa, mas não é por uma questão de soberania, não é a questão política, mas como representante de um país de referência cultural”. “É uma correspondência. Não quer dizer que não se celebra o 10 de Junho sem um representante, mas é fundamental que isto se repita sempre e que perdure. É sempre com a mesma emoção e comoção que se celebra isto”, destacou.
A romagem até à Gruta de Camões é já tradição para Miguel de Senna Fernandes. “Venho aqui desde pequeno, desde os meus anos da meninice. É uma espécie de ritual que cumpro todos os anos. Todos os anos o meu pai me explicava porque havia aqui o primeiro Canto d’Os Lusíadas. Não é uma questão meramente emocional, é de afirmação cultural”.
Miguel de Senna Fernandes fez também o percurso com as filhas, embora tal não fosse necessário pelo facto de a escola o fazer. “As minhas filhas não precisavam que fizesse coisa alguma porque as escolas tratavam de o fazer. Nessa altura, todos tinham de desfilar e de vir cá. A minha mulher foi professora e directora de uma escola e, como tal, todos os anos vinha cá”, relembrou.
Além de uma tradição, esta é “uma romagem de saudade também”. “Sou um bocado sentimentalista nesse aspecto e faz-me recordar. Recordo-me do meu pai que suspirava de muito orgulho quando vinha aqui e que me contava coisas”.
Passar a mensagem aos mais pequenos
A presidente da Casa de Portugal em Macau (CPM) acredita que a comemoração do 10 de Junho “significa que há portugueses em Macau, conscientes da sua qualidade de portugueses, que estão integrados, dão o seu melhor à RAEM e são uma força viva aqui”. “A cada ano, ao comemorar-se este dia, renova-se a vontade e o interesse de que por muito tempo possamos ver os nossos compatriotas a trabalhar, a viver e a serem felizes na RAEM”, sublinhou Amélia António à TRIBUNA DE MACAU.
A participação de crianças neste tipo de celebração é particularmente importante “porque é de pequenino que se começa a perceber a importância dos valores, das tradições”. “São coisas que ficam gravadas na memória deles. Eles, neste momento, podem não entender muito bem o que vêm aqui fazer, mas à medida que crescem e que compreendem, as memórias estão lá e, nessa altura, eles interpretam-nas, portanto, envolver as crianças em tudo o que tem a ver com a cultura e as tradições é fundamental”.
Os filhos de Amélia António participaram nas celebrações durante vários anos. “Agora já não estão em Macau mas ainda ontem me perguntaram ‘Mãe, amanhã, 10 de Junho?’”, destacou.
Esta vontade de manter a ligação entre os mais pequenos e Portugal move também o chefe de agrupamento do GELMac, para quem participar nestas actividades é um orgulho. “Para nós é uma imensa honra, porque quer dizer que o Consulado confia na nossa missão e é bom lembrar-se dos escoteiros que, claramente, têm uma missão para com os outros, mas também para com a Pátria, Portugal no nosso caso”, frisou André Gonçalves. “Estar aqui, poder participar, içar as bandeiras, é um grande orgulho desde sempre”.
Apesar da importância e solenidade da ocasião, a preparação para ela não é muito complexa. “Geralmente, o mais complicado é com as bandeiras. O resto dos escoteiros ficam só em formatura. Por norma, chegamos um bocadinho mais cedo, repetimos duas ou três vezes, eles já sabem, até porque já têm experiência dos anos passados, e depois chegamos, fazemos, e seguimos para o jardim”, explicou André Gonçalves.
Este orgulho, assegura, é partilhado pelas crianças. “Apesar de estarmos longe de casa, temos este bocadinho que é como se estivéssemos em casa, em Portugal, outra vez. Sei que não tarda, eles [crianças] vão de férias mas, de certa forma, já estão a preparar-se para sentir que estão com Portugal, que têm uma comunidade a suportá-los, que lhes dá força e da qual fazem parte”, assegurou o chefe de agrupamento.



