Embora tenham vantagens ao nível da “flexibilidade, reacção rápida e facilidade em encontrar nichos de mercado e espaço de sobrevivência”, muitas pequenas e médias empresas locais encontram desafios devido a lacunas operacionais, nota o director do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau, sublinhando a necessidade de as companhias melhorarem a imagem das suas marcas e as estratégias de venda ao exterior. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Shuen Ka Hung destaca a receptividade dos diferentes cursos organizados pelo Centro, como design de moda, maquilhagem e cabelos, áreas muito pouco desenvolvidas em Macau. Segundo o antigo director dos Serviços para os Assuntos Laborais, o curso de Português básico direccionado para o comércio é um dos que tem maior sucesso, ajudando muitas empresas a resolver problemas quando lidam com mercados lusófonos

 

Rima Cui

 

-Com quantas empresas o Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau (CPTTM) colabora actualmente? Em que áreas?

-O CPTTM é uma entidade de promoção da produtividade, não propriamente um centro de formação profissional. Tem como objectivo ajudar as empresas locais a aumentar a sua produtividade e competitividade. Ao nível dos serviços, o Centro fornece consultadoria, tecnologia, formação e informações em áreas como os recursos humanos, recursos materiais, maquinaria, estratégias e ambiente das próprias empresas. Por exemplo, no ano passado, o CPTTM concluiu 68 casos de consultoria ao nível da gestão internacional e dos serviços técnicos e tratou de 45 pedidos para o programa de reconhecimento dos padrões do sistema de gestão internacional. Além disso, disponibilizámos mais de 460 cursos desenhados especialmente para determinadas empresas e entidades.

 

-Quais são os cursos que atraem mais público?

-Os nossos cursos de formação profissional dividem-se em quatro áreas, nomeadamente a gestão e operação de negócios, informação e tecnologias, a moda e criatividade e as línguas para o comércio. Em 2017, organizámos 912 cursos de formação que atraíram cerca de 19.000 alunos. No que respeita às línguas, as que atraem mais alunos são o Inglês e o Português. Quanto à moda, o design e produção de vestuário, a maquilhagem e cabelos são os cursos com maior receptividade. Já na área da informação e tecnologia, muitos alunos aprendem sobre a tecnologia associada à internet e o desenho de plantas de construção. Os cursos relacionados com o empreendedorismo, operação de pequenas e médias empresas (PME) e aqueles que ajudam os gestores a melhorar as suas técnicas de gestão também se têm mostrado bastante atractivos.

 

Porquê?

-Porque, quando planeámos o conteúdo dos cursos, sobretudo os associados ao empreendedorismo, PME, técnicas de gestão de recursos humanos e línguas para o comércio, tivemos as aplicações comerciais como orientação. Os nossos professores têm muita experiência prática nestas áreas. Além disso, outras instituições não têm ou têm poucos cursos de formação na área do design de vestuário, maquilhagem, cabelos, padrões de gestão internacional e outros. Outra das vantagens desses cursos é permitirem aos alunos uma aprendizagem gradual e sistemática e uma aproximação dos conteúdos às exigências do reconhecimento profissional.

 

-Quais são as medidas concretas do CPTTM para aumentar a competitividade das empresas locais?

-Quando apoiamos as PME, apresentamos soluções que nos parecem viáveis para cada uma, com base nos problemas concretos que enfrentam. Por exemplo, neste momento, algumas lojas tradicionais de Macau estão numa situação de paralisação operacional. O problema foi motivado por uma falta de conhecimentos dos proprietários sobre a importância do estabelecimento de uma marca para a loja e da necessidade de estabelecer uma imagem de marca para a loja. Muitas estratégias têm de ser melhoradas, incluindo o design de uma imagem de marca, das embalagens dos produtos e estratégias de venda ao exterior. Por isso, consoante a situação concreta de cada um dos estabelecimentos, o CPTTM dá aconselhamento adequado para os ajudar a aumentar a produtividade e conseguir voltar ao caminho do desenvolvimento. Além disso, para as empresas locais serem reconhecidas regional e internacionalmente, em termos de gestão, produtos e serviços, o Centro pode prestar serviços em fases diferentes. Ao mesmo tempo, o CPTTM promove activamente as empresas de Macau utilizando tecnologia, no sentido de aumentar a eficácia da operação. As nossas medidas de apoio incluem a organização regular de colóquios, ‘workshops’, e o lançamento de aplicações programáticas. O centro dedica-se ainda à formação de quadros de informação e tecnologia. Por outro lado, com o objectivo de colaborar na construção do Centro Mundial de Turismo e Lazer e de desenvolver a diversificação das indústrias, o CPTTM tem lançado constantemente cursos relativos aos elementos não-jogo, moda e criatividade. Desde 2003, o Centro criou o diploma em design de moda e manufactura e, muitos alunos, escolhem enveredar pelo caminho da moda, tornando-se forças importantes do sector e adicionando um novo dinamismo ao ramo da moda. Desde 2015, o Centro começou a desenvolver em conjunto com a Universidade de São José o bacharelato em design de moda.

 

-Face ao resto do mundo, quais são as vantagens das empresas da RAEM?

-Depois da transferência de soberania, o número de turistas em Macau tem crescido, o que faz com que a dimensão do mercado também aumente e isso veio beneficiar as empresas locais. Com participação em diferentes sectores, as PME aumentaram o nível das suas operações, da gestão e produtividade. Por exemplo, na área da restauração e das indústrias culturais e criativas as empresas locais usufruíram de oportunidades de desenvolvimento. Além disso, Macau possui um contexto profundo de fusão entre as culturas ocidental e oriental, factor importante para a diversificação moderada da economia da RAEM. Assim, acredito que as vantagens das PME locais face à concorrência reflectem-se em dois âmbitos. Em primeiro lugar, as empresas locais têm vantagens inerentes à sua natureza e modelo de operação. Depois, surgem outras vantagens criadas através das melhorias, isto porque, com cada vez mais mudanças nas necessidades do mercado, as PME têm vantagens ao nível da reengenharia, quando comparadas com as grandes empresas. As PME possuem uma maior flexibilidade, reacção rápida e têm mais facilidade em encontrar nichos de mercado e espaço de sobrevivência.
-Há quem acredite que o sector da moda local pode ser competitivo. Como é que a ciência e tecnologia podem ajudar ao desenvolvimento desta área?

-A combinação entre a indústria da moda e a informação e tecnologia pode ajudar o sector a comercializar produtos e a promover as marcas apesar de os recursos serem limitados. A globalização da economia, da informação e das tecnologias mais avançadas também contribuem para proporcionar boas oportunidades. Novas técnicas como a realidade virtual e a realidade aumentada abriram um novo caminho para o desenvolvimento da indústria da moda. As marcas locais têm procurado constantemente inovar nas técnicas e no design, bem como no fabrico dos produtos. Técnicas de impressão a três dimensões e tecidos amigos do ambiente já se tornaram questões importantes na área da moda. Com tecidos e técnicas diferentes, a roupa pode ganhar funções especiais que criam mais-valias, ajudando o sector a enveredar pelo caminho do desenvolvimento sustentável. O Centro tem sempre dado novas tecnologias ao sector, incluindo as que já referi, e os produtos foram exibidos no Festival de Moda de Macau, inspirando designers e profissionais das indústrias culturais e criativas.

 

-O CPTTM colabora com Portugal ou outros países de língua portuguesa e de que forma desenvolve essas ligações?

-Ajudamos empresas locais a agarrar as oportunidades criadas pela plataforma comercial entre a China e os países lusófonos. Em cooperação com a Associação Comercial Internacional de Empresários Lusófonos lançámos uma série de cursos de Português direccionado para o comércio de nível básico, que atraíram entre 2006 e 2017 mais de mil alunos. Além disso, no ano passado realizou-se o primeiro ‘workshop’ sobre produtos dos Países de Língua Portuguesa. Antes da transferência de soberania, Macau tinha muito contacto com Portugal e outros países lusófonos. Depois de 1999, o nosso rumo mudou. O nosso centro servia principalmente as PME de Macau, que tinham pouco contacto comercial com os países de Língua Portuguesa no início do estabelecimento da RAEM. Agora já há um maior contacto. Assim, o nosso curso de Português básico direccionado para o comércio ajuda as empresas a resolver alguns problemas que encontram quando se deparam com os mercados desses países. No passado tivemos pessoas que se dedicavam à tradução de documentos e cartas para quando fazíamos negócios com países lusófonos. Depois de 1999, isso já não era necessário pois a população desses países domina o Inglês. Fomos nós que desenvolvemos o sistema de registo ‘online’ usado durante as Conferências Ministeriais do Fórum Macau. Agora cooperamos pouco com entidades de Portugal, mas ajudamos empresas locais a exportar, por exemplo, vinho para a China. Macau é uma plataforma e a tendência de cooperação estreita entre as empresas locais e dos países lusófonos é cada vez mais evidente.

 

-Como é que o CPTTM está a apoiar a integração da RAEM na Grande Baía?

-A Grande Baía vai dar a Macau um mercado mais amplo e cada vez mais produtos locais vão entrar no Continente. Alguns desses produtos, como alimentos e medicamentos, têm de passar por um período de inspecção e quarentena para poder entrar nas cidades da Grande Baía. Nesses procedimentos, as empresas locais podem deparar-se com diversos problemas. O CPTTM vai aproveitar as vantagens únicas da Grande Baía, dedicando-se a ajudar as PME a resolver problemas encontrados na importação e exportação de produtos sobretudo no que respeita à inspecção e aos rótulos. Por outro lado, o Centro tem preparada a criação de uma aliança de produtividade da Grande Baía, em conjunto com centros e organismos desta área em Hong Kong. As áreas de cooperação serão abundantes, incluindo a transferência de tecnologia, gestão de empresas, actualização das indústrias, entre outras. O Centro vai aproveitar essa oportunidade para ajudar as empresas locais e do Continente a ir para o exterior em conjunto, procurando oportunidades de negócio.
-Os jovens têm vontade de ingressar nas indústrias emergentes ou preferem trabalhar nos sectores tradicionais? Como encoraja os jovens a entrar nos sectores emergentes?

-Quer os sectores tradicionais, quer as indústrias emergentes, desde que permitam aos jovens ver o seu potencial, conseguem cativá-los. O sector do vestuário é tradicional mas tem vindo a actualizar o nível de produção, design e vendas, conseguindo atrair os jovens, levando-os a trabalhar nesta área. No estudo sobre a nova definição do desenvolvimento industrial foram apontadas várias áreas como o desenvolvimento da indústria alimentar e o fabrico de vestuário de classe elevada. Além disso, foi indicado que era preciso criar indústrias de alto valor agregado, tal como a indústria farmacêutica, o sector da ourivesaria e joalharia, equipamentos associados ao jogo e fabrico de equipamento de entretenimento electrónico. Essas indústrias requerem recursos humanos com técnicas e conhecimentos modernos de gestão. Acredito que a configuração sistemática da educação tendo em conta técnicas profissionais, as necessidades de formação e de desenvolvimento vai facilitar a entrada dos jovens nesses sectores.

 

-Hoje em dia, os jovens têm vontade de criar os próprios negócios? Quais são as principais dificuldades com que se podem deparar?

-Nos últimos anos, o Governo e a sociedade civil têm reforçado a importância dos incentivos ao desenvolvimento económico através do empreendedorismo e inovação. Em 2017, 172 pessoas inscreveram-se na série “essências do empreendedorismo”, um curso dedicado a quem está interessado em criar negócios, organizado pelo CPTTM, o que representa um aumento de 59,3% em relação a 2016. A série dedicada às pessoas que estão a começar a criar os seus negócios contou com 249 inscritos. Muitas pessoas acreditam que a angariação de fundos é a maior dificuldade no empreendedorismo. No entanto, de acordo com os proprietários de novas empresas, durante a criação dos negócios, o maior entrave pode não ser o dinheiro mas antes a concorrência do mercado, entre os vários produtos, a falta de experiência, carência de recursos humanos e a renda a pagar pela loja. Esses são os problemas mais urgentes a ser resolvidos. Para a concorrência e a falta de experiência, a solução pode passar pela participação em ‘workshops’, formação e sessões de partilha de experiência.