O papel de Macau como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa está em constante progresso e, face às várias oportunidades que oferece, deve merecer a “atenção especial” de Hong Kong. A análise pertence ao Conselho de Desenvolvimento Comercial, agência do Governo da região vizinha, que recomenda o aproveitamento do papel de Macau para criar uma rede de negócios com pequenas e médias empresas lusófonas e cooperar na organização de exposições e convenções direccionadas para esses mercados. O Conselho também não poupa elogios aos esforços para formar mais quadros bilingues na RAEM
Catarina Almeida e Sérgio Terra
Hong Kong deve prestar “atenção especial” ao papel de Macau enquanto plataforma entre a China e os países de língua portuguesa devido ao “progresso que está a registar e às oportunidades que podem surgir”, refere um relatório publicado pelo Conselho de Desenvolvimento Comercial de Hong Kong (HKTDC, sigla inglesa). O Conselho, que é a agência do Governo responsável pela promoção do comércio de bens e serviços de Hong Kong e possui mais de 40 escritórios em todo o mundo, olha para as vantagens da RAEM nesse domínio como estando “ainda em fase de desenvolvimento”, logo com amplo potencial de crescimento, atendendo até ao “apoio activo do Governo chinês”.
“Além disso, o desenvolvimento da Área da Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau deve incentivar Hong Kong a usar a plataforma de Macau para construir uma rede comercial e de negócios com os países lusófonos, particularmente entre as pequenas e médias empresas” (PME), sublinha o documento do HKTDC consultado pela TRIBUNA DE MACAU.
Na perspectiva do Conselho, as oportunidades oferecidas pelo reforço das ligações aos mercados lusófonos podem ser exploradas por Macau e Hong Kong num quadro de cooperação. De acordo com o estudo liderado por Doris Fung, economista da equipa de investigação do HKTDC, os dois territórios “deveriam considerar trabalhar em conjunto para promover as suas indústrias de convenções e exposições e expandir as respectivas áreas de serviços para os mercados dos países de língua portuguesa”.
Reforçando essa convicção, o estudo lembra que, por um lado, o Governo de Macau tem vindo a apoiar o desenvolvimento do chamado sector MICE e, por outro, “Hong Kong criou, ao longo dos anos, uma extensa rede internacional de exposições”.
Nesse contexto, a agência da antiga colónia britânica acredita que as empresas lusófonas “poderiam fazer uso da plataforma de exposições internacionais de Hong Kong para explorar o mercado regional da Ásia-Pacífico, incluindo a China”. “Macau, entretanto, poderia usar o seu relacionamento histórico e conhecimento dos países de língua portuguesa para servir de ligação entre empresas, em particular PME, na China e nos países lusófonos, e providenciar serviços profissionais personalizados às partes interessadas”, frisa.
Aproveitando as “respectivas vantagens nesses campos”, Hong Kong e Macau podem “complementar-se” no processo de promoção das suas indústrias MICE. “Através do trabalho em conjunto, podem cooperar na organização de exposições e convenções profissionais voltadas para os mercados lusófonos”, sustenta.
Paralelamente, as empresas de Hong Kong poderão tirar partido da plataforma de Macau para fomentar as trocas comerciais com os mercados lusófonos. “O comércio entre os países de língua portuguesa, Continente chinês e Macau está actualmente concentrado sobretudo em produtos alimentares, tendo sido tomadas várias medidas para incentivar o desenvolvimento desse sector”, nota o organismo.
Por isso, o HKTDC encara com particular interesse as potencialidades do Centro de Exposição dos Produtos Alimentares dos Países de Língua Portuguesa, estabelecido na “Casa de Vidro” do Tap Seac em Março de 2016. “Atendendo à crescente procura na China por produtos alimentares importados, seria uma boa ideia para as empresas de Hong Kong envolvidas no sector da importação de alimentos fazer uso do Centro para identificar oportunidades de cooperação com outras companhias”, sugere.
Por outro lado, perante o interesse de Macau em expandir as funções de plataforma para outras áreas (como vestuário, café, produtos médicos e farmacêuticos) e serviços, o Conselho aconselha as empresas de Hong Kong que desejam criar relações comerciais e económicas com os países lusófonos a “prestar muita atenção a esse desenvolvimento em particular”.
Elogios à formação de bilingues
Uma área que o Conselho de Desenvolvimento Comercial de Hong Kong vê como uma vantagem nas relações comerciais com a lusofonia tem a ver com a aposta no ensino da língua portuguesa em Macau.
Embora refira que apenas “2,3% da população é fluente em Português”, segundo dados dos Censos de 2016, a agência destaca que, nos últimos anos, o Governo da RAEM “implementou medidas para formar profissionais bilingues bem versados em Chinês e Português”. “Espera-se que a crescente popularidade da aprendizagem de Português em Macau seja benéfica para o futuro desenvolvimento do seu papel como plataforma”, salienta.
No âmbito dessa estratégia, o Governo de Macau está, de forma gradual, a lançar medidas para promover o intercâmbio comercial de informações entre os dois lados, usando como principal veículo as PME, atenta o HKTDC que sublinha também os esforços para expandir a cooperação comercial para produtos que não sejam alimentos e bebidas alcoólicas.
Numa análise geral, é claro que ainda há mais espaço para desenvolver o papel de Macau enquanto plataforma sino-lusófona, insiste o organismo. O mesmo documento também descreve as várias iniciativas concretizadas ou planeadas desde o estabelecimento do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa em Outubro de 2003, por iniciativa do Governo Central.



