A escritora Maria Antónia Jardim pôs por escrito um encontro imaginado entre Pessanha e Pessoa, no qual a visão sobre a vida e a morte se vai transformando. O terceiro livro da trilogia foi ontem apresentado no Clube Militar

 

Salomé Fernandes

 

A vida de Fernando Pessoa ganhou um rumo diferente nas palavras de Maria Antónia Jardim em formato de livro, apresentado ontem numa sessão no Clube Militar de Macau organizada pela TRIBUNA DE MACAU com o apoio institucional do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong.

O livro “Sir Fernando Pessoa e a Flor de Lótus” é o terceiro de uma trilogia sobre o poeta. “O Sir Fernando de Pessoa surgiu porque havia a urgência de repor uma bolsa que não terá sido atribuída a Fernando Pessoa, a bolsa de Oxford, e como sabem imerecidamente não a recebeu. E eu decidi atribuir-lhe uma outra vida. Mais humana, talvez mais sensível, mais sensitiva e mais amorosa. Daí ter esta companheira Mary”, explicou a autora.

Neste último volume, Maria Antónia Jardim imaginou um encontro de Pessoa com Pessanha, onde o segundo lhe explica como “encarar a morte e amor de outra maneira”, contextualizou a autora. E deixou uma mensagem ao público: “espero que sintam este encontro onírico de Pessoa e Pessanha em Macau, até porque a casa de Pessanha que se retrata no livro tem a ver com os cenários dos próprios poemas dele”.

Com uma recordação de personagens históricas e um toque de humor, foi José Rocha Diniz quem conduziu a apresentação da obra. Mencionando a passagem em que Mary e Pessoa contemplam o Guadiana a partir do castelo de Monsarraz, descreve que “é por aí que Pessoa recebe uma inesperada visita, um envelope misterioso com uma mensagem não misteriosa e um indígena a falar a língua Tupi-Guarani, com palavras não aceites no actual Acordo ortográfico”. Mas as dúvidas que Pessoa tem só são esclarecidas depois de Pessanha insinuar que as respostas que procura se encontram na flor de lótus.

O livro é descrito por Jorge Cunha, autor da introdução, como “um exercício de iniciação à poesia e ao amor”. E acrescenta que “palavra da vida imemorial e palavra situada no percurso andarilho da poesia e da cultura portuguesa, este pequeno volume é saboroso e povoado de memórias e pretextos”. Vem no seguimento das obras “Sir Fernando Pessoa e o Relógio de Bolso que Esconde uma História” e “Sir Fernando Pessoa e o Arcano d’Óbidos”.

Para além de ter apresentado o seu novo livro, Maria Antónia Jardim aproveitou o momento para dar a conhecer a sua veia artística. As suas ideias reflectem-se na escrita, mas também na pintura. E em 2008 começou a recriar em jóia o conceito dos seus quadros. Assim, apresentou uma jóia inspirada em Pessanha e no seu poema “violoncelo”, que já antes tinha dado direito a quadro. “Esta jóia tem a forma de um violoncelo, tem a alquimia do sol e da lua e tem dois pauzinhos a comer o sol que indica ‘ver para além de’”, descreveu.