O Festival de Artes traz de volta ao território os fadistas Pedro Moutinho e Mísia, que colaboram com a Orquestra Chinesa de Macau num concerto que decorre esta noite. Pedro Moutinho descreveu o momento como uma das melhores experiências da sua vida
Salomé Fernandes
Pedro Moutinho regressa à RAEM três anos após o último concerto, mas desta vez em colaboração com a Orquestra Chinesa de Macau. “Pelos ensaios que tivemos está a ser uma das melhores experiências da minha vida. Os arranjos estão muito bonitos, estou mesmo muito feliz e motivado por esta experiência, que acaba por ser um casamento entre o fado e orquestra. O fado já foi tocado por orquestras mas neste caso acho que ficou lindíssimo”, comentou à TRIBUNA DE MACAU. À sua voz junta-se a da fadista Mísia, às 20h no Centro Cultural no âmbito do Festival de Artes de Macau.
O artista guarda boas memórias da sua última vez no território, mas lamentou a presença diminuta de portugueses na plateia. “Gostava que as pessoas que estão cá aderissem mais. As pessoas têm os seus compromissos e as suas vidas mas os portugueses dão sempre aquele calor”, disse. Apesar disso, teve locais a dizerem “ah fadista!” no meio do concerto, momento que o marcou. E fãs vindos de Hong Kong.
A raridade de portugueses nos concertos no exterior não é um fenómeno exclusivo de Macau. “É o que acontece. Mas por acaso às vezes penso e faço mais espectáculos no estrangeiro do que propriamente em Portugal”, comentou, acrescentando que “é um país muito pequeno, a concorrência é muita, é muita gente a cantar”. O disco que vai lançar no próximo ano, e inclui fados tradicionais mas também temas novos de compositores como Amélia Muge e Márcia, pode mudar as oportunidades.
O último disco de Pedro Moutinho, “Fado em Nós”, “é um disco livre mas muito conservador”. Junta fados de pessoas que adora mas não foram os “hits” da época. A liberdade que associa ao disco prende-se com não ter sido gravado em estúdio mas sim no auditório de um museu, para o qual levou um estúdio móvel. Procurava uma autenticidade que conseguiu ao gravar tudo ao mesmo tempo, e se houvesse erros recomeçavam todos de início. Sem montagens, em estilo de casa de fados.
“Fiz isso mais pela proximidade que procurava, de autenticidade, de sentir que a pessoa que está a ouvir me está a sentir. O fado sempre foi cantado nas casas de fado e existe uma grande cumplicidade entre quem assiste e quem canta. É muito importante essa cumplicidade. É isso que me motiva, sentir que a pessoa está ali, e o fado para mim nasce um bocado dessa interacção”, explicou.
Mas dá um toque de diversidade ao tradicional, pegando por exemplo em fados menos em voga. “Os fados tradicionais são músicas que existem e foram compostas desde os anos 40 para poemas com características de quadras, quintilhas, sextilhas, decassílabos, versos alexandrinos. Cabe ao fadista encontrar uma letra nova para aquele fado, mas o fado já foi cantado milhentas vezes”, indicou.
Pedro Moutinho quando trabalha num disco procura perceber que fados tradicionais estão a ser gravados por outros colegas para seguir um caminho mais diferente. “Porque as pessoas não conseguem distinguir, no fado tradicional, se é uma música nova, quem sabe distinguir isso são os fadistas e os amantes do fado, aquela gente que há já muitos anos consome”, referiu. O fado cigano que incluiu no último disco é exemplo disso.
O concerto que hoje apresenta inclui canções como “Alfama”, “O Fado em Nós” e “Rua da Esperança”, acreditando Pedro Moutinho que o público vai gostar. “Nem falo por mim, falo pela orquestra”. O concerto contou com dois a três meses de preparação, e tão cedo o fadista não conta regressar ao território. Mas gostaria que no futuro se voltassem a lembrar de si.
Fazer novo influenciado pelo antigo
Para as letras tem pessoas como Manuela de Freitas, Maria do Rosário Pedreira, a Aldina Duarte, a Amélia Muge a escrever para si. O fadista sente que antigamente havia muitos poemas em que se usavam sempre as mesmas palavras, mas que teve pessoas como Manuela de Freitas a apresentar-lhe uma linguagem diferente, como no ‘sem sentido’. “São pessoas que escrevem para os tempos de agora e eu gosto disso. Mas também gosto do passado. Como o Vasco Lima Couto, o “se me dão a solidão” é um poema que deve ter à volta de 30 anos, que é uma coisa muito antiga”. Antigo, não velho.
Nasceu num contexto de influências familiares, frequentando assiduamente os espaços de fado junto dos pais e dos irmãos, Camané e Hélder. Um ambiente que lhe permitiu “aprender com os melhores”, fazer questões, receber recomendações quando errava, e ter o irmão mais velho por perto, que continua a considerar ser “dos melhores fadistas de sempre”.
Foi rodeado desse contexto que começou a treinar a dicção, divisão e como contar a história dentro da melodia. “Tive essa oportunidade de aprender com os melhores daquela época. E depois é ouvir muita coisa para criar um estilo, um timbre, um feeling. O estilo cria-se a ouvir vários. Foi isso que fiz e continuo a fazer. Continuo a evoluir de uma maneira positiva, sempre a aprender com os meus colegas”, frisou. O seu objectivo é claro, ser fiel a si próprio e não fugir às suas convicções, continuando a crescer no meio do fado.



