O Governo anunciou medidas de redução de garrafas e outros plásticos descartáveis, através da instalação de bebedouros em espaços públicos e campanhas de sensibilização em colaboração com estabelecimentos locais de comida e bebida. À TRIBUNA DE MACAU, os activistas Annie Lao e Joe Chan mostraram-se satisfeitos com o passo em frente, mas consideram é preciso fazer mais em termos legislativos

 

Salomé Fernandes

 

A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) anunciou uma série de políticas com vista à redução do uso de plástico descartável em Macau, sobretudo através de campanhas de sensibilização. Entre as medidas, encontra-se a instalação de bebedouros em espaços públicos do território para diminuir a compra de garrafas de plástico, segundo indicou a Lusa. Apesar de felicitarem a iniciativa, activistas ambientais apelam à criação de medidas legais vinculativas.

“Gosto da ideia das fontes de água, é boa, porque permite às pessoas usarem a sua garrafa reutilizável em vez de comprarem mais garrafas de água do supermercado. Mas espero que mais seja feito”, comentou a activista Annie Lao à TRIBUNA DE MACAU.

De acordo com a chefe do Departamento de Sensibilização, Educação e Cooperação da DSPA, a instalação a título experimental de um bebedouro no recinto do Festival de Gastronomia, que decorreu este mês, “fez poupar 4.400 garrafas de água”. Ieong Kin Si recordou ainda que se está a proceder à legislação para a imposição de uma taxa ao uso de sacos de plástico.

No final de Dezembro, as autoridades vão lançar a actividade “A vida sem plástico é muito fácil”, em colaboração com associações e uma aplicação de encomendas que colabora com cerca de 1.300 estabelecimentos. Durante seis meses esta campanha irá promover a sensibilização da população para o uso de utensílios de mesa ecológicos, nomeadamente de aço inoxidável, em vez dos habituais descartáveis. Quem aderir à iniciativa, por cada opção “verde” recebe um carimbo. Ao fim de dez, pode receber um conjunto de talheres de materiais recicláveis, indicou ainda a “Macau News Agency”.

De acordo com a activista Annie Lao, as medidas adoptadas deverão encorajar as pessoas a reduzir o uso de plástico descartável em Macau, mas “mais deve ser feito” além das opções já tomadas por outras cidades, como Hong Kong. “Macau é o lugar onde gostamos de copiar as ideias dos outros, precisamos de tomar mais a iniciativa. Uma pessoa da DSPA disse que não podem banir o uso de plástico de uso único porque nenhuma outra cidade o fez. Sinto que Macau deve dar um passo em frente. (…) Banir o uso de plástico é o método mais efectivo”, defendeu.

Para além de o Governo estar “a dar passos de bebé” para solucionar a questão, as parcerias com empresas locais apenas tornam opcional que as pessoas optem por acções ecológicas, já que não há regulamentação legal para o efeito. “Não usar plástico ou utilizar materiais reciclados são apenas opções. Precisamos de o tornar obrigatório. Na Europa já anunciaram que em 2021 será banido o uso de plástico descartável, mas em Macau não temos isto”, lamentou.

Para Annie Lao, não se pode esperar mais, dada a gravidade da poluição provocada pelo uso de plástico a nível mundial. “Nós podemos ser melhores. Se temos dinheiro para o fazer, porque não?”, questionou, apelando a maior proactividade.

 

Adaptação às mudanças

De acordo com o Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2017, da DSPA, a quantidade de resíduos sólidos urbanos por dia ‘per capita’ foi de 2,16 quilogramas, um aumento de 2,9% em relação a 2016. No total, em 2017, Macau gerou 510.702 toneladas de resíduos sólidos urbanos.

“Apreciamos todas as políticas do Governo para reduzir a actual poluição avassaladora de resíduos de plástico em Macau”, disse Joe Chan, reconhecendo porém ser tarde comparativamente a outras cidades desenvolvidas. “Taxar sacos de plástico é o início, mas há muito espaço para melhorias em Macau. Talvez algumas pessoas sugiram que o custo de lidar com um saco de plástico seja superior a um dólar, mas dado que é a primeira vez a aplicar o princípio ‘poluidor paga’ na nossa vida diária, temos de deixar os cidadãos adaptarem-se às mudanças”, comentou.

Por outro lado, o activista instou o Governo a lançar uma investigação completa sobre a redução do uso de plástico com vista à criação de mais legislação num futuro próximo. Isto porque, no contexto actual, aponta para que menos de 5% dos resíduos sólidos municipais diários sejam sacos de plástico, estando os restantes resíduos de plástico, como garrafas de plástico ou embalagens de comida descartáveis, sem calendário previsto para serem abrangidos pelas taxas.

“Actualmente o maior enfoque da DSPA é encorajar os cidadãos através de diferentes tipos de incentivos ou subsidiar os comerciantes a usarem produtos biodegradáveis. Mas isto não pode ser a solução a longo prazo, já que a educação e a legislação são as duas únicas maneiras de mudarmos a cultura da nossa cidade. Em todo o caso, ficamos felizes por ver que se está a dar um passo em frente”, concluiu.