É hoje à noite que a União Islâmica de Hong Kong vai determinar, em função da lua, se o Ramadão tem início amanhã ou quinta-feira. A TRIBUNA DE MACAU falou com membros da comunidade muçulmana na RAEM para perceber as práticas que marcam este mês “sagrado” no calendário islâmico, e as resistências que enfrentam por parte de alguns empregadores relativamente ao direito da prática religiosa

 

Salomé Fernandes

 

À entrada da mesquita começam a adivinhar-se os tons dos lenços que tornam invisíveis ao mundo o cabelo e o pescoço das mulheres que aí entram para rezar. Uns mais discretos, emolduram o rosto em branco, rosa claro ou cinzento. Outros revelam-se mais vibrantes, com padrões de flores e amarelos vivos. Os corpos encobertos fazem com que os traços da cara se destaquem mais. Se parte do físico fica oculto, a personalidade das mulheres que se reúnem na tenda no domingo à tarde para rezar não fica escondida pela fibra do tecido.

Ao perceberem que a TRIBUNA DE MACAU queria saber mais sobre o período do Ramadão, que se aproxima, este jornal foi recebido com sorrisos, caixas de comida e garrafas de água, seguidos de um convite para integrar o grupo de dezenas de mulheres cujos pés descalços se juntam já no tapete colorido que serve de cobertura do chão da tenda onde oram. A maioria delas vindas da Indonésia. A maioria delas empregadas domésticas.

A primeira fase de leitura do Corão junta vozes num crescente que culmina em lágrimas. A língua é estrangeira mas a fé é palpável. Estendem-se lenços, apertam-se mãos e canta-se com um timbre alegre em que a voz ainda treme. No final da cerimónia, Sutastri, que pertence à Associação Islâmica de Macau, acede a falar, apoiada pela tradução de Novita quando o inglês lhe falha.

A preparação para o Ramadão é simples. “O corpo tem de estar saudável antes do Ramadão. E psicologicamente tentamos ser melhores, fazer com que o nosso coração não fique zangado tão facilmente, de forma a que o Ramadão entre mais facilmente no nosso coração”, diz Sutastri. Parte do objectivo do jejum é precisamente tentar controlar melhor as emoções. “Jejuar ajuda-nos a gerir a nossa raiva, o nosso coração, o corpo e a mente. Ajuda-nos a mantermo-nos calmos. É maravilhoso”, explicou.

Para acompanhar este período vêm três “ustadhs” a Macau, da União Islâmica de Hong Kong. No Islão, o “ustadh” é como um professor responsável por dar orientações religiosas. Não há nenhum localizado em Macau, pelo que o território vizinho dá apoio enviando um duas vezes por mês à RAEM, ao domingo da segunda e da quarta semanas do mês para acompanhar os fiéis.

Uma das principais práticas que torna o Ramadão conhecido é o jejum, embora Sutastri refira que se pode jejuar antes, “seja durante um mês ou apenas algumas vezes durante a semana”. Mas no Ramadão o jejum não é voluntário, é uma obrigação que começa com a alvorada e só é quebrado ao pôr-do-sol, por volta das 19h. Na mesquita há leitura do Corão até ao momento da quebra do jejum, sendo que a maioria das pessoas se reúne para oração conjunta aos domingos, dia de folga da maioria.

Sutastri

Novita acaba por também dar o seu testemunho. A jovem senta-se com os pés laterais ao corpo e um sorriso tímido, mas o inglês sai-lhe em tom firme. O seu trabalho é num restaurante, pelo que não precisa de pedir permissão aos seus patrões para jejuar. “Faço o meu trabalho, jejuo, e está tudo bem. Algumas delas [das empregadas domésticas muçulmanas] têm problemas com os chefes. Outras têm empregadores compreensivos durante o tempo do Ramadão”, diz, acrescentando “se as nossas amigas têm problemas por causa dos patrões não perceberem o Ramadão, o Consulado-Geral ajuda-nos”.

Em resposta à TRIBUNA DE MACAU, o Consulado-Geral da Indonésia em Hong Kong e Macau indicou que a filosofia do jejum e do Ramadão foi explicada no canal RTHK. “O vídeo foi colocado na  nossa conta de facebook e muitas empregadas domésticas mostraram-no aos seus empregadores. As empregadas domésticas apreciaram os nossos esforços em explicar isto ao público. Depois de verem o vídeo, os seus patrões finalmente perceberam porque é que enquanto muçulmanas têm de jejuar durante o Ramadão”, disse o Consulado.

Para além do vídeo, caso seja necessário o Consulado-Geral também escreve uma carta a pedir aos empregadores permissão para que as trabalhadoras possam ir à celebração do fim do jejum, o “El-Fitr”, que pode ser emitida em Indonésio, Cantonense e Inglês.

Mas se o Consulado-Geral indica não ter recebido queixas de trabalhadores migrantes quanto a restrições para praticarem a sua religião por parte dos empregadores em Macau, a comunidade denota que a tolerância pode não ser tão extensa quanto parece à primeira vista. “Precisamos de rezar cinco vezes por dia, mas alguns dos nossos patrões não deixam ou estamos muito ocupadas. Quando isso acontece rezamos menos vezes nas horas indicadas e rezamos depois para compensar”, indicou Novita. Quando questionada sobre como é ser muçulmana em Macau a jovem comenta ser “um pouco difícil”.

“Algumas pessoas não compreendem porque é que nos tapamos, porque é que passamos pelo jejum. Alguns de nós têm dificuldade em explicar aos outros os nossos costumes. Alguns amigos já me questionaram porque faço as coisas, e quando explico que fazem parte da minha religião perguntam-me porque é que a minha religião é tão esquisita. É muito difícil para mim quando dizem que a minha religião é esquisita sem a conhecerem”, lamentou.

 

Um Islão “flexível”

Fitriah Esposito já tinha estado em Macau enquanto cantora em complexos de hotelaria, mas saiu para trabalhar num cruzeiro e regressou há cerca de um ano. Já não canta regularmente por causa dos horários que a profissão requer, mas ainda o faz ocasionalmente, a pedido de amigos. Está em Macau indexada ao visto de trabalho do marido, que se converteu ao Islão poucos meses antes de casarem e vai passar pela primeira vez pelo Ramadão. Por vezes jejua em dias normais, à segunda e quinta-feira, mas a sede ainda representa um desafio em dias de Verão.

Começou a jejuar quando tinha nove anos, altura em que apenas começava depois do meio-dia. Aos 13 passou a cumprir o dia inteiro de jejum. Desde essa altura aproveita também “o mês sagrado” para perdoar, fazer caridade, ler o Corão e as explicações traduzidas do árabe para compreender melhor as passagens.

A crença é que praticar boas acções durante este período leva a maiores recompensas por parte de Deus. “Todas as semanas nos sentimos aborrecidos nalgum momento e durante o Ramadão temos um mês inteiro de prática para depois mais facilmente conseguirmos controlar isso”, comentou. Mas apesar de considerar a prática do jejum obrigatória a partir da adolescência, fez questão de indicar as excepções consagradas.

Fitriah Esposito

“As senhoras, durante o Ramadão, se tiverem o período não podem. Rezam depois do Ramadão acabar para compensar pelos dias em falta. Caso contrário fica fraca, não é saudável para o corpo. Por isso não precisa de o fazer. O mesmo se aplica a quem está doente”, comentou. “O Islão não é forte como se ouve nalguns países. Não é rígido, é flexível. Podemos jejuar quando estivermos melhor. Ou se estivermos sempre doentes podemos antes pagar, doando dinheiro a caridade”, sublinhou Fitriah.

Não só no jejum admite excepções. Fitriah por norma reza em casa, onde tem um quarto preparado apenas para esse efeito, e é fora da mesquita que nos encontramos. À chegada ao café aproxima-se de cabelos libertos de qualquer tipo de protecção. “É a diferença entre os muçulmanos indonésios e árabes. Na Indonésia não há pressão para usar ‘hijab’. Se quisermos usamos, caso contrário não. Eu ainda não me decidi a usar. Talvez um dia”, disse.

Espera um dia vir a sentir essa necessidade, mas de momento não é uma vontade que lhe venha de dentro, por isso recusa o véu islâmico. “Para mim, é melhor se a vontade vier de dentro de nós. Conheço quem use o ‘hijab’ todos os dias mas não rezam. E qual é o objectivo disso?”.

A sua opinião é firme: a decidir usar, é manter a prática. “Aceito que as pessoas o façam, mas antes de eu dar esse passo quero que a minha crença seja mais forte, seguir melhor as indicações da religião e depois então a vontade de usar o ‘hijab’ virá de forma natural. Para mim não é uma piada, não quero usar uns dias e tirar noutros.”

 

Doar o pouco que se tem

Outra das práticas durante este período é o “Zakat Fitr”, uma doação de caridade obrigatória e é pago por todos os que têm comida em excesso. Pessoas em abrigos não atingem o “Nisab”, o montante mínimo de bens para que a contribuição seja obrigatória. Mas as empregadas domésticas com salários que rondam as 4.000 patacas não ficam isentas.

“O ‘Zakat Fitr’ é obrigação para todos os que, como eu, têm dinheiro para comer hoje e amanhã. O resto do dinheiro é o suficiente para pagar o ‘Zakat’. Creio que todos aqui que trabalham podem pagá-lo, mesmo as empregadas domésticas”, disse Abdul Razak, Assistente Da’wah na União Islâmica de Hong Kong.

“Todos os dias podemos ver outras pessoas no mundo que não têm o que comer, embora nós tenhamos. No Ramadão, todos os muçulmanos, homens ou mulheres, sabem qual é o sentimento quando não conseguimos comer todo o dia. E isso significa que partilhamos sentimentos com eles. Por isso é que depois de quase 30 dias a jejuar damos o ‘Zakat’. Doamos dinheiro aos pobres porque sentimos também o que eles sentem”, explicou.

Este dinheiro, que por norma se situa nos 40 dólares de Hong Kong pode dirigir-se a qualquer causa. Pode ser entregue à mesquita ou a uma terceira pessoa em quem se confie para distribuir o dinheiro por quem dele necessita, mesmo que não esteja inserida numa estrutura institucional. Ou então pode-se entregar directamente o ‘Zakat’ aos mais carenciados. “O Islão é muito flexível. ‘Mou man tai’”, lança Abdul Razak.

Existem também outras formas de “Zakat” a ser pagas noutras alturas do ano, embora não tenham a mesma obrigatoriedade. A contribuição pode por exemplo, ser paga mensalmente, assumindo a percentagem de 2,5% do salário depois de excluídos os impostos. “Se toda a gente o fizer todos podemos ajudar pessoas pelo mundo”, frisou o líder espiritual.

 

Mesquita em prevenção de extremismo

O 18º artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos determina que “todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular”.

Se Abdul Razak considera que não é um problema haver empregadores que não deixam os seus trabalhadores jejuar por medo de que “morram por não comer ou beber durante o dia”, mas queixas que recebe pela impossibilidade de alguns muçulmanos fazerem pausa para rezar assume outros contornos. “Talvez precisemos de alguma sensibilização. Encontros com as comunidades locais para explicar que é um direito básico”.

Quando isso acontece, Abdul Razak recomenda que rezem à noite ou em condições diferentes das habituais. “Durante o dia podem fazê-lo enquanto realizam as tarefas de trabalho, como emergência. Podem rezar enquanto lavam os pratos ou limpam os quartos. Não devem ficar chateados com os empregadores, mas antes explicar-lhes devagarinho”, sugeriu.

As dificuldades ao culto alargam-se às próprias condições da mesquita. A falta de paredes torna o calor insuportável debaixo da lona que oferece resistência ao sol, ainda que nem por isso as mulheres deixem de se reunir para demonstrar a sua fé. Os homens têm direito a um edifício que compreende uma pequena sala de paredes brancas.

Abdul Razak

“Macau é um território muito rico, pode-se construir uma grande mesquita aqui e outra na Taipa. Todos os muçulmanos devem unir-se e fazer algo sobre isso”, comentou Abdul Razak. A sua maior preocupação é que a falta de um espaço com condições para reunir a comunidade em torno de encontros pacíficos crie dificuldades de segurança.

“Todos os dias ouvimos falar de terroristas islâmicos. Somos da Indonésia, a maioria de nós acha que o Islão é uma religião pacífica. Devíamos ensinar que o Islão é uma religião pacífica, não terrorista, não radical. Não quero que um deles ou mais conheçam pessoas nas redes sociais e os ensinem radicalismo e se transformem em terroristas. Não quero que isso aconteça em Macau, Hong Kong, nem em parte nenhuma do mundo”, alertou.

Para isso, o líder acredita que é necessário haver apoio em termos de estruturas. “Precisamos de facilitar encontros e reuniões comunitárias, onde os ensinamos a ser capazes de viver em conjunto com todas as pessoas do mundo, muçulmanos ou não”. Apesar destas considerações não mostrou ter conhecimento de casos de cidadãos em Macau a serem abordados por grupos extremistas. Trata-se de “prevenção”.

Em termos de instalações, para além da mesquita podiam-se criar mais salas de oração públicas. “Se houver uma sala de orações perto do edifício do trabalho não precisam de ir para longe e podem fazer tudo atempadamente, regressar ao trabalho sem pressa. É bom para o trabalho e para a pessoa”.

Há cerca de um ano, foi determinado que o projecto da Associação de Beneficência Mahometana para a zona do Ramal dos Mouros, que compreende uma mesquita e já foi discutido e aprovado pelos membros do Conselho do Planeamento Urbanístico, seria novamente avaliado pelas Obras Públicas. A TRIBUNA DE MACAU questionou a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes sobre o andamento da análise, que se limitou a responder “relativamente ao caso aludido, este encontra-se em fase de estudo complementar”.