Em Macau, os membros da Associação de Idosos, Deficientes Intelectuais e seus Familiares vivem num ambiente negativo e de vergonha, que os leva ao isolamento e até a tentativas de suicídio. O pedido de um centro de convívio, que possa unir todos os familiares e trazer mais valor e significado às suas vidas continua em suspenso e o Governo pede “paciência”. Além disso, as 43.000 patacas mensais de subsídio não são suficientes, quando contratar uma assistente social custa 20.000
Rima Cui
Com uma pequena sede na Zona Norte, a Associação de Idosos, Deficientes Intelectuais e seus Familiares tem 349 membros, dos quais 151 pessoas com deficiências mentais e 198 são pais idosos.

“Muitos membros não querem dar trabalho a outras pessoas e preferem não contactar com o mundo exterior, ficando por casa. Actualmente, 30% dos membros vivem em prédios sem elevadores e a maioria tem dificuldades de deslocação, por isso continuam a viver escondidos, presos num ciclo vicioso”, indicou Tou kuong Sang, director da associação, à TRIBUNA DE MACAU.
Os pais ficam cada vez mais velhos e os filhos, portadores de deficiências mentais, também envelhecem, mas mais rapidamente. Segundo referiram, um deficiente mental de 30 anos pode ter o estado de saúde de uma pessoa com 60 anos.
Há 27 anos, os responsáveis desta associação estabeleceram a Associação dos Familiares Encarregados dos Deficientes Mentais, que hoje reúne 1.300 membros.
Tou Kuong Sang recordou que, naquela altura, a sociedade discriminava fortemente os deficientes mentais. “Quando nos encontravam na rua, evitavam-nos e até nos insultavam. Diziam que tínhamos filhos assim porque tínhamos feito alguma maldade. Mas hoje em dia, a discriminação diminuiu muito, apesar de continuar a haver pessoas que nos evitam por medo”, partilhou.
O idoso salientou que os membros da associação vivem num ambiente psicologicamente negativo, em que as tentativas de suicídio não são raras.
A filha mais velha de Tou Kuong Sang tem 37 anos e até hoje não consegue controlar as necessidades fisiológicas. “Os meus amigos mostram o quão competentes estão com os filhos deles. Mas, quando penso em mim, já fico contente quando a minha filha não fez xixi nas calças, comeu todo o arroz ou não partiu objectos em casa. Só as pessoas que passam por esta situação é que percebem”, disse.
A seu ver, embora muitos assistentes sociais os tenham ajudado, não percebem as verdadeiras dificuldades das famílias.
Lao Mui Kuai, presidente da associação, tem um filho de 37 anos deficiente mental de nível grave. “Ele tem autismo, mas sabe desenhar, até ganhou um prémio, depois de se ter formado num centro. Não pára de se mexer, destrói muitas coisas, mas é meu filho”, salientou.
“O filho dela também limpa bem a casa. Eu, ainda não encontrei o talento da minha filha. Mas, quando come peixe, tira facilmente as espinhas”, acrescentou Tou Kuong Sang num sorriso. “Parecemos muito optimistas, mas não é verdade. Já estamos habituados. Choramos muitos anos, quase até morrer. Já passou a fase mais difícil, apesar de ser a mais longa. Os nossos membros vivem todos nesta situação, quando o ambiente se torna tranquilo, começam a sentir-se tristes”, referiu o director da associação.
“Às vezes, é difícil escolher entre um filho com deficiência mental ligeira, mas que destrói coisas, e um filho com deficiência grave, que vive mais tranquilamente. Claro que queremos que tenham menos problemas e sintam felicidade na vida, mas se calhar, ser deficiente grave não é assim tal mau”, disse.
Associação vive de doações
“Sabemos que o Governo tem de lidar com problemas de envelhecimento e de avançar com o trabalho passo a passo, mas muitos pais já não podem esperar mais. Em cada três meses, morre um membro. Acontece muitas vezes, um membro estar contente hoje e morrer logo a seguir”, frisou Cheong Lei Hong, vice-presidente da associação.
“Eu e o meu marido somos pacientes com cancro. O nosso dia-a-dia consiste em tomar medicamentos, dormir e pensar em morrer rapidamente. Mas, se tivéssemos um centro de convívio só para nós, pais idosos de deficientes mentais e os seus filhos, os dias que restam a todos nós ganhariam mais valor. O dinheiro não substitui conforto no coração”, sublinhou a presidente da associação.
Para darem a conhecer este pedido às autoridades, a associação tem-se encontrado com organismos oficiais. “Têm de esperar com paciência, ainda estamos à procura de um espaço adequado” tem sido a resposta do Executivo.
Depois de muitas tentativas, o Governo concedeu à associação uma sede, do género de um escritório, mas que obviamente não reúne condições para organizar actividades recreativas.
“Esperamos um dia ter um centro de convívio, onde a nossa vida tenha dignidade, onde possamos praticar exercício, dançar, desenhar, ler jornais, onde nos possamos abraçar para aquecer e conversar ao café, partilhando o que acontece com os nossos filhos sem sentir vergonha,”, sublinhou Tou Kuong Sang.
Neste momento, para organizar actividades recreativas, a associação despende muito tempo à procura de um sítio, cuja renda seja razoável.
Embora o Governo subsidie a associação com 43.000 patacas por mês, a contratação de apenas uma assistente social já lhes tira 20.000 do bolso. Além disso, são necessários coordenadores e secretários. Sem a atenção prestada a outras associações de Macau, a Associação de Idosos, Deficientes Intelectuais e seus Familiares sustenta-se principalmente com as doações de “pessoas de bom coração”.
Uma experiência de casamento
A este jornal, a vice-presidente recordou o caso de dois jovens, tiveram um filho, embora um seja deficiente mental e o outro autista.
O bebé nasceu bem de saúde e sem qualquer deficiência, mas trazia muito trabalho à avó, pois os pais não tinham capacidade de cuidar dele. O Instituto de Acção Social interveio e a Associação Berço da Esperança passou a tomar conta da criança. Os pais visitam-na uma vez por mês.
“Os deficientes mentais normalmente não se casam, também não recomendamos este tipo de casamento”, salientou o director da associação.
A maioria das pessoas com deficiências mentais não conseguem trabalhar e, diariamente, os pais ajudam-nos com a higiene. Depois passam o dia, no centro para aprender técnicas básicas de vida e fazerem fisioterapia. Além disso, aprendem a desenhar e a fazer artesanato.
“Normalmente, uma pessoa precisa de dois a três anos para cuidar do bebé, mas nós fazemo-lo há mais de 30 anos. Os nossos filhos nunca vão crescer. Mas, penso sempre que, se calhar um dia, ela sabe cuidar de si mesma ou chamar-me papá, pelo menos uma vez”, rematou Tou Kuang Sang, com um brilho nos olhos.



