O Hospital Universitário da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (UCTM) apresentou um pedido ao Governo para entrar numa segunda fase de desenvolvimento, de forma a aumentar o número de camas e proporcionar mais serviços médicos. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Manson Fok, director do hospital, defendeu que o Governo ganhava em apoiar o desenvolvimento de turismo médico no território e que a criação de uma Faculdade de Medicina já tarda

 

Salomé Fernandes

 

-É visível a preferência de várias pessoas em irem a Hong Kong ou outros locais receber tratamento, por não confiarem nos serviços médicos em Macau. O que pode ser feito para mudar isto?

-É compreensível porque Hong Kong é acessível, tem um sistema de saúde de sete milhões, o que provavelmente é muito mais maduro. Mas tenho visto que ao longo dos anos os serviços médicos em Macau têm vindo a recuperar terreno. A confiança na qualidade dos serviços ainda é a razão principal pela qual ainda há utentes a irem a Hong Kong. Penso que a comunicação é muito importante, porque recebemos o ‘feedback’ de que os pacientes vão ao hospital e não têm a mesma relação qualidade-preço, não lhes dão o tratamento personalizado que sentem que merecem na era moderna. Os médicos têm de se focar a passar mais tempo a dar atenção ao utente. O problema é que agora está tudo mais computorizado e os médicos quando atendem um utente olham para o monitor do computador, inserem a informação, e o utente fica perturbado.

 

-Os médicos recebem formação depois de serem contratados pelo hospital?

-Damos-lhes treino contínuo porque sentimos que é importante. Em Macau não temos uma Faculdade de Medicina, por isso a maioria dos graduados são da China, e cerca de 75% vêm de apenas duas universidades no sul. O problema é que, ao contrário dos licenciados [em medicina] de todo o mundo, eles completam os estudos sem realizarem um estágio na China porque regressam a Macau. Não têm treino clínico, chegam cá e pedem uma licença para praticar medicina. Para mim é desconfortável. Vai-se dar uma licença sem [o médico] ter experiência real de cuidar de pacientes? Vemos profissionais que eventualmente se tornam muito bons médicos, mas alguns ainda não estão completamente preparados para terem essa experiência clínica sem treino. Por isso quando regressam a Macau é muito importante para nós dar-lhes essa formação. É por isso que temos tudo isto [equipamento]. Para que se um paciente de repente colapsar saibam todos os procedimentos a realizar. Não é suficiente aprender na sala de aula, é preciso aplicá-lo numa situação clínica simulada para que saibam como lidar com isso. O nosso propósito é criar cursos de formação em áreas importantes para que os médicos fiquem seguros e transmitam confiança aos cidadãos da RAEM. Macau evoluiu muito, é agora uma cidade internacional, vibrante, há muito expatriados a viver aqui com exigências não apenas ao nível do ambiente de trabalho e muitas vezes fazem perguntas sobre cuidados de saúde e educação para crianças. Por isso é um assunto importante. Infelizmente, como diz, muitos ainda pensam que conseguem melhor atenção em Hong Kong. Isso é triste porque penso que se prestarmos atenção e nos focarmos conseguimos melhorar muito os serviços em Macau.

 

-O que é que o Hospital Universitário da UCTM está a fazer para melhorar esses serviços?

-O nosso hospital é novo, só tem oito anos de idade, porque começou focado na vertente chinesa. Mas aos médicos que vêm trabalhar connosco damos um a dois anos de formação, com orientadores. Quem organiza estes cursos é o mais importante. Temos formações regulares em que trazemos profissionais de alta qualidade, por vezes do estrangeiro. Os orientadores treinam-nos em todas as necessidades básicas, tais como ferramentas de comunicação, cirurgia, ressuscitação… Apenas para os preparar melhor para que consigam tratar os utentes de forma independente. Alguns destes médicos, depois da formação, podem tentar ir para uma posição mais elevada no Governo, onde talvez sejam melhor pagos, mas não tenho problemas com isso. Pelo menos estamos a fazer a nossa parte em treinar os médicos. Mas fazemo-lo dentro dos nossos limites, porque o hospital é privado e não recebemos apoios do Governo.

 

-Mencionou que alguns médicos tentam passar para o público. É difícil recrutar médicos?

-Médicos jovens sim. Neste momento, todos os anos há cerca de 800 jovens a graduarem-se na China que regressam a Macau à procura de trabalho. Só alguns deles vão entrar nos grandes hospitais, como o público ou o Kiang Wu, pelo que temos os nossos candidatos. Naturalmente, escolhem grandes hospitais porque é onde vêem mais pacientes clínicos, aqui temos um número limitado de camas e de instalações. Mas somos mais voltados para orientação, sendo um hospital universitário, ao invés dos outros onde estão tão ocupados com utentes que não ensinam. Por isso, em termos de treino creio que podemos fazer um trabalho melhor. Mas eventualmente, se avançarmos para um programa de ensino ao nível da licenciatura, penso que todos os três hospitais se devem unir para fornecer o treino clínico para os futuros médicos.

 

-Gostava de expandir o Hospital?

-Sim, penso que há essa necessidade. Os utentes devem ter possibilidade de escolha. O hospital do Governo, como em todo o lado, penso que está sobrecarregado com serviços e alguns dos cidadãos que vão lá por vezes podem sentir que não têm o serviço que desejariam. Aqui estamos felizes porque sendo um hospital privado os utentes vêm, pagam pelo serviço, e para os nossos médicos é gratificante verificar que, mesmo pagando, o utente ainda agradece. Dá uma sensação de satisfação, porque para nós, os utentes são clientes de Macau, e se não fizermos um bom serviço não nos recomendam aos amigos. Para sobrevivermos precisamos de nos focar 100% em todos os serviços. Não digo que tenhamos já esse serviço, porque em Macau os cuidados hospitalares privados são relativamente recentes. Claro que temos o Kiang Wu, mas é um hospital com base em caridade, ainda serve na maioria pacientes subsidiados pelo Governo. Tem um foco diferente do nosso. Nós queremos oferecer um serviço que transmita confiança para que as pessoas sintam que não têm de ir sempre a Hong Kong para serviços de especialidade. Não sinto que o nosso trabalho seja apenas treinar jovens médicos. O nosso trabalho é assegurar que podemos dar aos clientes serviços de qualidade. Mas usamos as nossas instalações também para treinar jovens médicos, para que sintam que somos uma família pequena e queiram ficar.

 

-Tendo em conta que é preciso autorização governamental para disponibilizar serviços, como o transplante de órgãos, há alguma área em que queiram oferecer mais tratamentos mas que ainda esteja a ser ponderada pelo Governo?

-No geral fornecemos serviços nas maiores áreas. Ainda não temos obstetrícia e gostávamos de expandir aí, mas estamos muito limitados pelo espaço de que dispomos agora. Todas as camas estão cheias. O que gostaríamos, e já submetemos candidatura para isso, é desenvolver uma fase dois do hospital, para aumentar entre 200 a 300 camas, porque de momento não temos instalações para melhorar os nossos serviços. Por isso se o Governo conseguir ajudar à sua aprovação rápida penso que é bom para Macau. E aí teremos capacidade de alargar a algumas áreas. Falou dos transplantes – claro que sentimos ter a capacidade e especialistas para ajudar neste programa se o Governo precisar de nós, mas é uma decisão do Governo. No entanto, estamos a ajudar noutras áreas. Temos um centro de diálise com 40 camas que construímos trabalhando em conjunto com o Governo, onde fornecemos serviços a pessoas com falência renal.

 

-E quanto a urgências?

-Sendo um hospital privado não temos urgências de 24 horas, porque quando há um acidente a ambulância leva o utente directamente para o hospital público, ou talvez para o Kiang Wu. Mas os nossos utentes podem sempre contactar os nossos médicos se tiverem uma emergência. Se houver algo como uma apendicite os nosso médicos podem trazer um utente a meio da noite, não é um problema. Com o novo hospital penso que teremos um departamento “A&E” (serviços de acidente e emergência), porque vai ser suficientemente grande. Mas, de momento, as instalações são demasiado pequenas.

 

-Tem recursos humanos suficientes, não apenas médicos mas também enfermeiros, para responder à procura da população?

-É sempre uma limitação que sentimos que devemos melhorar. De momento o rácio médico-utente é muito alto, é preciso muito pessoal. Para melhorarmos os serviços queremos aumentar esse rácio, mas é também por isso que queremos aumentar o número de camas. Infelizmente ficamos limitados porque o número actual só nos permite ter um determinado número de médicos e enfermeiros.

 

-O hospital público não pode dar vacinas a quem não seja residente, e por vezes trabalhadores não residentes. Quando há crises, sentem o aumento da procura?

-Definitivamente, mas também estamos limitados pela quantidade de vacinas que podemos obter dos fornecedores principais. Quando há uma escassez é universal. Esta é outra área para a qual devemos olhar. Por exemplo, a gripe, influenza, é um grande risco de saúde. Não apenas para Macau mas para a área da Grande Baía. Todos os anos há pessoas que ficam gravemente doentes e isso consome muitos serviços hospitalares, como os cuidados intensivos. A prevenção, como sabemos, é sempre a melhor vacinação. Temos de nos questionar se estamos realmente preparados. Todos os anos há falta de vacinas, e penso que quando isso acontece e as pessoas se começam a queixar, o Governo tem de pagar muito para ter acesso a mais vacinas. Não dizem quanto, mas certamente que sim. E todos os anos é o mesmo. Se virmos as indicações da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre as vacinas sazonais, prevêem que há 50% de hipóteses de não resultarem em nós. Porque fazem uma avaliação mundial e nesta parte do hemisfério não é igual, a vacinas não fazem efeito 50% das vezes. É por isso que a vacinação não tem sido popular. E quando há necessidade, há sempre escassez. Vamos aceitar isto como tudo o que podemos fazer, ou podemos melhorar? Penso que há uma maneira de fazermos melhor e de Macau estar envolvido.

 

-E que maneira é essa?

-Estou a trabalhar com cientistas de topo nesta parte do mundo, tais como o chefe de microbiologia no Hospital Queen Mary, em Hong Kong. Macau tem investigação limitada, mas possui outros recursos. E descobrimos que eles (a sua equipa de cientistas) têm a capacidade de produzir uma supervacina, que mesmo que tenha uma margem de desvio que se preveja errada, ainda cobre 95%. Para além de que pode ser administrada de formas menos convencionais. As pessoas com maior tendência a contrair influenza são as crianças e os idosos, e eles não gostam de injecções. Nós podemos vacinar através de spray nasal, por exemplo, e funciona. A tecnologia existe, precisa é de patrocínio do Governo para ser desenvolvida num produto que possa ser dado aos cidadãos. Os EUA no ano passado deram, penso, 30 mil milhões às empresas principais para desenvolverem vacinas. É da responsabilidade do Governo garantir protecção suficiente para os cidadãos. E se não a têm, como agora, devem procurar soluções de forma proactiva para assegurar que no futuro existe. Temos tecnologia única disponível a ser desenvolvida, é um esforço colaborativo na área da Grande Baía, estamos todos a trabalhar para que aconteça. Aqui não temos a ciência mas temos os recursos. Se os desenvolvermos podemos aproveitar o sucesso e beneficiar os nossos cidadãos. Simplesmente não estamos a prestar atenção suficiente para endereçar estas necessidades médicas que estão por responder. Há infecções e cancro por aí, mas se colocarmos recursos a apoiar estes programas penso que veremos o retorno não em 10 anos, mas em apenas dois ou três. E isto é algo de que nos podemos orgulhar, sendo parte da Grande Baía. Podermos fazer isto acontecer provavelmente tem relevância mundial.

 

-Quanto é que esse investimento custaria?

-Como disse, os EUA deram 30 mil milhões. Realisticamente as vacinas caras não geram dinheiro às empresas privadas, por isso deve ser um programa apoiado pelo Governo. Penso que na Grande Baía há recursos suficientes para isso. Mas, surpreendentemente, diria que para desenvolver todo o programa seriam necessários cerca de 30 a 50 milhões dólares americanos.

 

-Espera que haja mudanças com a integração de Macau no projecto da Grande Baía? Qual vai ser o impacto a nível da medicina?

-Macau tem de assumir um papel importante no desenvolvimento de serviços de saúde na Grande Baía. Temos tentado por vários anos desenvolver um sector de saúde como uma segunda indústria de Macau, complementar à indústria do jogo, por se criticar que a região tem apenas um foco e é preciso diversificar. Educação, conferências, turismo e tecnologia médica, podem todos ser integrados em Macau para atrair mais pessoas a virem e ficarem no território. No turismo médico as pessoas não vêm apenas 24 horas, ficam por uma ou duas semanas e trazem a família consigo. Mas para isso é preciso desenvolver um serviço de confiança de forma a que as pessoas queiram vir. Em Hong Kong não têm infra-estrutura para isso, todos os hospitais estão cheios. Em Macau temos a capacidade. No entanto, em todos os outros locais, como na Tailândia e na Índia, essa forma de turismo também é apoiada pelo Governo. Aqui a posição é que o turismo médico cabe aos serviços privados e não se utiliza o dinheiro dos contribuintes para o desenvolver. Mas se olharmos para a Tailândia, é um negócio multimilionário, é uma das principais fontes de receita. Têm melhores médicos do que nós? Não sei. Mas tem melhor organização e apoio governamental.

 

-A construção do Hospital das Ilhas vai mudar alguma coisa?

-Teria de se perguntar ao Governo qual é o foco do hospital. Do que sei é voltado para reabilitação de utentes. Espero que possa providenciar um serviço mais abrangente, mas para nós não será um problema. Ainda haverá pacientes a preferir um hospital público e outros a optar pelo privado. Desde que continuemos a melhorar os nossos serviços não há preocupações. O único ponto é se vamos poder ter a mão-de-obra que precisamos.

 

-Então acha que não vai ter impacto no número de utentes?

-Se os serviços públicos forem melhores e toda a gente quiser ir lá, claro que adorávamos que isso acontecesse. Só não queremos continuar a ver o número de utentes que vai para Hong Kong. Um paciente que precise de uma operação e vá para Hong Kong, talvez acompanhado pela mulher e com os filhos cá a precisar de alguém que cuide deles, percebe-se que é um distúrbio social muito grande. Se conseguirmos manter o utente aqui num hospital público ou privado é o mais importante para a economia, há que criar essa confiança. E não temos assim tanto tempo para o fazer. Com a abertura da ponte é fácil ir para Hong Kong e se toda a gente começar a sair não temos espaço para melhorias ou expansão.

 

-Ao nível dos direitos da comunidade LGBT, uma das questões que se coloca é a impossibilidade de pessoas com disforia de género realizarem cirurgias de mudança de género em Macau. O sistema privado poderia suprir esta falha?

-Penso que a questão é se temos os especialistas para isso, porque não é apenas uma cirurgia, é todo um pacote de serviços de que se necessita antes e após o procedimento cirúrgico. E é preciso ser integrado nos serviços que existem entre a sociedade, como o apoio psicológico e serviços sociais. Para além desse exemplo específico, o Governo gasta suponho que perto de mil milhões para enviar cidadãos de Macau a Hong Kong e à China Continental para realizarem procedimentos [variados] como cirurgia cardíaca. E são cobrados como pacientes privados, é um custo muito elevado para Macau todos estes anos. Acho que o mais importante é como treinar os nossos médicos a tornarem-se especialistas para que as pessoas não tenham de sair.

 

-Mas esta cirurgia não recebe contribuição governamental…

-Não tenho conhecimento de fundo neste assunto, mas sei que não é simplesmente uma cirurgia, por isso é preciso uma equipa madura para acompanhar o utente durante todo o processo.

 

-O Hospital Universitário foi criado tendo por base uma maior componente da medicina tradicional chinesa, com uma Faculdade desta prática. Devemos olhar para a medicina chinesa e ocidental como opções distintas ou complementares?

-Creio que complementares. O Hospital começou com foco na medicina tradicional chinesa (TCM, na sigla inglesa) e agora é mais ocidental. Tentamos integrar o serviço de TCM porque há áreas em que faz realmente a diferença. Por exemplo, se uma pessoa tiver alergias de pele, na medicina ocidental o tratamento reduz-se a esteróides. E os efeitos secundários são conhecidos. A TCM é mais à base de equilibrar os desequilíbrios internos do organismo, está demonstrado que ajuda. É uma moduladora da imunidade, que também deve ser integrada noutros campos como a oncologia. Porque nos tratamentos ocidentais de quimioterapia e radioterapia há um ataque ao sistema imunitário, e é preciso as pessoas terem um bom sistema imunitário para lutarem contra o cancro. Por isso, a TCM ajuda a equilibrar os danos que os tratamentos causam. Também já se provou que ajuda no controlo da dor, como na menstruação. Desde que seja com base em evidência, é bom termos esta oferta como parte do nosso portefólio. Quando a medicina ocidental tem défices, a TCM intervém para ajudar.

 

-Registam-se em Macau casos de poluição do ar, contaminação das águas, entre outras questões ambientais. Quais são os principais riscos de saúde para quem vive cá?

-Se olharmos para os riscos de saúde e as estatísticas de mortalidade, é basicamente o mesmo que noutras regiões. Não creio que tenhamos problemas únicos que outras cidades grandes não tenham. O cancro ainda é a principal causa de morte, seguido das doenças cardiovasculares. Estão em causa não apenas os factores ambientais mas um estilo de vida saudável e o risco genético. O Governo está a ajudar, promovendo que não se fume, mas a chave é a prevenção, que precisa de ser mais desenvolvida. Enquanto médicos estamos treinados a tratar doenças, e prestamos pouca atenção à prevenção. Mas em termos mundiais já não é preciso estar doente para ver um médico, se uma pessoa estiver preocupada pode apenas procurar soluções ou conselhos. Mas onde se pode obter isso em Macau? Ao nível da prevenção há uma oferta limitada de programas e serviços. Devemos desenvolver um programa de prevenção mais abrangente para tomar conta dos nossos cidadãos.

Uma coisa que desenvolvemos e em que já fizemos um estudo preliminar, foi no rastreio genético de saúde. Há dois anos rastreámos os riscos genéticos de mais de 150 cidadãos. Basta recolher saliva e no espaço de duas semanas temos um relatório em que se analisam os riscos de desenvolver 50 doenças, das quais 30 tipos de cancro, e Alzheimer. É informação que o utente queira ter ou não? Ter risco não é sinónimo de vir a ter a doença. Achamos que saber ajuda porque o impacto ambiental tem uma influência de cerca de 50%. Se souber que tenho esse risco, posso mudar o meu estilo de vida de forma a baixá-lo. Por exemplo, o cancro do cólon é muito comum mas não é eficiente fazer rastreios a toda a gente. Se um utente tiver risco genético podemos focar-nos nessa pessoa. E se estiver nos seus 20 anos, sabendo que tem este risco acrescido e que a doença só se desenvolve por volta dos 50, o que vai fazer com esse tempo? A ciência prova que ao tomar uma combinação de produtos como magnésio, aspirina e antioxidantes o risco de cancro do cólon baixa. Saber a predisposição genética, permite ter suplementos personalizados para ajudar a reduzir o risco. É uma tendência global e Macau ainda não começou a fazer isso.

Fizemos este estudo que foi publicado na revista de topo, Nature. É um produto que fizemos em Macau e não se sabe de outro artigo clínico a ser publicado nessa revista científica. Mas a informação tem de ser dada por um médico, porque será assustador se for dada directamente ao utente. Em 50 doenças, a probabilidade de risco para uma ou duas é muito alta. Por isso temos um médico treinado para explicar quais os estilos de vida adequados e que ter o risco não torna garantido que se tenha a patologia, mas é algo de que a pessoa deve estar ciente. É ciência de fronteira, mas se olharmos para todo o pacote de desenvolver turismo médico, iria ajudar Macau a desenvolver-se e a ter mais visitantes a ficar. É preciso todo um programa de tecnologia médica nova que não seja apenas para exames de rotina que podem fazer em casa, há muitas áreas que podemos desenvolver.

 

-O que acha da possibilidade de se criar uma Faculdade de Medicina em Macau?

-Há muito que tarda. Se perguntarmos às pessoas na rua se merecemos médicos com melhor treino dirão que sim. Não acredito que custe muito. Falei dos problemas que temos com os graduados da China, como os problemas de comunicação. Quando dizemos que os expatriados não falam nos mesmos termos, e não me referi apenas à língua mas aos termos de medicina, até os nomes dos medicamentos são diferentes. Devemos focar-nos num nível de treino mais internacional. Eu preferiria uma Faculdade de Medicina em que todos fossem ensinados em inglês, para que fossem proficientes em ambas as línguas. Se tivermos uma escola de medicina devemos treiná-los num patamar mais elevado do que o ensino que recebem agora, caso contrário é um esforço em vão. No mínimo adoptar os padrões de Hong Kong, mas espero que ainda melhores. E devemos incorporar no currículo que passem entre três a seis meses no exterior, talvez nos EUA. Assim têm essa experiência, uma visão mais global da medicina, e são capazes de comunicar. O apoio tem sido tremendo. Temos imensos institutos internacionais a apoiar-nos, uma carta da Universidade de Lisboa a dizer que deve haver uma escola de Medicina em Macau. O Governo quer criar um hospital com 500 camas, nós um de 350 no espaço de alguns anos. De quantos médicos vamos precisar? Quantos especialistas? De onde virão? Se tivermos uma escola de medicina treinamos médicos e usamos os novos recursos disponíveis para permitir formações de pós-graduação aos profissionais de saúde de agora. Para começar a formar alguém agora até que se torne um especialista precisamos entre 10 a 14 anos. E é por isso que já devíamos ter criado a escola há 14 anos. Não podemos esperar.

 

-E acha que deve ser integrada na UCTM?

-Mostrámos nos últimos anos que somos sérios no que toca à formação médica, dispomos de um avanço para o fazer. E temos o apoio internacional. Gostaríamos de ser parte disso.