Relatos a três vozes, de quem sente, cheira, ouve mas não vê. De quem nasceu assim, mas também de quem aprendeu a viver na escuridão e, acima de tudo, é feliz. Ser cego em Macau é viver sem preconceitos, sem julgamentos, sem superioridades. Mas é também encarar dificuldades, ultrapassar barreiras e tentar viver em comunidade. É perceber, na primeira pessoa e da forma mais verdadeira que o essencial é invisível
Catarina Almeida
És “malcriada”, diziam os pais. Sempre que a chamavam, o rosto direccionava-se no sentido errado. A “teimosia” de Sin I Lam começou a ser de tal forma evidente que os pais procuraram respostas nos hospitais. Sin I Lam tinha seis anos. Hoje tem 27. “Já nasci com os problemas de visão, mas a minha família não reparou”, conta.
Anos a fio sem um diagnóstico que justificasse tamanha “malcriadez”, Sin I Lam ouviu os médicos que, infelizmente, “nada descobriram”. No hospital público, a justificação não apareceu. Idem aspas no Hospital Kiang Wu, tanto que “foi preciso ir a Hong Kong”. “Mesmo lá suspeitaram de qualquer coisa só que tiveram de pedir a um especialista para confirmar o problema”, relembra Sin I Lam, entretanto diagnosticada com uma doença ocular para a qual “não há cura”, explica, com um tom de resignação.
Enquanto relata a sua história, tem sempre no rosto um sorriso pintado. Hoje, tem a visão limitada a metade do olho. “É mais difícil focar”, explica, enquanto faz conjuntos de missangas, brancas e vermelhas que ganham a forma de um dos seus passatempos. É também um dos entretenimentos nas muitas horas diárias que passa no Centro de Reabilitação de Cegos da Santa Casa da Misericórdia de Macau (SCMM), que tem em exposição os vários trabalhos que amorosamente fez questão de nos mostrar. “Quem diz que não trabalho?”, afirma, em tom de brincadeira, mas com uma seriedade disfarçada.
Sin I Lam foi mãe aos 22 anos. Tinha conhecido há pouco tempo o homem – com quem acabou por casar – e pai da sua filha. Um casamento de pouca dura, já que a separação foi inevitável. Única invisual nessa relação, ficou com a guarda da criança – na altura com apenas um ano de vida. “Não tenho contacto nenhum com o pai da minha filha, a não ser o facto dele dar dinheiro para ajudar, mas não demonstra grande interesse”, refere, acrescentando que “ele arranjou outra [mulher] na China com quem também teve uma filha”.
Um amor partilhado a duas, entre mãe e filha, numa casa onde vivem sozinhas. Um tecto, numa habitação pública, que lhe dá as condições para viverem, em segurança. Infelizmente, nem sempre foi assim. Quando soube que estava grávida pediu abrigo a uma amiga, porque, mal a criança nasceu, o companheiro deixou-a. Ficou desamparada. “Acabei por ficar em casa de uma amiga que, entretanto, conseguiu trazer o marido e os filhos para Macau. Tive de sair”, recorda.
Forçada a não trabalhar
Depois de ter a filha, Sin I Lam viu-se “obrigada a deixar de trabalhar”. Uma decisão tomada não por querer (sobre)viver dos subsídios do Governo mas porque ser mãe e invisual, ao mesmo tempo, é uma equação difícil de fazer. “As medidas não são encorajadoras”, critica.
Em Macau, o subsídio de invalidez é concedido anualmente, numa única prestação, entre 8.000 a 16.000 patacas, dependendo do grau de deficiência. “Se trabalhar perco o subsídio de invalidez, quer dizer, deixo de ser cega é?”, salienta Sin I Lam, actualmente a residir numa habitação pública que muito esperou para conseguir.
“Fiz o pedido em Agosto de 2013, mas só em Maio de 2016 consegui uma casa para mim e para a minha filha. Até lá, tive de viver em casas ilegais”, justifica. Por casas ilegais, entenda-se também armazéns. “Acabei por viver, durante uns meses, num armazém onde pagava mais de duas mil patacas por mês. Era dentro de um beco, numa zona muito barulhenta, mal frequentada e tinha medo”, confessa.
Ainda que tenha nascido em Macau, foi em Cantão que estudou. Uma opção da família perante um cenário escolar pouco motivador no território. “Não havia ensino especial e tive de ir para uma escola de ensino regular. Cada turma tinha 50 alunos! E, claro, as notas não eram grande coisa”, lamenta. “A professora não tinha tempo para me dedicar especial atenção”. Mais tarde, no ensino secundário, com os problemas visuais a piorarem, as dificuldades caminhavam a passo largo. “Tinha de usar uma lupa que praticamente ‘cheirava’ para [conseguir ler e ver melhor”, recorda, citando as duras mas sinceras palavras da professora.
Sin I Lam gostava de álgebra e mostrava curiosidade pelos mistérios das ciências. Era nessas disciplinas que encontrava a vontade de querer saber mais e mais. Mas, a realidade veio ao de cima. “Para que lês álgebra e ciências se isso não te vai servir para nada? Lê coisas que te ajudem à visão” – as palavras, duras, serviram de “chamada de atenção”, uma espécie de impulso que a levou a terminar o ensino secundário e a tentar uma garantia profissional.
“Ainda em Cantão entrei numa escola de ensino técnico-profissional onde aprendi acupunctura e massagens terapêuticas e depois comecei a trabalhar”, conta. Foram dois anos de estudos, e um de estágio. “Tinha menos de 18 anos mas consegui trabalhar porque na China não são tão rigorosos”, afirma, tecendo comparações com Macau – onde acabou por tentar a sorte, já formada e com experiência dada. “Tentei regressar em 2009 mas não me adaptei. Não tinha nada cá na altura: nem infra-estruturas de apoio [neste caso a cegos] nem casa. Pelo contrário, na China, os empregadores apoiam com casa e comida. Aqui não tinha isso”.
Ainda assim, três anos depois, estava de malas feitas para a terra onde, afinal, nasceu. “As condições já eram melhores, até estava a trabalhar e a descontar para o Fundo de Segurança Social”. Só que, com o nascimento da bebé, viu-se forçada a abandonar o emprego onde fazia massagens terapêuticas e acupunctura porque “estavam sempre a chamar-me da escola”.
Até aos 20 anos, era tudo a cores
Muitos, como Sin I Lam, encontram no Centro de Reabilitação de Cegos uma família, sobretudo quando vivem sozinhos, num mundo que só eles conhecem. Ou mesmo quando têm uma estrutura familiar saudável, como Kit.
Ao contrário de Sin, Kit conhece as cores e formas. Perdeu a visão há mais de 20 anos, vendo-se forçado a reaprender a viver o quotidiano e a ultrapassar barreiras na escuridão. Hoje tem “27 mais 20 anos”, como prefere dizer, revelando um sentido humorístico que também o ajudou a vencer esta forma de estar na vida.
“Comecei a perder a visão aos poucos. Foi enfraquecendo a partir dos 20 anos”, começa por explicar, depois de pôr em pausa o videoclip que ouvia na sala de informática, um dos seus espaços preferidos. Ora porque lhe permite usar os computadores, conversar ou participar noutras actividades que preenchem o seu dia no Centro de Cegos – espaço que conhece há quase duas décadas – como, por exemplo, tricotar ou tocar guitarra.
Costuma chegar ao Centro por volta das 08:00, já com o pequeno-almoço tomado em casa, onde vive com os pais. Hoje, esta rotina está bem enraizada, mas Kit reconhece que no início da cegueira “a parte mais difícil era sair de casa”. Porém, o choque acabou por não ser muito grande até porque já viveu sozinho. “Ia ao mercado e cozinhava sozinho”.
Para almoçar, vai à rua, com ou sem os amigos do Centro. É que também há uma vida além desse espaço da Santa Casa, como bem fez questão de frisar, ainda que o sinta como uma “segunda casa”. “Venho todos os dias e sem o Centro a minha vida seria muito monótona. Temos alguém semelhante a nós com quem conviver”, diz, transparecendo ternura.
Nascer cego é não sentir mais brutalmente a perda. A perda do olhar, de ver quem se ama e de ver sem depender de outrem. Mas, para Kit, viver com a cegueira permitiu-lhe descobrir e ser a pessoa que é hoje. “É uma forma de ser que me ajudou porque, tendo só a quarta classe, provavelmente estaria a trabalhar nas obras ou seria um ‘bandido’”, reconhece Kit que “vê no computador”, como faz questão de frisar, “uma janela para o mundo”.
De voluntário a psicólogo
A doença nasceu com ele. “Os meus pais levaram-me a consultas a Hong Kong e China para que fosse sujeito a tratamentos. Gastaram quase um milhão de dólares de Hong Kong e fui sujeito a uma cirurgia que, infelizmente, falhou”, recorda Eric Leong. “No início ainda conseguia ver algumas cores e formas, mas depois da operação deixei de ver completamente. Foi então que regressei a Macau”.
Eric está na “casa dos 30”. É licenciado em Psicologia pela Universidade de São José (USJ) e trabalha no Centro desde 2012, depois de se ter voluntariado, era ainda adolescente. “Já conhecia alguns membros do Centro desde os meus tempos de primária mas nunca tinha visitado as instalações. No ensino secundário comecei a ir ao Centro para ensinar os utentes a lidarem com os computadores. Era voluntário”, explica.
Quando já estudava já na USJ, começou a dar aulas de guitarra, informática e, mais tarde, braille. A partir daí, a relação e a proximidade com as pessoas e com o Centro foi-se desenvolvendo, muito naturalmente. Hoje, é um apoio essencial. Ao mesmo tempo, como reconhece, o Centro deu-lhe também garantias e perspectivas de futuro que, talvez, não surgissem de outro modo.
“Por volta de 2011, já estava na recta final da minha licenciatura em Psicologia, perguntaram-me que perspectivas tinha para o futuro, se tinha algo em mente ou esperanças de arranjar um emprego em Macau”. “Na altura, confesso, respondi apenas que ‘não tinha qualquer ideia’ porque em Macau, infelizmente, é muito difícil encontrar empregos disponíveis que aceitem invisuais ou pessoas com deficiências visuais”, lamenta. “Isto porque as pessoas acham que nós, cegos, só entendemos as pessoas que são iguais a nós…”, critica.
Devido a essa falta de sensibilidade, a vontade de aproximar os dois lados – o visual do invisual – é uma constante no discurso de Eric, bem como na forma como também encara o seu trabalho. Sendo psicólogo, invisual, e tendo amigos dos dois lados, a tarefa poderia ser mais fácil. “O meu objectivo é garantir que a sociedade em geral perceba que os invisuais são também uma parte dela. Temos de ser parceiros, da mesma forma que a cultura portuguesa faz parte da nossa sociedade”, defende.
Além disso, “os invisuais têm também de ser mais confiantes e aprender técnicas básicas que os ajudem a viver em sociedade. Todos nós sabemos isso, só que há também uma realidade patente nas ruas que é perigosa. Há tantas coisas que acontecem e perante as quais temos de estar preparados, por isso é que a aprendizagem de viver em sociedade é importante para qualquer cidadão, independentemente das suas incapacidades”.
“Se nós, cegos, precisamos de aprender como andar normalmente e livres de perigo nas ruas, os outros também deveriam aprender a lidar connosco, a guiar-nos nas ruas se for esse o caso. Isso é muito importante”, vinca.
“Não podemos ficar no canto da cidade”
Ora está no escritório do Centro, a dar consultas ou em ensaios musicais. Com Kit, Wong, Ling e Kai, Eric Leong integra a banda “Focus”, que ensaia todas as segundas-feiras. Nessas horas não é só a cegueira que partilham em comum, é também a música – através da qual querem chamar a atenção dos outros, no sentido de que somos todos iguais, com ou sem incapacidades. Até porque, como sublinha, “não podemos ficar no canto da cidade”.
“O nome da banda foi uma sugestão da vocalista Ling. Ainda que focar esteja relacionado com a visão, para tentarmos ver algo melhor. Mesmo que não consigamos focar com os olhos e através da visão, podemos focar nas pessoas através da nossa música. Queremos também, com a nossa música, incentivar as outras pessoas a focarem-se em nós”, realça. Estabelecida em 2009, depois de um subsídio do Instituto de Acção Social, a banda actua em lares de idosos, escolas e outros eventos.
Mesmo que a música ajude a criar alguma normalidade, e tenha tido um papel no processo de adaptação, Eric reconhece que o caminho não é fácil, e há alguma dor pessoal que tem de ser ultrapassada. “É muito injusto. As pessoas que não sofrem de cegueira conseguem fazer tantas coisas e com facilidade… podem jogar futebol, e como eu adoro jogar futebol! Só precisam da bola e jogar com outros.. é tão fácil. Podem passear e namorar com tanta facilidade, e comprar presentes…”, afirma, com tristeza na voz que rapidamente transformou em positivismo: “Mas, ao passar por todos estes obstáculos, acabei por perceber que também tenho de agradecer por esta oportunidade porque, no fundo, é como encaro a vida e esta minha forma de ser e estar. Deu-me também a oportunidade de reconhecer e agradecer com mais profundidade. Este tipo de dificuldades obriga-me a ser mais organizado na vida”, aponta.
Marcas de uma infância difícil
A infância foi uma “parte importante” da vida de Eric. Não porque se fez de estórias “cor-de-rosa” e felicidade constante, mas por ter vivido momentos duros, de superação pessoal e de confronto com uma realidade que não estava preparada para o receber e entender. “Tinha cinco ou seis anos e, tal como uma criança normal, estava na altura de encontrar uma escola. Só que precisava de uma escola inclusiva que aceitasse, neste caso concreto, crianças com dificuldade visuais. Não existia sequer este conceito na altura, o que está a mudar porque felizmente já há escolas com turmas de crianças com necessidades especiais”, relata Eric Leong.
Após algumas tentativas frustradas, os pais “lá conseguiram encontrar algumas escolas que diziam oferecer ensino a crianças especiais”. Todavia, “quando perguntaram se podiam inscrever-me disseram que não tinham a experiência adequada para aceitar a inscrição”.
Até que apareceu a Caritas Macau. Na altura, o actual secretário-geral da Caritas, Paul Pun, estava a iniciar turmas de ensino especial com duas a três pessoas. Os professores, que aprendiam em Hong Kong, ensinavam técnicas básicas do quotidiano. “Lembro-me de estar na mesma turma com três ou quatro alunos. Vários anos depois, o senhor Paul Pun percebeu que não podíamos continuar assim eternamente, no sentido em que estávamos, de certa forma, colocados num “canto”, afastados da cidade e das pessoas. Nesse sentido, perguntou aos nossos pais se poderiam aceitar a nossa ida para uma escola de ensino secundário com outras pessoas”, indica.
Na altura, a ideia “era integrar-nos com pessoas normais, sem problemas de visão, para que a nossa integração na sociedade fosse acontecendo gradualmente, e também para que essas pessoas percebessem que há invisuais em Macau e que é importante viver em comunidade”, frisa.
Foi então que entrou nas salas de aulas da Escola São João de Brito, da Caritas, onde frequentou o ensino primário e secundário. “Foi um período interessante e entusiasmante da minha infância e adolescência”.
“Deparei-me com muitas dificuldades em aprender lá mas, ao mesmo tempo, conheci vários professores que me ajudaram a ultrapassar essas barreiras. Fiz muitos amigos, para a vida. Amigos com quem falo ainda hoje. Mantemos contacto, 20 anos depois. Também tivemos muitas namoradas (risos)”, recorda.



