O Chefe do Executivo de Macau sairá de Espanha com a porta aberta para a América Latina. Isso mesmo foi sublinhado pela segunda vice-presidente do Senado, na recepção oficial oferecida pelo Governo da RAEM. Apontando que, embora do ponto de vista comercial e económico as relações Espanha-Macau sejam “escassas”, Concepción Andreu Rodríguez defendeu que o “dinamismo económico” do território “oferece um enorme potencial”. Uma posição também manifestada pela subdirectora-geral para a Ásia, Europa e Oceânia no Ministério de Economia, Comércio e Empresa espanhol, Laura Jarillo Carrasco. Já Sam Hou Fai disse que Macau está disposto a promover o reforço das relações e amizade com Espanha, esperando que a cooperação possa dar “frutos mais abundantes”

Catarina Pereira Em Madrid

Espanha está aberta a ampliar a cooperação com Macau, bem como a ajudar o território a chegar mais longe. “Oferecemos-vos Espanha como porta aberta para a América Latina”, disse Concepción Andreu Rodríguez, segunda vice-presidente do Senado, ao discursar na recepção oficial oferecida pelo Governo da RAEM em Madrid. Antes do evento, Rodríguez manteve um curto encontro, à porta fechada, com Sam Hou Fai, que esteve acompanhado por mais de 20 representantes da delegação empresarial.

Na recepção, Rodríguez vincou que a relação do país com toda a América Latina e Ibero-América “é extraordinária”, unindo-os a mesma língua e a mesma cultura. “Utilizem, pois, a Espanha como ponte para a América Latina”, reiterou, acrescentando que espera que a visita do Chefe do Executivo de Macau assinale o início de “uma grande amizade”.

A visita de Sam Hou Fai à Península Ibérica teve como objectivo central reforçar o papel de Macau como “interlocutor de precisão” e plataforma de ligação entre a China e os países de língua portuguesa e espanhola. A intenção foi expandir a função histórica – que já exerce com a Lusofonia – para o mundo hispânico, tendo em conta as orientações do Presidente Xi Jinping.

Ao mesmo tempo, Rodríguez descreveu como “verdadeiramente admirável” o desenvolvimento científico e técnico das empresas chinesas, nomeando os sectores automóvel, especificamente os veículos eléctricos, mas também as baterias de última geração e “todo o avanço impressionante da tecnologia para as energias renováveis”.

Na semana passada, recorde-se, Xi Jinping recebeu em Pequim o Primeiro-Ministro espanhol, Pedro Sánchez, tendo manifestado o desejo de que ambas as partes aproveitem as oportunidades para impulsionar um desenvolvimento mais inovador, fortalecer a colaboração e alcançar novos avanços na parceria estratégica global. Já em Novembro do ano passado, o Rei Felipe VI realizou uma visita de Estado à China, tendo delineado, juntamente com Xi Jinping, uma orientação para uma parceria estratégica global capaz de firmar um avanço efectivo para a cooperação pragmática e para uma exploração conjunta de mercados terceiros, como a América Latina.

Em Madrid, e perante o Chefe do Executivo, Concepción Andreu Rodríguez vincou ainda que “é um verdadeiro orgulho para Espanha poder manter esta rica relação bilateral num momento tão significativo como o que estamos a viver”.

“Embora do ponto de vista comercial e económico as relações entre Espanha e Macau sejam ainda escassas, estamos convencidos de que esta vossa visita contribuirá para que as empresas espanholas conheçam melhor as oportunidades de negócio e de investimento que podem encontrar em Macau”, prosseguiu, apontando depois que o “dinamismo económico” da RAEM “oferece um enorme potencial”.

Rodríguez enalteceu depois o “fascinante Centro Histórico” de Macau, Património Mundial da UNESCO. Na sua perspectiva, este é um aspecto “importante, valioso e admirável do ponto de vista histórico e turístico”.

“Juntamente com a China, Espanha e Itália são os três países com mais locais classificados como Património da Humanidade no mundo. Espanha contribui com os seus 49 locais e monumentos para este legado, que ajuda a potenciar ainda mais algo que interessa a ambos os países, tanto a Espanha como à China e a Macau: o turismo, o turismo de qualidade”, sublinhou. Neste âmbito, indicou que Espanha pode partilhar formas de melhorar o turismo de desporto e cultural, que o país também tem vindo a desenvolver.

 

Trocas comerciais “modestas” mas com “grande potencial”

Antes, numa sessão de promoção de cooperação económica e comercial, a subdirectora-geral para a Ásia, Europa e Oceânia no Ministério de Economia, Comércio e Empresa espanhol, Laura Jarillo Carrasco, tinha manifestado a mesma posição. Saudando a iniciativa do Governo de Macau de alargar o foco preferencial dos países de língua portuguesa, abrangendo também os língua espanhola, vincou: “As nossas empresas têm fortes vínculos com a Ibero-América, o que as posiciona como parceiros potenciais na região para as empresas de Macau e da China continental, como as que os acompanharam nesta viagem”.

Laura Jarillo Carrasco observou depois que “as trocas comerciais com Macau são modestas, mas acreditamos que existe um grande potencial”. Citando dados de 2025, indicou que se contabilizaram 77 empresas espanholas exportadores e 16 importadoras regulares. “Além disso, contamos com importantes empresas espanholas, como a Loewe, a Zara ou a Mango, instaladas em Macau, que gozam de um grande reconhecimento por parte da população, bem como de uma relevante vocação de permanência”, observou.

Afirmou depois que a Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin “pode ser uma oportunidade para as empresas espanholas”, garantindo que Espanha está “muito interessada” em conhecer que vantagens oferece a zona. Além disso, sublinhou que valorizam os esforços de diversificação de Macau, acreditando que podem permitir “impulsionar a colaboração em áreas como o turismo”.

“Neste sentido, pensamos que a crescente integração entre Macau e a China Continental, no contexto da Grande Baía, gera economias de escala que transcendem o peso de cada uma das partes que a compõem. Sem dúvida, isto resultará no desenvolvimento de Macau e na sua atractividade para empresas internacionais, incluindo as espanholas”, frisou.

A mesma responsável defendeu que o acompanhamento institucional é hoje mais importante do que nunca, “devido ao contexto global cada vez mais complexo e incerto”. Segundo explicou, no caso de Macau, o Escritório Económico e Comercial de Espanha em Hong Kong é o que tem a competência sobre o território. “Este escritório oferece serviços personalizados às empresas, como a elaboração de relatórios de mercado, a identificação de parceiros potenciais ou a organização de agendas de reuniões”, enumerou.

Laura Jarillo Carrasco reiterou, por fim, o compromisso do Governo de Espanha com o “fortalecimento das relações económicas e comerciais com Macau”. “Estamos convencidos de que existe um caminho promissor a percorrer e de que a colaboração público-privada será fundamental para atingir os nossos objectivos comuns”, rematou.

 

“Dar um novo fôlego” à amizade

Na recepção que se seguiu e que contou com a presença de aproximadamente 300 convidados – incluindo do Embaixador da República Popular da China em Espanha, e personalidades do sector industrial e comercial -, Sam Hou Fai apontou que a visita à frente da delegação que o acompanhou constituiu não só uma viagem para promover a concretização dos consensos alcançados pelos chefes de Estado de ambos os países, como para explorar novas oportunidades.

Depois, assinalou que há mais de 400 anos, Macau “tem sido uma importante janela de intercâmbio e aprendizagem mútua entre as civilizações chinesa e ocidental, mantendo laços profundos e amigáveis com o Ocidente, especialmente com os países europeus, Espanha incluída”. “Estamos dispostos a dar um novo fôlego a esta amizade tradicional e profunda, a promover o reforço das relações de cooperação e amizade entre Macau e Espanha, que conduzam à aproximação entre os nossos povos e ao aprofundamento da cooperação prática em todos os domínios”, afirmou.

Observando que expansão proactiva da cooperação com os países de língua espanhola constitui uma orientação estratégica, Sam Hou Fai notou que Macau já estabeleceu a isenção mútua de vistos com Espanha, Argentina e Uruguai. Além disso, mencionou a criação do Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os PLP / Espanhola e a instituição do Fundo de Desenvolvimento Económico e Comercial, com um montante inicial de 1.000 milhões de renminbis.

Apontando para a delegação de 120 empresários que o acompanhou, o Chefe do Executivo fez votos de que possam reforçar o intercâmbio, estabelecer contactos e explorar novas oportunidades de cooperação nas áreas de turismo, convenções e exposições inovação da tecnologia e indústria verde. Sam Hou Fai endereçou ainda um convite para que visitem o Interior da China, Macau e Hengqin.

A concluir, desejou que “a amizade entre a China e Espanha perdure para sempre” e que “a cooperação entre Macau e Espanha em todos os domínios dê frutos mais abundantes”.

 

RAEM como “ponto de ligação” para relações Espanha-China

O Ministro dos Negócios Estrangeiros, da União Europeia e da Cooperação de Espanha, José Manuel Albares Bueno, disse que “Macau poderá, indubitavelmente, tornar-se num ponto de ligação importante no reforço contínuo do intercâmbio e da cooperação entre a China, Espanha e outros países de língua espanhola”. Durante um encontro com o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, afirmou ainda estar convicto de que a visita “trará oportunidades cruciais para aprofundar as relações de amizade entre os dois países”. Segundo um comunicado oficial, Albares Bueno realçou que, no futuro, Espanha pode reforçar a cooperação económica, comercial e turística com Macau. Manifestando o desejo de maior participação em diversos eventos internacionais nas áreas económica e comercial, em Macau, disse também esperar que os dois lados promovam mais visitas de alto nível e intercâmbios pragmáticos. Por outro lado, garantiu que a parte espanhola apoiará a RAEM na promoção da aprendizagem do espanhol, para formar mais quadros qualificados bilingues.

 

Elogiados recursos na área do ensino em turismo

Num encontro com Sam Hou Fai, a secretária-geral da Organização Mundial de Turismo das Nações Unidas (OMT), Shaikha Al Nuwais, afirmou que Macau “possui uma profunda herança histórica e cultural, bem como poderosas vantagens no impulso do desenvolvimento do turismo de alta qualidade”. Além disso, destacou que o território detém importantes recursos na área do ensino em turismo e referiu que, nesta “boa base”, a OMT e a Universidade de Turismo de Macau (UTM) já desenvolveram múltiplos projectos com “resultados contínuos”. Shaikha Al Nuwais disse ainda que, no futuro, ambas as partes poderão aperfeiçoar ainda mais os mecanismos de cooperação, contribuindo para aumentar o nível geral de ensino de turismo mundial. O Chefe do Executivo e a secretária-geral da OMT falaram ainda sobre temas como a formação de quadros e a expansão de mercados internacionais.