A escritora espanhola Rosa Montero foi uma das convidadas para a primeira sessão da Rota das Letras. Falou dos avanços das conquistas dos direitos das mulheres, e revelou que ainda tem as primeiras histórias que escreveu, quando tinha apenas cinco anos
A primeira sessão de debate do Festival Literário foi “O Pessoal é Político”, uma conversa entre Rosa Montero e Ana Margarida de Carvalho, moderada por Sílvia Gonçalves, sobre os direitos das mulheres e as dificultadas das autoras no mundo da escrita.
Rosa Montero, escritora espanhola que conjuga a escrita de ficção com o jornalismo, acredita que “a política real passa sempre pelo pessoal”, e que apesar de os livros não servirem para serem feministas ou ecologistas, “o personagem é político”. “Mas, os romances não servem para isso. É um caminho de conhecimento. Não se escreve o que se sabe, escreve-se o que não se sabe, para aprender. Não se pode começar esse caminho de conhecimento levando respostas prévias”, afirmou.
Quanto ao machismo, sentiu-o sobretudo durante a ditadura de Franco, quando a mulher casada não podia trabalhar ou comprar um carro sem autorização do marido. Agora, que considera estar a fazer-se um “caminho vertiginoso” na direcção da mudança no mundo industrializado, acredita que “no último ano foi importantíssimo porque estamos a fazer uma pequena mudança histórica que é algo enorme”.
“Estou farta que as pessoas pensem que os temas feministas só afectam as mulheres. Se muda o papel da mulher, muda o papel do homem. E já mudou no último século senão não estaríamos aqui. O que mudou neste ano é a percepção que o modelo machista da sociedade era a normalidade”, acrescentou.
Relativamente à chamada “literatura feminina”, a autora é clara: “não existe”. “Um romance é tudo o que o escritor é. A sua capacidade física, nível económico, e também o género, mas isso é uma característica entre milhões de outras. (…) Hoje em dia há uma maior diferença de visão do mundo entre pessoas que pertencem ao meio urbano ou rural do que entre homens e mulheres”.
No entanto, lamenta que persista o preconceito de se considerar que escrever sobre uma mulher seja uma referência apenas ao universo das mulheres, enquanto quando a personagem principal é um homem se considera que é uma metáfora para o humano.
Aos 19 anos, Rosa Montero começou a publicar enquanto jornalista, tendo lançado o primeiro livro 10 anos mais tarde. Como muitos escritores, começou a escrever quando era criança. “Escrevi os primeiros contos com cinco anos e eram sobre ratos que falavam. A minha mãe guardou esses contos, tenho-os lá em casa. E desde que tenho memória escrevi sempre ficção. É a minha maneira de aguentar a vida”, disse à TRIBUNA DE MACAU.
O jornalismo fica aquém desta paixão pela escrita. “É incomparável, claro. Gostava muito do jornalismo, porque já me cansei um pouco, porque é uma profissão maravilhosa. Permite conhecer outros mundos e outras maneiras de estar no mundo. Permite aprender durante toda a vida, o que é maravilhoso, viajar. Mas pertence ao meu ser social, exterior. Enquanto escrever ficção é estrutural. Para mim é como respirar ou comer. Não sei como poderia viver sem escrever ficção. Para mim forma parte da definição essencial de quem eu sou”.
Rosa Montero, que gosta de jogar com os limites entre a realidade e a ficção, tem como teoria que a maioria dos escritores é obcecada pela passagem do tempo e pela morte. E considera-se mais focada nesses temas do que a média dos autores. “Lembro-me de quando tinha apenas 10 anos dizer a mim mesma que ‘que tarde tão bonita, desfruta dela porque depois o tempo passa, será noite e estarás a dormir na cama, e depois será manhã e estarás no colégio, que aborrecimento. De seguida serás mais crescida, o que é pior, e passado mais tempo morrem os teus pais, e mais adiante estarás tu morta’. E isto já me dizia aos 10 anos. Mas quando estás muito ciente da morte, também estás muito consciente da vida”.
Admite que escreve os livros que gostaria de ler, mas que “somos em primeiro lugar leitores”. As ideias para os livros surgem de repente, como “um sonho que sonhas com os olhos abertos, e de repente vais pela rua e surge-te uma imagem que te emociona tanto que não te cabe no peito, na cabeça, e sentes necessidade de o contar”. Pelo que, apesar de escrever para si mesma, a origem da escrita é a necessidade de comunicar isso aos demais.
“Creio que nós, escritores, somos como portadores dos sonhos da nossa sociedade. Muito dentro de cada um de nós estamos todos. Um autor que é fiel a si mesmo é fiel à sua época”, rematou.
S.F.



