Presidente da União das Associações dos Moradores de Macau (Kaifong) há seis anos, Ng Siu Lai viu a sua carreira política subir a outro patamar depois de ter sido eleita no mês passado como deputada da RAEM na Assembleia Nacional Popular (ANP). Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, defende que as associações locais são “parceiras” do Executivo, fazendo mesmo “parte da governação” e complementando os serviços. Segundo Ng Siu Lai, o facto das associações serem financiadas pelo Executivo não afecta a sua função fiscalizadora. Por outro lado, considera que a integração com a China Continental não serão tão difícil para Macau como para Hong Kong, por uma questão de necessidade do território. Para além disso, sublinha que a questão central para a RAEM poderá residir na forma de atrair quadros bilingues de chinês-português em falta para aproveitar os benefícios das políticas nacionais

 

Viviana Chan

 

-O que a levou a tomar a decisão de concorrer à Assembleia Nacional Popular (ANP)?

-Io Hong Meng era representante dos ‘Kaifong’ na ANP, mas decidiu não se recandidatar. Apresentei a minha candidatura por entender ser necessário manter um representante na ANP. Do ponto de vista pessoal, gostava de participar noutro organismo. Como já fui delegada na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), queria servir as pessoas de outra forma.

 

-Qual é a diferença entre as posições na ANP e CCPPC?

-São muito diferentes. A ANP é um órgão legislativo nacional, todas as leis são feitas lá, enquanto o CCPPC é órgão consultivo, dá sugestões.

 

-Tendo em conta que o desenvolvimento de Macau caminha para uma integração cada vez maior com o Interior da China, mas a Administração do Governo Central é muito diferente, está preocupada com o futuro da RAEM após 2049?

-Não estou nada preocupada com o futuro de Macau depois de 2049. Penso que o desenvolvimento de Zhuhai está melhor que Macau e muitas coisas no Interior da China já estão bem avançadas em comparação com a RAEM, como por exemplo, na construção civil, incluindo a qualidade das canalizações.

 

-Que sugestões ou propostas vai apresentar na ANP?

-Vou estar atenta mais aos assuntos de Macau. No passado, Io Hong Meng apresentou várias sugestões e muitas delas foram ouvidas pelo Governo Central. Alguns problemas levantados estão a ser resolvidos, como por exemplo o das marés salgadas, já que está a ser construído um novo reservatório. Vou acompanhar isso. Além disso, vou focar-me em alguns problemas relacionados com a qualidade de vida dos residentes de Macau, como o problema das inundações no Porto Interior. Já discutimos estes problemas na CCPPC. O Mapa da Divisão Administrativa estende a jurisdição marítima do território, e por isso temos mais facilidades em avançar com obras de melhoramento. A fronteira de Wanzai foi fechada há muito tempo e isso afecta a deslocação de alguns residentes. Vou também acompanhar este assunto. Ao mesmo tempo, vai ser construído um Novo Acesso entre Macau e Zhuhai, a sua própria construção e os assuntos transfronteiriços são temas para ser debatidos. As pessoas podem testemunhar o desenvolvimento do país e, recentemente, no 19º Congresso do Partido Comunista, o Presidente chinês falou da construção de Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. Creio que é uma boa oportunidade, porque as pessoas vivem num espaço limitado e a Grande Baía reúne uma série de cidades às quais se pode chegar dentro de meia hora. Esta ideia pode ajudar a um melhor desenvolvimento de Macau. É necessário dar muita atenção à ideia, ao mesmo tempo, temos de ver o planeamento do Governo Central para Macau, como por exemplo “Um Centro, Uma Plataforma”, que inclui os conceitos de “Centro mundial de turismo e lazer” e a “Plataforma de serviço comercial entre a China e os países da língua portuguesa”.

 

-Muitas pessoas queixam-se que planos como “Um Centro, Uma Plataforma” são pouco produtivos. Qual é a sua opinião? Macau deve continuar neste caminho?

-Não é uma tarefa muito fácil, mas nunca duvido do caminho planeado pelo Governo Central. Pequim focou-se na construção de uma plataforma com os países lusófonos por razões históricas, por isso temos toda a vantagem de desempenhar o nosso papel nesse campo. Isso não é nada fácil. Com a falta de talentos bilingues, como é que podemos aproveitar as políticas de benefícios? Temos de trabalhar todos estes campos.

 

-Tendo em conta que se têm registado muitos conflitos na integração regional de Hong Kong, de que forma é que pode ser assegurado um equilíbrio entre os interesses da população de Macau e os da China?

-Conflitos desse género serão menos intensos em Macau comparativamente a Hong Kong. Macau teve sempre uma relação próxima com Zhuhai e Zhongshan. Devido a razões históricas, muitos residentes de Macau, tanto jovens como a geração mais velha, gostam de ir a Zhuhai. É hábito passear em Zhuhai e as pessoas até preferem fazer lá compras, porque encontram uma actividade mais diversificada, os preços são baixos e há mais escolha. Na minha opinião, os residentes de Macau não têm maus sentimentos sobre o Interior da China. Por exemplo, recebemos mais de 30 milhões de turistas por ano o que, por ser um número grande poder afectar o dia-a-dia dos residentes, mas as pessoas queixam-se pouco. O Governo de Macau deve ter melhores medidas para lidar com as multidões em algumas zonas. Assim, a integração regional não será uma tarefa difícil. Para além disso, a construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong- Macau pode complementar pontos fracos da RAEM, como a falta de talentos, de terrenos e a falta de diversificação do desenvolvimento económico. Portanto, o projecto da Grande Baía vai dar oportunidades a Macau, que servem como mais uma opção para as pessoas. A Grande Baía não é um teste de escolha única, mas de múltipla escolha. Se as pessoas preferirem ficar em Macau podem fazê-lo. Se quiserem ir para a China, também terão esta oportunidade. A entrada em funcionamento da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau vai também contribuir para esta união. Defendemos a ideia de ter lares para idosos de Macau no Interior da China, porque podem dar melhores condições aos idosos. Em Macau, não é possível ter um espaço agradável, porque há falta de espaço e de recursos humanos, nomeadamente de profissionais de saúde. Se criarmos um lar em Zhongshan, podemos ir até lá em 30 minutos, isso é bom. Neste momento, é necessário tratar questões ligadas aos serviços de saúde, transferência de segurança social, pensões, etc.

 

-Perante a falta de diversificação económica local, considera que neste momento Macau tem capacidade para entrar no “jogo” da Grande Baía?

-Parece-me a pergunta de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Ao meu ver, se tivermos desenvolvimento diversificado, conseguiremos manter talentos no território. Macau não consegue reter quadros, uma vez que as pessoas preferem ficar onde estudaram, porque a RAEM só tem jogo. Há falta de oportunidades para estes quadros aplicarem o que estudaram. Se a ideia da Grande Baía for concretizada, as pessoas passam a ter mais opções. O nosso trabalho é criar mais plataformas para as pessoas. Mas, o Governo local precisa de pensar como é que pode dar oportunidades para atrair os talentos bilingues de chinês-português que estão em falta.

 

-E os jovens que frequentaram cursos no território?

-Se eles virem muitas oportunidades, vão esforçar-se para as agarrar.

 

-Considera-os capazes de aproveitar estas oportunidades?

-Estou confiante e optimista. Precisamos de acreditar na estratégia nacional. Há alguns motivos para os jovens de Macau não quererem ir para China, por exemplo, conhecem pouco do país. Por isso, o Governo deve trabalhar para promover e explicar aos jovens o progresso de desenvolvimento do Interior. Por exemplo, pode dar a conhecer o parque industrial de Cuiheng, destinado a incubadoras de empresas.

 

-Macau tem muitas associações com um papel forte na sociedade. Como descreve a relação entre o Governo e as associações?

-As associações de Macau são parceiras do Governo, fazem parte da governação. Faz parte da história de Macau. Antigamente, durante a administração portuguesa o desempenho do Governo era muito fraco, não contribuía muito para a prestação de serviços sociais, educação e noutros campos, pelo que as associações complementavam essas falhas. Até à criação da RAEM, não era possível dissolver todas as associações para que o Governo voltasse a assumir os trabalhos executados por elas. A evolução ditou que houvesse uma maior cooperação entre as associações e o Governo para promover o seu desenvolvimento, tais como na educação e na governação. Este modelo é muito representativo do carácter de Macau.

 

-O que acha do funcionamento interno e participação política das associações?

-O desenvolvimento dos “Kaifong” tem sido muito rápido, como também de outras associações. Há mais de oito mil associações, mas é preciso saber o seu objectivo de existência. Nós somos uma instituição dedicada aos serviços sociais e sem fins lucrativos. O nosso objectivo principal é criar uma ponte de comunicação entre os residentes e o Governo, e fiscalizar os trabalhos do Executivo também é uma tarefa nossa. A constituição, estrutura e o modo do funcionamento dos “Kaifong” são aspectos que precisam de satisfazer os princípios de abertura e transparência.

 

-E os “Kaifong” têm sido capazes de satisfazer o princípio da transparência?

-Sim, mas precisamos de fazer melhor, melhorar a nossa gestão, por exemplo a nível do regime de contabilidade, dos subsídios atribuídos pela Fundação Macau e o pagamento da aquisição dos serviços pelo Governo. Agora, é necessário entregar as contas à auditoria e as nossas são verificadas e reconhecidas por profissionais. Estamos também a fazer balanços dos nossos trabalhos.

 

-Mas, várias vozes exigem mais transparência nas actividades das associações.  

-Estamos sempre a divulgar informações da associação, incluindo as contas. Os residentes podem ter acesso a essa informação no website e desde 2007 que publicamos o relatório anual. Espero que a sociedade seja justa sobre os serviços prestados pelas associações. O Governo atribui o dinheiro, as associações prestam os serviços. A Administração não tem assim tantos trabalhadores para assumir estes trabalhos e muitos deles até envolvem a contribuição de voluntários, por exemplo, as visitas a idosos que vivem sozinhos. Visitamos entre mil a dois mil idosos por mês. Se o Governo agarrasse estes trabalhos, teria despesas elevadas e nem é possível ter tantas pessoas a fazer isso. Nesse contexto, os “Kaifong” unem as forças dos moradores para ajudar as pessoas.

 

-Se os “Kaifong” recebem dinheiro do Governo para a prestação de serviços sociais, mas também fiscalizam o trabalho da Administração, isso não poderá ser algo contraditório? O financiamento não condiciona a fiscalização?

-Não existe contradição, porque são duas coisas separadas. Sinceramente, podemos continuar a trabalhar mesmo sem o financiamento do Governo. Antes da transferência de soberania, não recebíamos subsídios e também visitávamos os idosos, como hoje em dia, só que tínhamos poucas coisas para dar. O nosso trabalho não está dependente dos montantes dos subsídios atribuídos pelo Executivo. Em relação à fiscalização, se o Governo não trabalhar bem, iremos dizê-lo sempre. Queremos dar uma voz à população, em vez de estar contra apenas por ser do contra.

 

-O alegado caso de compra de votos nas eleições legislativas, ligado à lista apoiada pelos Moradores, provocou uma chuva de críticas. Considera que danificou a imagem dos “Kaifong”?

-Precisamos mais uma vez de esclarecer que o centro de serviços sociais trabalha 365 dias por ano, não é só naquele dia de eleições. Por isso, acredito que são duas coisas diferentes, uma coisa é oferecer o pequeno-almoço, outra é a compra de votos. Se lhe oferecer um saco de biscoitos, vai mudar de ideias quanto ao voto? Depois desse caso, fiquei a saber que cada biscoito custa apenas três patacas… acha que isso vai fazer as pessoas mudar a intenção de voto?