Veio de Portugal, em 1994, para fundar a ADA – Administração de Aeroportos e teve como principal missão gerir o Aeroporto Internacional de Macau até 1999. Mas António Rato foi também o responsável pela formação de pessoal qualificado, essencial para um bom desempenho da infra-estrutura. É descrito como rigoroso e apaixonado pelo trabalho relacionado com aeroportos

 

Helder Almeida

 

“O que é hoje o Aeroporto Internacional de Macau deve-se muito a António Rato”, afirma João Costa Antunes ao JTM sobre o homem que foi o primeiro director daquela infra-estrutura, inaugurada em 1995, e que ontem morreu, aos 59 anos, vítima de doença, no Hospital Conde de São Januário. Membro no Conselho de Administração da ADA – Administração de Aeroportos, e consultor da CAM – Sociedade do Aeroporto de Macau, António Rato estava doente há cerca de um ano.

Aurora Santos, do gabinete jurídico da ADA, trabalhou desde o início, em Macau, com António Rato. Depois de ter passado por Lisboa, onde trabalhou para a ANA – Aeroportos de Portugal e para o Ministério dos Assuntos Sociais – entre 1987 e 1990 -, o gestor chegou a Macau em 1994 para criar a ADA.

“Trouxe uma equipa fantástica de Portugal e ele nisso era muito bom porque sabia-se rodear de excelentes profissionais e não temia a concorrência”, explica Aurora Santos ao JTM. “A ADA é um exemplo de gestão, é uma empresa muito simples e muito bem estruturada, construída com bom-senso, que era uma característica dele”, sublinha a advogada da empresa, e que o assessorava nas reuniões da empresa. “Sem dúvida que a ADA tem o ADN de António Rato”.

O gestor teve ainda a capacidade de saber fazer uma ponte “excelente” entre a China e Portugal. Até 2011, a ADA teve capital português – através da ANA – Aeroportos de Portugal – e da CNAC – China National Aviation Corporation. Primeiro, fez questão, em 1999, de ser ele próprio a entregar a obra a responsáveis chineses e, depois, “conseguiu, de uma forma bastante pragmática, convencer a empresa de que a presença portuguesa nesta empresa é muito importante por causa dos especialistas que têm o ‘know-how’”.

Após 1999, António Rato teve dois anos na ANA, como director de um gabinete para a Privatização e Novo Aeroporto de Lisboa, segundo o seu perfil online do LinkedIn (uma página na internet que funciona como um currículo vitae sempre actualizado). Mas em Maio de 2002, regressou a Macau e assumiu vários cargos de direcção na CAM. Depois de 2010, e até agora, as suas funções nesta empresa passaram a resumir-se às de consultor, devido à sua larga experiência no sector da aviação. Em Setembro de 2011 passou ainda a fazer parte do Conselho de Administração da ADA.

A maior parte do seu tempo era dedicado a este sector. Aurora Santos ressalva que não era um “viciado em trabalho” mas era antes “um apaixonado pelo trabalho” pois de facto “gostava muito de aeroportos”.

 

Rigoroso e profissional

Costa Antunes também conheceu António Rato em 1994 e firmou-se uma amizade. “Fiquei desolado com este desenlace, com todo o desenvolvimento da sua doença”. Do gestor destaca que “a sua passagem por Macau teve a importância de fazer desenvolver o projecto do Aeroporto Internacional mas também de formar pessoal qualificado”. Criou, assim, “condições para que houvesse um corpo de técnicos do aeroporto”. No mesmo sentido, destaca que António Rato desenvolveu “um trabalho bastante rigoroso e profissional”.

Quando conheceu António Rato, aquando da formação da ADA, José Luís de Sales Marques era presidente do Leal Senado. “Travámos maior contacto nessa altura, antes da inauguração do aeroporto [em Dezembro de 1995] e a ligação que mantivemos foi sempre muito boa e agradável e fiquei com a noção de que era uma pessoa muito competente e que tinha ideias concretas sobre como desenvolver o projecto”.

Sales Marques recorda duas situações que obrigaram o Leal Senado a contactar de forma mais próxima com os responsáveis da ADA. “O Leal Senado era a entidade responsável pela gestão dos táxis e antes da inauguração do aeroporto surgiu um problema porque os taxistas não queriam ir lá, diziam que era muito afastado e que não havia ninguém, e foi então que se criou um complemento na tarifa para tornar a ida ao aeroporto mais atractiva”. Depois, foi também o Leal Senado que “passou a fazer o controlo de qualidade dos alimentos servidos nos aviões”. E durante todo este processo, foi sempre “muito prestável e simpático”.

António Rato formou-se entre 1979 e 1984 no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa. Segundo foi adiantado ao JTM, tinha-lhe sido diagnosticado um cancro no pulmão.

 

AACM lamenta a morte de “um pioneiro”

O JTM pediu um comentário a Simon Chan, CEO da Autoridade de Aviação Civil de Macau (AACM), que por escrito disse ser “com grande pesar que a AACM” ouvia “a triste notícia do falecimento do Sr. António Rato”. “A indústria da aviação de Macau beneficiou com a sua contribuição, como um pioneiro na fase inicial de desenvolvimento [do sector]”, referiu.