Chui Tak Kei foi vice-presidente da Assembleia Legislativa mas era o seu papel social enquanto presidente da associação Tong Sin Tong que mais valorizava, garante o filho, Chui Sai Peng. A biografia sobre a sua vida, que mostra as várias vertentes deste actor político, é também uma forma de corrigir lacunas existentes sobre a história de Macau no século XX, indica João Guedes

 

Salomé Fernandes

 

O livro “Chui Tak Kei, A História numa Biografia” ilustra, entre fotografias e texto, a vida da figura social e política, que acompanhou momentos importantes de Macau ao longo do século XX. “Acho que o que mais prezava era o trabalho de caridade que fazia, porque amava muito as pessoas de Macau e sempre dedicava o seu tempo [à Associação de Beneficência] Tong Sin Tong”, disse Chui Sai Peng, seu filho, à TRIBUNA DE MACAU.

“Ele dizia que podia abdicar de tudo, mas que iria permanecer na presidência da Tong Sin Tong até já não conseguir desempenhar a actividade, e creio que cumpriu esta promessa”, explicou, à margem da sessão de lançamento do livro, que decorreu no sábado no Albergue SCM.

O autor do livro, o jornalista João Guedes, salientou durante a apresentação da obra que a prova de fogo da associação integrada por Chui Tak Kei se deu durante a Guerra do Pacífico, quando a cidade enfrentou um aumento da população de 200 mil pessoas para mais de meio milhão de “famintos”. Durante os oito anos de duração dessa situação, o biografado envolveu-se nas operações humanitárias.

No entanto, este não foi o único episódio vivido por Chui Tak Kei. Nascido no ano na queda do milenar Império do Meio, em 1911, na sequência da revolução republicana, conheceu os abalos sociais por que Macau passou devido às várias correntes revolucionárias sentidas em Guangdong, a greve geral de 1922, a mudança de regime na China e serviu de intermediário entre a população portuguesa e a chinesa. Veio a desempenhar funções de vice-presidente da Assembleia Legislativa, teve lugar no Conselho Consultivo do Governador e na vereação do Senado, para além de ter sido membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da RAEM.

Interessado pela política, mas também pelas artes, diz o seu filho que procurava apoiar os jovens a atingirem o seu potencial. “Ele praticava basquetebol e treinava jovens em desporto, mas também em vertentes mais calmas como a pintura, poesia, caligrafia. Fazia o que podia para ajudar a encaminhar os jovens”, disse Chui Sai Peng.

O actual deputado da Assembleia Legislativa diz que enquanto pai Chui Tak Kei “era um educador muito bom”. “Quando eu era muito pequeno comprou-me 10 volumes de histórias chinesas e à noite sempre que tinha tempo lia-me esses livros. Diria que começou uma tradição, porque guardei esses livros e quando tive os meus filhos também lhos li e disse para os guardar. Espero que continuem a passar esses livros [às futuras gerações] e que um dia se possa tornar uma tradição familiar”, descreveu.

Tradição familiar parece ser também a ligação entre a política e a economia que corre nos membros da família. Chi Tak Kei era tio do actual chefe do Executivo, Chui Sai On. “Todas as pessoas têm uma posição e um papel na cidade, na sociedade, nas famílias e todos os membros da nossa família estão no sítio certo. Qualquer forma de serviço à comunidade deixaria o meu pai orgulhoso”, afirmou Chui Sai Peng, que para além de estar à frente da empresa “CAA City Planning and Engineering Consultants” foi eleito deputado pela via indirecta.

 

Biografias que dão luz à História

João Guedes lamentou durante a apresentação que a dispersão de arquivos sobre o século XX em Macau atrase o processo de investigação histórica. Mas apresentou uma solução temporária.

“A área das biografias pode constituir-se como um bom campo para preencher lacunas de uma forma mais lesta, mas não só”, afirmou, acrescentando que “será também uma forma de enquadrar a história e não diria substituir inteiramente, mas registar em letra de forma momento e conjunturas, ilustrar decisões, explicar passos indefinidos, enfim reter a memória que o documento perecível não reteve, ou que a acta oficial não quis referir”.

Nesse sentido, “precisamos de mais pessoas a escrever as suas pequenas histórias, que iam ajudar os historiadores a escrever as grandes histórias”, apelou José Rocha Diniz, que editou a parte portuguesa do livro trilingue. Só assim Macau será melhor compreendido dentro e fora da RAEM, frisou.