No arranque do novo ano lectivo, as escolas do ensino secundário geral e complementar têm ao seu dispor uma nova ferramenta de trabalho: o mais recente currículo musical, desenvolvido por uma equipa liderada pela docente de Hong Kong, Marina Wong, que assenta sobretudo na liberdade educativa em prol de uma nova forma de olhar para a música, o ensino e a aprendizagem 

Catarina Almeida

As exigências básicas da educação regular do regime escolar local estão a ser implementadas, de forma faseada, desde o ano lectivo 2015/16. Com este novo regime, cada instituição de ensino terá de cumprir determinadas exigências com materiais didácticos e outras actividades. Entre essas disciplinas enquadra-se a Música tida como uma “disciplina separada” perante a qual as escolas (do ensino primário, secundário complementar e secundário geral) têm a liberdade de incluir no rol de actividades lectivas obrigatórias, na componente artística. Ora, o regulamento administrativo aprovado em Maio de 2014 está já a ser implementado nos 1ºs anos do ensino secundário geral e complementar desde o ano lectivo passado, prevendo-se a implementação, a partir de Setembro, aos 2º anos do mesmo ano de escolaridade remetendo, para o próximo ano 2019/20 a última fase.

Em suma, com estas exigências, as escolas têm em mãos novas formas de executarem a educação e o ensino, e de elaborarem currículos de diversas áreas de aprendizagem e disciplina. É em todo este contexto que se enquadra a elaboração do novo currículo musical para os dois níveis de ensino secundário desenvolvido por uma equipa liderada por Marina Wong, docente de Hong Kong, a convite da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ).

A primeira iniciativa foi concretizada em 2015, para ser implementada nas escolas de ensino secundário geral (7º a 9º anos de escolaridade). Em suma, após entrevistas e idas a 10 escolas do território entre Março e Agosto do mesmo ano, a equipa fechou o programa curricular de ensino musical com base (também) nas percepções dos professores recolhidas por Marina Wong. Preocupações essas que acabaram reunidas numa investigação a que a TRIBUNA DE MACAU teve acesso. “Não há muita investigação sobre o ensino da música em Macau. A educação musical acaba por ser um aspecto pouco importante porque ninguém quer saber sobre os currículos musicais; e também não há muita gente interessada em estudá-los”, lê-se.

Além desta docente nas restantes quatro entrevistadas foi transversal a necessidade de uma reforma curricular a este nível desde que com o indispensável contributo de professores locais. “O impacto destas percepções moldou o papel da equipa de projecto como facilitador para ajudar estes docentes de Macau a desenvolverem o seu próprio currículo musical. Este papel-facilitador pretendia que os participantes desenvolvessem o seu próprio trabalho e liderassem o currículo de ensino musical. Uma intenção que foi facilmente endossada”, vinca Marina Wong.

Ora, esta autonomia que a docente na RAEHK aborda é uma das bases da reforma curricular do ensino musical. A este objectivo estão associados outros como desenvolver o conhecimento musical e a educação holística; enriquecer o saber cultural e potencialidades criativas bem como a capacidade para criar. Uma nova orientação que promete facilitar e ajudar os professores de música mas também os alunos dando-lhes mais liberdade e espaço para criarem e desenvolverem os seus próprios gostos musicais. O currículo foi publicado em Maio deste ano, apenas na versão chinesa, por forma a ser adoptado já no arranque de Setembro.

Para a elaboração deste currículo participaram duas professoras de música de Hong Kong, três de Macau na composição do documento e mais quatro na vertente prática para testar os exemplos de trabalho integrados no currículo. Mais de uma dezenas de escolas foram visitadas, e os seus docentes entrevistados, entre Maio e Junho últimos.

Centrado no aluno

Uma das principais diferenças com a implementação deste novo currículo reside no facto do mesmo abranger os dois níveis de ensino secundário já que a versão antiga estava confinava única e exclusivamente ao ensino secundário geral. Outra grande diferença prende-se com a “rigidez curricular”. “Não vamos pedir aos professores para usarem as mesmas ferramentas. Essa não é uma boa forma de ensinar música. Cada professor tem as suas forças e habilidades numa determinada área – música clássica, etc”.

Tanto que, “se o professor for forçado a cumprir uma determinada metodologia isso irá dificultar-lhe a forma como conduzem as aulas de acordo com o seu estilo pessoal de ensino e os interesses dos alunos”, explicou Marina Wong, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Neste sentido, o novo currículo musical coloca a tónica na aprendizagem do aluno sendo ele, de resto, também o foco. “Ao mesmo tempo permite que o professor escolha e reúna os materiais didácticos e a estratégia que melhor se adeque à diversidade, interesses e habilidades da turma. Isto pode ajudar a resolver – o actual – problema do gap geracional a nível dos interesses musicais entre os professores e os alunos”, acrescentou Marina Wong.

Um desafio que Li Iok Meng, professora há quase duas décadas, já teve lidar. “Temos esse gap geracional e, ao mesmo tempo, temos de seguir as tendências e acompanhar os gostos dos alunos. Só a partir daí é que podemos organizar as nossas aulas com base nos seus gostos por forma a captar a atenção e, sobretudo, o interesse, pois isso irá motivá-los a aprender música de uma forma mais ampla”, vincou em conversa com este jornal.

Noutra perspectiva, com esta reforma curricular pretende-se também encorajar os professores a usarem uma variedade de estilos musicais típicos das culturas ocidentais, locais, entre outras. “A cultura de Macau é tanto chinesa e macaense como global porque temos diferentes nacionalidades no território. É bom que os professores estejam a par das novas tendências musicais à escala mundial que, de resto, devem focar-se nas componentes criativas, analíticas e práticas”, notou Marina Wong.

No fundo, pretende-se “que os professores tenham ampla liberdade e flexibilidade para decidir os materiais a utilizar e as estratégias a seguir, com o objectivo de atender às capacidades e interesses dos alunos”.

Desse modo, segundo Li Iok Meng, “os alunos estão mais atentos e interessados nas aulas de música. No passado, os estudantes tinham de interpretar, cantando algumas músicas e pronto. Agora não”.

“O objectivo é dar-lhes tempo suficiente não só para compor mas também para ouvirem música que seja do seu agrado e estudá-la. Pretendemos usar a música como algo que fique para sempre nas suas vidas e não apenas naqueles minutos em que estão circunscritos à sala de aula”, rematou.