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Em funcionamento há três anos, o Centro de Aconselhamento sobre o Jogo e de Apoio à Família de Sheng Kung Hui lançou um novo serviço de apoio que pode ser utilizado através das redes sociais ou aplicações de telemóveis. Uma estratégia que recorre às novas tecnologias para encontrar casos “escondidos” relacionados com o jogo compulsivo. De acordo com Bonnie Chang, responsável do centro, o número de jogadores em Macau não tem vindo a registar uma grande oscilação, mas os casos reincidentes são uma situação que preocupa

 

Viviana Chan

 

C20140710-1012criado em 2010, o Centro de Aconselhamento sobre o Jogo e de Apoio à Família de Sheng Kung Hui conta com mais de 3.100 membros registados. Segundo Bonnie Chang, directora do espaço, a principal tarefa passa pela prestação de serviços de aconselhamento sobre o jogo e apoio às famílias, mas não só. Para além de pessoas que sofrem problemas de jogo patológico, o centro apoia também os respectivos membros familiares. Situado na zona do Fai Chi Kei, o centro está equipado com salas de convívio, leitura e espaço de brinquedos para as famílias membros.

No início do mês, o centro aderiu às novas tecnologias e começou a prestar serviço de aconselhamento através de aplicações de telemóveis e redes sociais. A ideia serviu para criar mais acessos aos casos “escondidos”, sobretudo nas camadas mais jovens, estando disponível 24 horas por dia.

Actualmente, 22,4% das pessoas que pedem ajuda ao centro são da chamada “nova geração”, referiu Bonnie Chang. “Reparámos que esta taxa não era baixa, e que os jovens pertencem a um grupo que necessita de apoio psicológico pelo facto de jogarem de forma contínua”, disse ao JTM.

O responsável do serviço “hotline”, o psicólogo Ng Wai Ip, revelou que, na primeira semana, uma dezena de pessoas pediu ajuda através da aplicação de telemóveis. Para além de problemas ligados ao jogo compulsivo, alguns pedem ajuda por causa de problemas matrimoniais.

Ng Wai Ip explicou que a técnica que utiliza passa por perceber primeiro a situação da pessoa, e depois tentar explorar a sua relação com a família. De seguida, numa segunda fase, o psicólogo tenta incentivar as pessoas, afirmando que é possível melhorar e encontrar uma solução.

 

Trabalhadores dos casinos são

“vulneráveis ao impacto negativo”

Entre as pessoas que pedem apoio psicológico ao centro, 22% são “croupiers”, facto que levou a responsável a mostrar a sua insatisfação com o trabalho feito pelo Governo relativamente à protecção da população, considerando que as medidas actuais não são suficientes. “As informações sobre o jogo estão integradas na vida quotidiana das pessoas”, indicou Bonnie Chang, classificando a fiscalização das autoridades como “fraca”. Para além disso, existem muitos que pediram para não jogar, através do sistema de auto-exclusão, mas que continuam a poder fazê-lo. Apesar de ser uma boa política, acaba por falhar em termos práticos, lamentou.

Também a protecção que existe aos próprios trabalhadores da indústria é “pouca”, havendo uma taxa elevada de “croupiers” que jogam. O Governo lançou a política de auto-exclusão há cerca de dois anos, mas, na altura, não incluiu os funcionários do sector, afirmando que colocaria em causa o direito humano, uma explicação que não convence Ng Wai Ip. “Os trabalhadores do sector estão vulneráveis ao impacto negativo da indústria, sobretudo no seu trabalho, podendo transmitir uma ideia errada”, indicou.

Bonnie Chang acrescenta ainda que “as operadoras devem assumir mais responsabilidades para promover o jogo responsável”, não devendo haver tantos panfletos a circular, como nos “shuttle bus”, que “promovem informação prejudicial”.

O número de jogadores viciados não tem vindo a oscilar muito, considera a directora do centro, citando a título de exemplo um estudo feito pela Universidade de Macau, que refere que 2,8% da população é afectada pelo jogo, uma taxa que se tem vindo a manter.

O vício de jogo apresenta várias semelhanças com os vícios da droga ou do álcool e, por isso, são situações em que os casos reincidentes são comuns, acrescentou a directora.

De acordo com dados estatísticos do centro, até final de 2013 a instituição tratou mais de 300 casos. Entre as pessoas que já pediram ajuda, 60% são homens e os restantes 40% são mulheres.

A responsável máxima do centro indicou ainda que as pessoas com idade superior a 40 anos representam a maioria dos casos (53,2%). Ainda segundo as estatísticas solicitadas pelo JTM, há 22,4% de casos compreendidos na faixa etária entre 19 e 30 anos, 23,9% têm entre 31 e 40 anos, 17,2% entre 41 e 45 anos e 36% com idade superior a 46 anos.

Existem ainda uma taxa elevada de pessoas ligadas a trabalhos manuais, como cozinheiros ou trabalhadores da construção.

 

Como negociar com agiotas

Uma das primeiras coisas que o centro ensina às pessoas com dívidas é que não devem fugir dos agiotas. “Se não atendem as chamadas dos agiotas eles vão ficar ainda mais aborrecidos”, disse Bonnie Chang. Ao mesmo tempo, os assistentes sociais ensinam como negociar com esse tipo de pessoas, normalmente propondo um plano de pagamento das dívidas. “Podemos sugerir, por exemplo, vender bens para pagar a dívida ou negociar com credores para pagar por fases”, disse a responsável, salientando que este tipo de encargos normalmente implica o pagamento de juros diários.

Este tipo de pagamento já é, por si só, um peso grande e, por isso, os assistentes sociais sugerem às pessoas que revelem a sua situação financeira aos agiotas, mostrando vontade de pagar dívidas ao mesmo tempo que tentam convencer os credores.

A responsável sublinha ainda que encorajar os devedores a pagar as dívidas é um dos objectivos do centro, e que não devem requerer empréstimos a outras companhias. “Ensinamos como é que podem assumir as consequências causadas do jogo”, prosseguiu.

Para Ng Wai Ip, o ambiente vivido em Macau constitui o maior desafio para o seu trabalho, sendo um território muito pequeno e com uma densidade elevada de casinos. “Em dez minutos as pessoas podem entrar em qualquer casino”, disse.

Bonnie Chang acrescenta ainda que em Macau não existe muita iniciativa própria das pessoas para pedir ajuda, assumindo que os seus comportamentos não revelam qualquer tipo de problema. Para além disso, existe também um preconceito sobre o apoio psicológico. “As pessoas acham que receber apoio psicológico significa que estão doentes”, indicou. Por outro lado, a responsável sustenta que os jogadores, por vezes, não dão muita importância a este tipo de tratamento. Nesse sentido, muita gente desistiu de aceitar mais apoio psicológico depois de duas ou três sessões, lamentou.